Terça-feira, 09 de dezembro de 2025, 13:21

Trazer o esporte para a escola, cobrar padrões físicos e formar cidadãos

da redação - 22 de ago de 2025 às 14:11 139 Views 0 Comentários
Trazer o esporte para a escola, cobrar padrões físicos e formar cidadãos Da Redação

O atletismo entrou cedo na vida de Cleberson Lopes Yamada, nascido em 20 de agosto de 1974, em Campo Grande (MS). Ele começou a correr ainda na escola Licurgo de Oliveira Bastos, nos anos 1980, incentivado pelos professores Jussara e Zelão. Logo se aventurou nas provas longas: 3.000 e 5.000 metros. Aos 14 anos, já encarava sua primeira meia maratona, entre Campo Grande e Terenos, concluída em 1h37.

 

A vitória nos Jogos Escolares, quando estava na 8ª série, abriu outra porta. “Recebi bolsa de estudos no Colégio Dom Bosco pelo professor Tamir Fagundes”, recorda. Essa trajetória, que nasceu nos corredores escolares, moldou não apenas o atleta, mas também o professor, o gestor esportivo e o comentarista que se tornaria referência nacional.

 

Hoje, Cleberson é comentarista do Band Sports desde 2009 e traz uma visão crítica sobre os rumos do atletismo no Brasil. Para ele, a raiz da transformação está na escola. “Certamente temos uma falha gigantesca no processo de seleção de talentos. A escola deveria ter padrões básicos de exigências físicas que se comparassem aos padrões de intelectualidade”, afirma. Ele defende que a Educação Física recupere o equilíbrio histórico entre corpo e mente: “Da mesma forma que se exige média 6,0 para passar em português, matemática ou história, deveria se exigir padrões de tempo e distância em diferentes testes físicos”.

 

A proposta, segundo ele, vai além da busca por performance esportiva. “É um estímulo cedo e o entendimento da importância da atividade física como promotora de saúde e qualidade de vida, além da socialização e bem-estar. Muito além do caráter competitivo, mas também com a certeza de que o espetáculo do esporte possa ser observado e direcionado aos que têm talento.”

 

Essa perspectiva o acompanha também como gestor esportivo. À frente de projetos voltados para crianças e jovens, ele ainda enfrenta obstáculos. “Atualmente temos muitos desafios na gestão de nosso clube, por conta de entender pouco sobre como funciona a política e a burocracia quando se quer auxiliar crianças e jovens no caminho dos estudos e esporte”, explica.

 

A experiência como comentarista trouxe outro aprendizado. Yamada reconhece o desafio de explicar o atletismo para públicos diferentes, do especialista ao leigo. “Não é fácil explicar o esporte para milhões de pessoas de maneira clara e objetiva, compreensível para ambos. Sem deixar de ser crítico e ter opinião livre para que as pessoas possam abrir debates com pontos de vista diferentes”, diz. Para ele, seu maior prêmio é contribuir com informação de qualidade: “Minha meta não é agradar todos, mas colaborar com o engrandecimento do atletismo, trazendo informações relevantes e sérias sobre o esporte”. Hoje ele está na XSports.

 

Nos anos de carreira, acompanhou de perto momentos que marcaram a história. Ele esteve no Estádio Olímpico de Berlim em 2009, quando Usain Bolt quebrou o recorde mundial dos 100m e dos 200m. Presenciou em Tóquio a medalha de bronze de Alison dos Santos, em um estádio vazio devido à pandemia, no mesmo dia em que Karsten Warholm estabeleceu novo recorde nos 400m com barreiras. “Tive a sorte e o prazer de estar em muitos”, conta. Entre os destaques pessoais, lembra ainda da primeira cobertura em Londres 2012 e da atuação como treinador do Time Brasil na Rio 2016. “Estar dentro da concentração da seleção, fazer o último trote dos maratonistas na véspera da prova e acompanhar os bastidores dentro da Vila Olímpica e do estádio foi uma experiência única.”

 

Com a vivência de atleta, treinador, gestor e comentarista, ele reforça que o alto rendimento depende de muito mais que talento individual. “Um atleta não se faz apenas de performance. Por trás disso tem família, patrocinadores, fisioterapeuta, médicos, fisiologistas, manager, clube, suporte financeiro, bolsa atleta e, depois de tudo isso, o treinador. Mas exige disciplina, treinamento, vontade e sonhos. Uma boa gestão de carreira não garante, mas é responsável por sucesso. Uma má gestão é certeza de fracasso.”

 

Yamada observa ainda as tendências internacionais e acredita que o Brasil precisa reforçar o elo entre escola e esporte. “Agora atuando no desporto escolar, percebo que existe verba destinada, mas pouco estímulo aos professores e real interesse para que se descubra talentos.” Para ele, o país pode avançar se houver investimento em políticas educacionais que não apenas ofereçam infraestrutura, mas criem mecanismos claros para identificação e desenvolvimento de jovens atletas.

 

Outro ponto levantado é o papel da mídia. Ele lembra do impacto que o narrador Luciano do Valle teve nos anos 1980, quando popularizou esportes olímpicos no Brasil. “O marketing hoje em dia pode fazer muito mais. Precisamos de um novo movimento e investimentos nesse sentido. É fato que o esporte é entretenimento, espetáculo, produto vendável e certamente forma de ascensão social.”

 

Ao final, Cleberson Yamada deixa conselhos distintos para quem deseja trilhar o esporte dentro ou fora da pista. “No atletismo: dedicação, disciplina, persistência e coragem. Na gestão: honestidade, vontade, trabalho duro e criatividade.”

Comentários

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos com * são obrigatórios.