Da Redação
“Eu nunca perco a esperança em mim e nunca desacredito do meu potencial.” A frase resume a relação de Matias Felipe de Oliveira Silva com o vôlei. Nascido em 25 de julho de 2006, em Chapadão do Sul, no norte de Mato Grosso do Sul, o jovem atleta construiu sua ligação com o esporte a partir de frustrações, decisões difíceis e da insistência em seguir treinando mesmo quando o cenário não era favorável.
O primeiro contato com o vôlei aconteceu ainda na oitava série, durante as aulas de educação física. Foi o professor Lucas Henrique quem percebeu o que chamou de “um potencial bom” e o colocou no time escolar. A virada de chave veio pouco depois, em um campeonato representando a escola. “Eu joguei muito mal e fiquei no banco a maioria do jogo. Aquela sensação de não ser o suficiente para estar dentro de quadra me consumiu”, relembra.
A reação foi imediata. Matias passou a treinar diariamente, de segunda a sexta-feira. Em alguns dias, os treinos ultrapassavam quatro horas. Nos fins de semana, o vôlei continuava, agora de forma improvisada, em uma praça da cidade, ao lado de amigos. “Foi aí que eu vi que o vôlei se tornou algo sério pra mim”, afirma.
Ser atleta no interior trouxe desafios que extrapolam a quadra. Um dos episódios que mais marcou esse período foi a decisão de abrir mão de disputar os Jogos da Juventude de Mato Grosso do Sul (Jojums), uma das principais competições do estado. “Eu abri mão de ir para um campeonato que seria bom para o meu histórico porque preferi não criar mais rivalidade entre dois lados”, conta, ao explicar a divisão existente entre equipes ligadas a treinadores diferentes na cidade. Com o tempo, ele passou a enxergar a escolha como um erro. “Claramente foi um erro que eu cometi, porque é um dos maiores campeonatos do MS.”
A dificuldade de visibilidade para atletas fora da capital também aparece como um ponto recorrente. “Um dos maiores problemas de ser do interior é que ninguém te vê, a não ser que você comece a se destacar muito. Eles só têm olhos para os queridos das capitais”, diz.
Mesmo assim, Matias seguiu. Hoje, a rotina envolve treinos noturnos e a necessidade de conciliar o esporte com o trabalho, realidade comum a muitos jovens atletas. “O que mais exige de mim é saber dividir trabalho e vôlei, porque, se eu começar a trabalhar, isso vai me impedir de ir para alguns campeonatos importantes para a minha carreira”, explica.
Dentro de quadra, ele se define por características objetivas e por postura mental. “Minha principal característica é ser um dos mais altos do time e sempre o mais novo entre todos os atletas”, afirma. Ao falar sobre confiança, é direto: “Eu nunca perco a esperança em mim mesmo. Nunca desacredito do meu potencial.” Ainda assim, reconhece pontos que precisam evoluir. “Busco melhorar minha potência, minha cabeça e minha personalidade. Tem que confiar em você mesmo para ser quem você quer ser dentro de quadra.”
Entre as referências pessoais, o técnico Lucas Henrique aparece como figura central. “Ele me criou do zero, quando eu nem sabia o que era vôlei ou dar um toque sequer.” A ex-professora Maitê, já falecida, e a avó também ocupa um espaço importante nas decisões. “Todas as decisões que tive em relação ao esporte, eu sempre perguntava pra ela antes.”
Nem todos os episódios, porém, foram de apoio. Um dos momentos mais delicados ocorreu novamente em um campeonato escolar. Após um ano inteiro de treinos intensos, Matias foi impedido de jogar. “Eu treinei o ano inteiro sem parar, só pensando em vôlei, e quando estava chegando o meu dia, não me permitiram jogar”, relata. Segundo ele, a decisão foi tomada por votação dentro da escola. “Todos votaram que não, que eu não merecia.” A situação quase o levou a desistir do esporte. “Isso me deixou muito chateado a ponto de quase desistir.”
A inspiração técnica vem de um nome conhecido do vôlei nacional. “Sempre me inspirei no Douglas Souza. Eu vejo o jogo dele, o estilo, os ataques, as jogadas ensaiadas. Pra mim, ele sempre vai ser um dos melhores.”
O reconhecimento começou a aparecer fora de Chapadão do Sul. Um campeonato em Miranda, contra equipes da capital e até um time da Bolívia, marcou esse momento. “No final do jogo, o técnico deles queria meu contato para falar comigo sobre os jogos e o campeonato.” Para Matias, mais do que o resultado, ficou a experiência. “Foi o campeonato em que mais me diverti e conheci muitas pessoas.”
Hoje, os convites se tornaram mais frequentes. “Parece que todo campeonato que eu jogo fora eu encanto alguém com meu vôlei”, conta. As brincadeiras também surgem. “Até fazem piadas perguntando se eu vou machucar o outro time porque eu ataco muito forte”, diz, em tom descontraído.
Recentemente, surgiu a proposta mais concreta até agora: defender uma equipe de Goiás, com possibilidade de disputar o Campeonato Brasileiro Interclubes (CBI) e a Superliga C. “Essa é uma das melhores propostas que recebi em quase cinco anos jogando vôlei”, afirma. Segundo ele, o interesse veio pela idade e pelo potencial técnico. “O que chamou a atenção foi que eu sou muito novo e muito habilidoso.”
Entre perdas, cobranças e reconhecimento gradual, Matias resume o que o esporte lhe ensinou. “Aprendi a ter paciência, a esperar o momento certo para tudo. Me tornei uma pessoa melhor através do vôlei.”