Terça-feira, 24 de fevereiro de 2026, 18:18

Disciplina, comunidade e arena: o CrossFit na vida de Bianca Raffi

da redação - 24 de fev de 2026 às 15:18 20 Views 0 Comentários
Disciplina, comunidade e arena: o CrossFit na vida de Bianca Raffi Da Redação

“Você literalmente vive para ficar confortável sendo desconfortável.” A frase resume a relação de Bianca Arantes Kreisel Raffi, conhecida como Bianca Raffi, com o CrossFit. Nascida em 12 de março de 1982, em Campo Grande (MS), ela iniciou na modalidade em 2019 e hoje integra o CrossFit Pantaneiros, um dos boxes pioneiros do Estado.

 

Bianca conheceu o CrossFit quando já treinava musculação diariamente. “Estava um pouco acima do peso e me dediquei por conta de lesões de joelho, para fortalecimento e baixar o peso”, relata. A aproximação com a modalidade ocorreu por influência da personal trainer, Celina Mayra, que já era praticante. “Me interessei pelo estilo que misturava um pouco de tudo: ginástica, LPO e também endurance — um cardio mais acelerado e não tão óbvio quanto os exercícios que eu já conhecia nas aulas tradicionais de academia.”

 

O início foi gradual. Por causa das limitações nos joelhos, ela começou pelo endurance, seguindo orientação médica e da treinadora. “No início, não consegui fazer tudo”, afirma. Esse período durou quase um ano. Em 2020, antes da pandemia, passou a frequentar as aulas regulares e decidiu permanecer. “Me apaixonei pela metodologia, principalmente pelo LPO, porque amo pegar peso.”

 

A permanência, segundo ela, não se explica apenas pelo treino. “Permaneço pelo senso de comunidade, onde todos torcem uns pelos outros, pelo desafio diário e por poder competir.” Bianca diz que não competia desde a adolescência, na escola. “Eu sempre fui muito competitiva e poder fazer isso depois de mais velha eu adorei a oportunidade.”

 

Hoje, o CrossFit representa mais do que desempenho físico. “Ele representa um momento de encontrar os amigos, as turmas, os coaches; momento de tomar café, falar do dia que vai começar e treinar em comunidade.” Para ela, o box se tornou parte da rotina social. “Eu amo o meu box, amo os amigos que fiz ali. Alguns saíram de lá, mas não saíram da minha vida. Então, hoje, ele representa amizade.”

 

A rotina já incluiu três treinos por dia, especialmente no período em que passou a competir. “Me virava entre trabalho, musculação, CrossFit e casa. Sou muito focada.” Ela relata que organizava o dia em horários fixos. “Às 6 da manhã, às 12 e às 19, quando alguns ainda dormem, almoçam ou descansam após o trabalho, eu opto por treinar.” Segundo Bianca, a organização é determinante. “Só não treina e se dedica quem não quer arrumar o tempo e se organizar para isso.”

 

Com o aumento das demandas profissionais, a carga de treinos diminuiu. Ainda assim, mantém regularidade. “Pelo menos um treino sempre sai — nem que seja no CrossFit ou na musculação.” Quando possível, divide o dia entre CrossFit às 7h, musculação ao meio-dia e cardio à noite. Caso contrário, prioriza a rotina familiar. “Vou para casa fazer a janta para a família, o que faço questão de fazer todos os dias.”

 

Entre as competições, ela destaca a primeira participação na categoria Scale. “Sem saber o que eram os exercícios, nem executá-los muito bem, mas fui campeã com minha dupla ‘Cookies and Beer’.” A partir daí, decidiu buscar novos desafios. Participou de edições do Open, competiu em trio em São Paulo ao lado do filho e integrou duplas em eventos regionais.

 

Um dos momentos mais desafiadores foi nas seletivas do Torneio CrossFit Brasil (TCB) em 2024. “Passei para a fase presencial e fui competir com mulheres que admirava demais em Jundiaí (SP). Não classifiquei para a final, mas foi emocionante estar ao lado de mulheres tão fortes.” Ela também faz uma reflexão sobre lesões. “Quem machuca não é o CrossFit, e sim o ego ou a irresponsabilidade do praticante. Eu fui algumas vezes irresponsável e hoje pago o preço por isso.”

 

Entre os aprendizados, Bianca resume: “Técnica vem antes da carga.” Ela reconhece que nem sempre seguiu essa orientação. “Assumo que algumas vezes eu também não respeitei.” Outra frase recorrente nos treinos se tornou referência pessoal: “Consistência vence o talento.” Para ela, o progresso no esporte e na vida “é lento e não linear”.

 

Em relação ao cenário estadual, Bianca avalia que há retomada após a pandemia. Cita campeonatos recentes que reuniram centenas de atletas e dezenas de academias em Campo Grande, além da movimentação em cidades como Dourados. Ela observa que o número de boxes afiliados reduziu em comparação a anos anteriores, mas aponta engajamento nas competições e no Open. “Está sendo relevante e apreciado. Só falta incentivo do nosso Estado e dos nossos representantes para ajudarem a patrocinar essa modalidade.”

 

Entre as dificuldades técnicas, ela aponta a ginástica como principal desafio atual, especialmente o ring muscle-up. “Já executei bem esse exercício e hoje, por conta de algumas limitações, ele voltou a ser o meu calcanhar de Aquiles.” O WOD que considera mais marcante é o Murph. “É o tal do ‘quebra-alma’”, diz.

 

Fisicamente, Bianca afirma que houve mudança na composição corporal e na capacidade funcional. “Dormir melhor, acordar melhor, ter mais disposição — isso é real.” No aspecto mental, destaca a redução do estresse e o enfrentamento de frustrações. “Você até pode muito, mas não tudo.”

 

O objetivo imediato é retomar a rotina após um período de lesões. “O maior objetivo é continuar treinando.” Ela projeta voltar às competições, possivelmente em equipe. “Quando achar que chegou no seu limite, vai um pouco mais”, afirma, ao explicar como lida com a pressão interna.

 

Para quem tem receio de começar, o conselho é direto: “O maior erro é esperar se sentir pronto antes de começar.” Segundo ela, a sensação de exaustão inicial é passageira. “Todo mundo que você vê lá hoje já passou pelo momento de achar que não dá conta.” E conclui: “O medo termina depois da quarta aula e já fica a vontade de voltar.”

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