Da Redação
Em meio à violência e à falta de oportunidades na região norte de Campo Grande, o técnico José Matheus Pires Nunes, de 23 anos, o ‘Pato’, encontrou no futebol uma maneira de transformar a vida de crianças e adolescentes da periferia. Nascido em 19 de fevereiro de 2002, ele cresceu com o sonho de ser jogador de futebol, mas enfrentou cedo as dificuldades da vida real. Em vez de desistir do esporte, decidiu usá-lo como ferramenta de inclusão social e criou uma escolinha gratuita de futebol para crianças da comunidade.
“Quando criança, tinha o sonho de ser jogador de futebol, mas tive que enfrentar a realidade da vida muito cedo”, lembra Matheus. A paixão pelo futebol, no entanto, nunca o abandonou. Em 2018, com apenas 16 anos, organizou um time com os meninos da rua onde morava. “Comecei a montar treinos só para o time da minha rua e a gente fazia jogos com outras escolinhas”, conta. O objetivo era simples: afastar as crianças das más influências do bairro.
Mesmo trabalhando desde cedo — primeiro como jovem aprendiz no Ministério Público e depois na Prefeitura Municipal de Campo Grande — Matheus manteve o projeto funcionando. Ele e amigos da região passaram a oferecer treinos gratuitos, com foco na disciplina, no compromisso escolar e na formação humana. “O intuito era tirar totalmente as crianças do que o mal oferece a elas”, resume.
A escolinha cresceu e passou a atrair crianças de outros bairros. O número de participantes aumentou e, com isso, também as responsabilidades e os desafios. “Os principais desafios são os poucos recursos. Quem mantém o projeto sou eu, meus amigos e alguns empresários da região que ajudam quando podem”, explica o treinador. Ainda assim, a iniciativa se mantém firme. A filosofia, segundo ele, é clara: “Nossa filosofia é a disciplina dentro e fora de campo. Elas devem fazer seus deveres em casa, ajudar a mãe e manter o foco total na escola. Todo bimestre devem mostrar o boletim”.
O projeto já coleciona conquistas dentro das quatro linhas. A equipe foi bicampeã de um torneio regional na categoria sub-13, com títulos consecutivos em 2024 e 2025. “Acabamos de ser campeões de um campeonato aqui da região”, conta Matheus. Mas, segundo ele, mais importante que as vitórias em campo são as oportunidades criadas fora dele. “A meta aqui é formar um cidadão, um pai de família, uma pessoa do bem, um trabalhador”, define.
Apesar das dificuldades financeiras e da falta de apoio institucional, Matheus afirma que o projeto continuará firme. “O apoio ao futebol é precário. Não somos lembrados nem vistos. O futebol é deixado de lado aqui no MS”, critica. Ele conta que busca constantemente por competições fora da região para que seus atletas tenham visibilidade e oportunidades reais de crescimento no esporte. “Estamos em busca de competições para fora da nossa região e vamos oportunizar nossos atletas”, reforça.
A metodologia adotada na escolinha também foge do modelo competitivo tradicional. No projeto, todos têm espaço. “A nossa diferença é a não competitividade e, sim, a oportunidade. Aqui todos vão jogar, vão ter sua oportunidade”, afirma. Com o apoio de pais, responsáveis e amigos, Matheus consegue levar os atletas para torneios e festivais esportivos, sempre priorizando o espírito coletivo e a inclusão.
“Dou o treino não com o apito nem com a bola, e sim com o coração”, diz. A frase resume o vínculo que ele tem com os meninos e meninas que fazem parte do projeto. “Essas crianças são tudo pra mim. São como meus filhos”, completa.
O sonho de Matheus agora é estruturar ainda mais o projeto e ampliar o impacto para outras áreas além do futebol. “Minha meta é um dia poder proporcionar uma vida melhor para o projeto. Meu sonho é ter um instituto que possa agregar não só o futebol, mas outros tipos de esportes e segmentos para as crianças da região norte e de toda Campo Grande”, projeta.
Para os jovens que vivem em situações parecidas com a dele, Matheus deixa um recado: “Que nunca as crianças desistam dos sonhos delas e que nunca desistam dos estudos, pois isso é tudo na vida do ser humano. E que nunca faltem projetos como o meu e que tenham mais e mais, pois o importante é tirar as crianças do que o mal oferece a elas, tirá-los da ociosidade”.