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Quando defender virou resistência: o goleiro que seguiu jogando pelo pai

da redação - 27 de jan de 2026 às 14:39 27 Views 0 Comentários
Quando defender virou resistência: o goleiro que seguiu jogando pelo pai Da Redação

Aos 20 anos, o goleiro Mateus Rodrigues de Souza carrega uma relação íntima com a posição que escolheu ainda criança. “Sempre gostei da responsabilidade e da adrenalina”, resume. A frase ajuda a entender não apenas a opção pelo gol, mas também a forma como ele atravessou mudanças precoces, decisões difíceis e perdas profundas ao longo da formação no futebol sul-mato-grossense.

 

Nascido em 28 de fevereiro de 2005, em Dourados, e criado em Deodápolis, Mateus teve o primeiro contato com o futebol acompanhando o pai em jogos amadores. “Comecei desde cedo, indo com meu pai para os jogos. Depois entrei em uma escolinha que tinha na minha cidade.” A escolha pela posição veio de maneira quase natural. Filho de ex-goleiro, ele percebeu rapidamente que teria mais espaço no gol do que na linha. “Como jogador de linha eu não me sobressaía nem na velocidade nem na qualidade técnica. Decidi ir para o gol e foi lá que minha vida no futebol começou a andar para frente.”

 

A primeira grande barreira não foi técnica. Aos 11 anos, Mateus deixou a casa dos pais para morar em outra cidade e disputar campeonatos pela escolinha PróGol. “Nunca tinha ficado longe dos meus pais. Foi minha primeira dificuldade no futebol.” A adaptação foi gradual. “Depois da terceira vez que fiquei longe de casa, já estava acostumado. Aquilo já fazia parte de mim.” A partir dos 14 anos, vieram as viagens interestaduais, títulos em campeonatos de base e uma rotina mais próxima do alto rendimento.

 

Entre os 16 e 17 anos, defendeu o Instituto AEFA, de Dourados, período em que disputou o Campeonato Sul-Mato-Grossense Sub-17. O título veio em uma final contra o GSA, de Campo Grande, garantindo vaga para a Copa do Brasil da categoria. “Foi meu primeiro título estadual.” No mesmo ano, integrou a seleção sul-mato-grossense de futsal, ficando com o segundo lugar no nacional escolar.

 

A passagem para o Sub-20 trouxe novos desafios. No Ivinhema FC, Mateus não começou como titular, mas ganhou uma oportunidade decisiva no primeiro jogo da final do estadual, contra o ABC, de Campo Grande. A partida, disputada sob chuva intensa e campo pesado, marcou um divisor de águas. “Mesmo jogando várias finais na minha vida, aquela seria onde eu faria meu nome ou destruiria ele.” O nervosismo durou pouco. “Depois que peguei a bola pela primeira vez, o medo foi embora.” O Ivinhema venceu por 1 a 0, e Mateus recebeu o troféu de craque da partida. “Foram muitas defesas cara a cara, principalmente a do último lance.”

 

O apito final teve um significado maior fora das quatro linhas. “Saí correndo para o alambrado procurando meus pais. Eles estavam lá. Dei um abraço apertado nos dois.” A lembrança ainda é precisa. “Nunca esqueço do meu pai dizendo que estava muito orgulhoso de mim, chorando na minha frente.”

 

Mesmo sem atuar no segundo jogo da final, que terminou com o vice-campeonato, Mateus foi integrado ao elenco que disputou a Copa São Paulo de Futebol Júnior. “Era um sonho realizado só de estar ali. Um campeonato que te deixa pequeno, mas que pode realizar sonhos.” Ele não entrou em campo, mas considera a experiência determinante. “Só de ter ido, já posso contar para os meus filhos como é estar entre os melhores.”

 

Após a competição, recebeu o convite para assinar o primeiro contrato profissional, mas recusou. “Sentia que precisava ficar com a minha família. Não sabia explicar, mas lá na frente tudo seria esclarecido.” No ano seguinte, o serviço militar interrompeu a sequência no Sub-20. “Sem dúvida foi um dos piores anos da minha vida. Via meus amigos jogarem o estadual e eu empacado.”

 

O retorno veio com um convite para defender o Naviraiense em seu último ano de Sub-20. Mateus assumiu a titularidade e integrou um elenco considerado azarão. “Tínhamos muitos jogadores que jogavam juntos desde a infância. Eu sabia que a gente chegaria.” A campanha avançou até que, antes das quartas de final, a vida mudou de forma definitiva. “No dia 14 de agosto de 2025, meu pai faleceu.” A decisão inicial foi abandonar o futebol. “Achei que não tinha mais razão para jogar.” Após conversas e apoio, voltou às semifinais. “Sabia que, se ele estivesse aqui, iria mandar eu continuar.”

 

A vaga na final e na Copinha foi conquistada, mas o último jogo trouxe um desfecho inesperado. Antes da decisão, ouviu do capitão uma frase que carregaria para o campo. “O chute que você não alcançar, seu pai alcançará por nós.” Aos nove minutos de jogo, uma saída para antecipar o atacante resultou em uma lesão grave no joelho. “Escutei um estralo e veio uma dor insuportável.” Exames posteriores confirmaram a ruptura do ligamento cruzado anterior.

 

Mesmo com a derrota e o vice-campeonato, Mateus encerra o ciclo com uma certeza. “Ainda consegui trazer mais uma medalha para casa.” A cirurgia está prevista para este ano, e o retorno aos gramados ficou para o próximo. “Depois que meu pai morreu, nada é igual. Nunca vai ser.” A frase seguinte aponta o caminho. “Mas pode anotar: voltarei mais forte.”

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