Da Redação
Felipe Vaz Dias, conhecido no futsal sul-mato-grossense como Felipe Chumbinho, construiu sua trajetória no esporte a partir de uma rotina que unia esforço, deslocamentos longos e a busca por oportunidades. Nascido em 15 de julho de 1983, em Dourados (MS), ele iniciou no esporte praticando judô aos cinco anos e acumulando conquistas estaduais. O futsal entrou em sua vida anos depois, quando ainda dava os primeiros passos na formação escolar. “Comecei a jogar com 10 anos na Escolinha do Pezão, a convite do meu amigo Toninho Novaes, com o professor Augusto”, relembra.
Mesmo ainda muito jovem, a logística para treinar exigia ações que moldaram sua forma de trabalhar e ensinar. Felipe conta que atravessava boa parte da cidade para cumprir a rotina esportiva. “Eu tinha que ir de bicicleta treinar futsal e futebol, pois meus pais trabalhavam e não tinham como me levar. Eu morava perto da Anita, na Avenida Mato Grosso, e ia pela Ceará e Mascarenhas até o poliesportivo Dom Bosco treinar em troca de uma bolsa escolar”, recorda. Ele explica que isso ocorreu entre 1998 e 2000, período em que fazia parte do futsal do Dom Bosco. Antes disso, quando iniciou no futsal, o caminho era mais curto: “Com 10 anos eu ia a pé, porque a quadra era a quatro quadras de casa.”
A vivência como atleta construiu a base que mais tarde seria levada para o trabalho como professor. Nos anos seguintes, Felipe acumularia títulos em diferentes equipes, como UCDB, ABC, Dom Bosco, Arena Premier e Unaes/Rádio Clube. “Obtive mais títulos como atleta de futsal pela UCDB e futebol pelo Colégio Dom Bosco”, resume. Entre as principais conquistas estão estaduais, Copa Morena, Copa dos Campeões, Taça Canarinho e Jogos Abertos — competição que disputou inclusive já aos 40 anos.
Como treinador, atuou de forma mais concentrada em categorias de iniciação, com papel direto na formação de atletas jovens. Ele lembra com destaque da geração 1994 da Escolinha Pelezinho. “Trabalhei com a geração 94 na equipe da Escolinha Pelezinho, onde ganhamos quase tudo, mas destaco a Copa Pelezinho e a Copa SEALP”, afirma.
Com mais de três décadas de atuação no futsal, com 23 anos de experiência profissional, Felipe avalia que a evolução da modalidade ainda enfrenta entraves em Mato Grosso do Sul. Para ele, a busca excessiva por resultados imediatos interfere no desenvolvimento técnico. “Infelizmente o futsal do MS ainda deixa a desejar. Muito ‘chutão’. Alguns treinadores treinam sair jogando com a bola no chão, mas chega no jogo e a vontade de vencer é maior. Aí caem no erro de chutar para frente para vencer a qualquer custo”, observa.
Seu trabalho, porém, segue por um caminho que prioriza a base e o desenvolvimento gradual das crianças. “Trabalho com a iniciação ao futsal, ensino os fundamentos básicos: domínio, condução, controle de bola, passe, chute a gol, além do posicionamento ofensivo e defensivo básico.” Ele também reforça aspectos que considera essenciais no processo formativo: “Cobro bastante sobre disciplina e responsabilidade. Não só com a modalidade, mas também com os estudos.”
Sobre talentos, Felipe explica que não busca esse recorte dentro da escolinha, mas reconhece quem apresenta maior aptidão. “Assim que identifico, indico para uma equipe de rendimento dentro da própria escolinha onde trabalho”, explica. Na Pelezinho, há três níveis: iniciação, transição e equipe principal.
Comparando diferentes períodos do futsal formativo, Felipe avalia que as crianças têm se dedicado mais fisicamente, mas enfrentam limitações no desenvolvimento cognitivo. “Hoje as crianças acabam se preparando mais do que os adultos, até fazem treinos específicos com personais. Mentalmente, porém, a preparação é pouca. O uso de telas pelas crianças é excessivo e isso prejudica muito”, aponta. No caso dos adultos, ele considera que o incentivo diminuiu ao longo dos anos, sobretudo no ambiente universitário.
Para quem deseja se tornar treinador, ele destaca a importância de processos básicos. “Aprendam a ouvir, estudem, observem, procurem aprender com quem já está há bastante tempo na área e busquem evoluir. Muitos profissionais novos já querem fazer as crianças jogar sem ter a base”, afirma. Segundo ele, o excesso de foco em visibilidade atrapalha o propósito central. “Esquecem de trabalhar para quem mais precisa de nós: as crianças.”
Felipe não atua diretamente em competições com seus alunos, já que trabalha com iniciação, mas acompanha de perto a trajetória esportiva dos filhos — Ana Julia, de 13 anos, e Pedro Henrique, de 7. Ele conta que tenta trabalhar com eles a relação com o jogo. “Sempre digo para que se divirtam, o restante é consequência. Que não importa se ganharem ou perderem, eu amo eles independentemente do que acontecer.”
Hoje afastado das competições como atleta, Felipe segue atuando profissionalmente em duas instituições onde está há anos: o Colégio Marista Alexander Fleming, desde 2010, e a Escolinha Pelezinho, desde 2002. Ele conta que já pensou em abrir seu próprio projeto, mas desistiu por questões pessoais. Agora, concentra-se em acompanhar a jornada esportiva dos filhos e manter o trabalho que desenvolveu ao longo de mais de 30 anos.