Da Redação
“Ensinar artes marciais é um sacerdócio, vai muito além de ensinar a lutar, é melhorar a condição do indivíduo em todos os sentidos, isso impacta no familiar e profissional. A missão de um verdadeiro artista marcial é melhorar o convívio à sua volta, e esse motivo nos incentiva.” A fala é de José Roberto Valadares, professor de artes marciais que atua em Nova Andradina desde 2003 e que já passou por oito cidades de Mato Grosso do Sul, levando sua experiência e filosofia de ensino.
Valadares iniciou sua trajetória no fim da década de 1990, quando começou no kung-fu. Logo em seguida, ampliou sua formação para outras modalidades. “Iniciei no kung-fu em 1998/1999, seguindo para o sanda, kickboxing e muay thai”, conta. Essa vivência diversificada abriu caminho para um trabalho que já ultrapassa duas décadas e envolve centenas de alunos.
Ao falar sobre a experiência de ensinar em Nova Andradina, ele explica que a prática marcial se transforma conforme as fases da vida. “As artes marciais são um caminho, independente da modalidade. Para cada fase da vida nos empenhamos, por um tempo só praticantes, atletas, professor, diretor e por aí vai.” Essa percepção, construída ao longo dos anos, é o que o motiva a continuar.
No início, porém, os desafios eram ainda maiores. O professor lembra que, quando começou a ensinar, havia carência de profissionais formados fora da capital do Estado. “Quando iniciei era muito difícil, pois as escolas capacitadas ficavam na capital e a maioria dos professores do interior não tinham formação. Após um tempo tive que buscar conhecimento em Campo Grande, era muito difícil. Hoje é muito mais simples e o praticante pode até escolher a escola que quer praticar.”
Essa transformação demonstra não apenas o crescimento das artes marciais no Mato Grosso do Sul, mas também a importância do intercâmbio de conhecimento. Valadares reforça que sua missão vai além da parte técnica e competitiva. “Ao longo dos anos, formamos vários campeões brasileiros e internacionais. Trabalhamos firme com a parte esportiva, mas é apenas uma parte do processo. Meu foco maior hoje está no indivíduo, em torná-lo campeão de vida. Os títulos são temporários, são parte do processo evolutivo das modalidades, mas não perdemos o foco no que vai além disso.”
A preocupação com o desenvolvimento humano se reflete no impacto mental e emocional dos treinos. Para ele, os hábitos construídos dentro do tatame se estendem para outras áreas da vida. “A própria mudança de hábitos, como ser disciplinado e se esforçar a cada dia, já leva a múltiplas mudanças. Conforme se supera e se aproxima de atingir seus objetivos, enriquece seu físico, mental e espiritual.”
O professor também observa mudanças importantes no perfil dos praticantes ao longo do tempo. Uma delas é a presença cada vez maior das mulheres nas artes marciais. “Hoje elas estão dominando os tatames. No geral, são mais focadas e disciplinadas.” Essa participação amplia a diversidade e fortalece o ambiente de aprendizado.
Quando perguntado sobre qual arte marcial é mais eficiente para a defesa pessoal, Valadares é categórico ao dizer que não existe uma única resposta. “Todas têm sua eficiência, o que muda é a maneira que o indivíduo considera seus treinos. Levado a sério, todas são eficazes.” Para ele, a escolha entre kung-fu, muay thai e kickboxing depende das características e dos objetivos de cada aluno. “Cada modalidade tem sua própria característica de movimentação, estratégia e regras competitivas. E cada indivíduo tem suas diferenciações físicas, intelectuais e preferenciais. Para o público em geral, optam pela que é mais parecida com o que buscam. Para os atletas, o desafio é maior: além de terem que saber todo esse jogo diferente entre modalidades, também têm os desafios de competir com atletas especialistas em suas modalidades. O que torna mais interessante e motivante para eles.”
Com uma carreira consolidada e marcada por conquistas, Valadares não pensa em parar. Seus projetos futuros estão voltados para a continuidade do trabalho iniciado há mais de duas décadas. “Continuar desenvolvendo o trabalho que fazemos, capacitar cada vez mais profissionais nas áreas e poder fortalecer as federações e órgãos envolvidos”, resume.