Da Redação
Vinicius Cardoso de Andrade, nascido em 15 de março de 1996, construiu sua trajetória nas lutas a partir de experiências marcadas por bullying, adaptação em outro país, entrada precoce no esporte e enfrentamentos pessoais que vão além do ambiente competitivo.
Ele relata que o contato com as lutas surgiu após um período difícil da infância e adolescência. “Eu sofri muito bullying quando era menor, tanto pelo peso como pela cor. Isso tanto no Brasil como no Paraguai, que me mudei com meus pais por quatro anos, e foi onde mais sofri bullying pela cor”, afirmou.
Segundo ele, a entrada no esporte aconteceu de forma gradual, a partir de um convite de um amigo. “Um amigo brasileiro que já morava lá me apresentou a academia do meu mestre Wagner, Koala Team. Lá conheci o BJJ e depois dos treinos via o pessoal treinar, o sparring, e gostei até começar a treinar muay thai”.
A evolução para competições foi rápida. Vinicius conta que, após iniciar nos treinos, passou a competir em pouco tempo. “Com quase três meses competi muay thai pela primeira vez. Ganhei por nocaute no segundo round. Usei a luta e a competição para me sentir melhor e confiante comigo mesmo, sem medo de bullying”.
A partir daí, ele acumulou sequência de vitórias e experiências em diferentes modalidades. “Perdi a quarta luta nos pontos, e foi onde aprendi muita coisa. Depois voltei a lutar e fiz 18 lutas consecutivas sem perder, 18 vitórias, sendo 14 por nocaute consecutivo”.
Para ele, o esporte foi o espaço onde encontrou equilíbrio emocional e mental. “Percebi que era aquilo que eu queria para mim, sentir a sensação de estar vivo, dominar meu corpo, minha mente e conhecer minhas emoções, que só a luta te permite chegar nesse ponto de domínio mental”.
Sobre as conquistas, ele destaca a importância de representar o estado e o país em competições. “A oportunidade de representar o Mato Grosso do Sul é muito satisfatória, e poder representar o Brasil e competir no Paraguai, onde conquistei muitos títulos, mostra que sim, é possível”.
A preparação, segundo ele, sempre envolveu aspectos físicos, técnicos e mentais. “Meu mestre Koala me ensinou que a mente é tão importante quanto o físico e o técnico. Quem tem coração sempre tem um ponto a mais quando já não tem mais força”.
Um dos pontos mais marcantes de sua trajetória é o enfrentamento à leucemia, doença que voltou a aparecer em diferentes momentos da vida do atleta. Vinicius explica que recebeu um novo diagnóstico em dezembro, quando os exames apresentaram alterações, e somente em abril deste ano foi liberado pelos médicos para voltar a competir.
“Deus, minha fé nele e o esporte foram fundamentais. Em dezembro tive a notícia de que a leucemia apareceu de novo e meus exames ficaram alterados. Agora em abril tive o ok da médica para voltar a competir, porque estava tudo estável pela quarta vez”, afirmou.
Ele explica que o tratamento exigiu mudanças na rotina e adaptação física aos medicamentos. “Tomo remédio quimioterápico em comprimido todos os dias. Demorei dois meses para me acostumar fisicamente e ainda estou me adaptando aos treinos e às lutas. Senti diferença física por causa dos remédios, mas graças a Deus estou estável e apto para lutar”.
Segundo o atleta, o período também mudou sua forma de enxergar a vida. “O câncer me ajudou a ver a vida com outros olhos, me tornou uma pessoa melhor e aumentou minha fé, porque tive vários milagres que não têm explicação médica”.
Em outro momento, ele descreve o impacto emocional da doença e do tratamento. “O câncer me fez ver a vida com outros olhos, me tornou uma pessoa melhor e aumentou minha fé, porque tive vários milagres que não têm explicação médica”.
Durante o período mais difícil, a perda do pai também marcou sua trajetória. “Meu pai faleceu, ele era meu maior incentivador. Eu falei com Deus, peguei minha luva chorando e disse que tinha pendurado minhas luvas, mas tudo que eu fazia me lembrava dos treinos”.
Ele relata que o esporte foi retomado como parte de um processo de reconstrução pessoal. “Comecei a correr à noite na quarentena até voltar a treinar quando as academias reabriram. Sempre falei com Deus, orava, e isso me manteve de pé”.
Sobre os momentos mais emocionantes da carreira, Vinicius destaca uma luta profissional ainda no início da trajetória. “No último round eu estava morto, sem cardio, sem força, e meu mestre me deu um tapa e jogou água na minha cara. Acordei e consegui vencer e conquistar meu primeiro cinturão nacional de K1”.
Ele também cita o impacto do momento em que esteve internado e recebeu a visita do pai. “Olhei para ele e disse que ia ficar bem, que Deus ia me curar e eu ia voltar a lutar. Ele chorou, sorriu e me abraçou. Esse é o abraço que mais sinto falta”.
Sobre o cenário do esporte em Mato Grosso do Sul, ele aponta limitações estruturais. “Precisamos de mais apoio. Tem muitos talentos, mas a falta de incentivo impede muitos de continuar. Até hoje temos que tirar do próprio bolso. Fazemos por amor ao esporte”.
Ainda assim, ele reconhece avanços e a força dos atletas locais. “O esporte no Brasil é diferenciado, temos grandes nomes e muitos jovens fazendo história em várias modalidades”.
Para os jovens atletas, ele deixa uma mensagem direta. “Todo campeão um dia foi como eu e você. A diferença é que eles não desistiram. Persistiram até o fim. Acredite em você e se dedique como pode”.
O foco atual de Vinicius está em novas competições e objetivos maiores. “Agora o foco é o Brasileiro. Tenho muitas metas ainda, como disputar mundial de boxe. Quero mostrar que quando você acredita no seu sonho e em Deus, nada te para”.
Ele também projeta o futuro fora dos ringues. “Quero criar fundações para crianças com câncer, tirar crianças da rua e usar o esporte e a fé em Deus para mudar vidas”.