Da Redação
Criado há 16 anos, o projeto Jovens Promessas tem promovido uma transformação silenciosa, mas constante, na Comunidade Tia Eva, em Campo Grande (MS). Por meio do futsal, crianças e adolescentes são atendidos semanalmente, não apenas com treinos esportivos, mas com oportunidades de convivência, disciplina e cidadania.
Idealizado por João Paulo, o projeto nasceu da constatação de que faltavam opções de lazer e atividades contínuas para as crianças da região. “O projeto nasceu de ver a necessidade das crianças da comunidade de ter um espaço e uma atividade contínua, e nada melhor que o esporte para atrair as crianças, já que o futebol está enraizado na comunidade”, explica. No início, as crianças jogavam descalças em uma quadra rústica. “Muitos meninos no início não conheciam nem uma outra localidade dentro da área esportiva, tudo era novidade. A maioria dos meninos foram fazer RG por intermédio do projeto”, recorda.
Atualmente, cerca de 100 crianças participam dos treinos, organizados por categorias que vão do sub-7 ao sub-17, com inclusão recente do futsal feminino. As atividades seguem um cronograma semanal: sub-7 e sub-9 treinam às sextas-feiras; sub-11, às quartas; sub-13 e sub-15, às terças e quintas; e o feminino, às segundas. Os treinos acontecem das 17h30 às 19h30. A estrutura é simples, mas o compromisso é grande. O único professor do projeto atende todas as categorias.
Segundo João Paulo, o foco principal vai além da formação de atletas. “Na realidade, a formação esportiva é a que menos o projeto visa. O principal objetivo é a formação de cidadãos de bem, tendo como pilares a educação, o respeito à integridade e a competitividade. Cuidamos de crianças para que tenhamos homens de bem”, afirma.
O impacto do projeto na vida dos participantes é sentido principalmente ao longo dos anos, quando muitos retornam como adultos. “Criamos vínculos com muitos que por aqui passaram. O impacto é justamente quando esses jovens se tornam adultos e veem a importância que teve a participação deles no projeto, tornando-se cidadãos de bem, trabalhadores responsáveis e, muitos, hoje, pais de família”, destaca.
Ao longo do tempo, o projeto também viu talentos surgirem. “Muitos meninos já tiveram oportunidades em clubes. Disputaram a Copa São Paulo de Futebol Júnior, hoje tem atletas que jogam a Série D do Brasileiro, campeonatos importantes como Baiano, Gaúcho, Paranaense e o nosso aqui do Mato Grosso do Sul”, conta. Além do futebol profissional, há também aqueles que se destacam no cenário amador da capital. “Sinto orgulho em ir aos campos de terrão e ver vários ex-atletas se destacando”, completa João Paulo.
Apesar dos bons resultados, o projeto enfrenta desafios constantes. O principal deles é a falta de apoio financeiro. “Os campeonatos de futsal na nossa cidade têm um custo muito elevado. Quando se tem dificuldade financeira como a nossa, fica quase impossível colocar todas as categorias para disputar. Aí acabamos fazendo alguns amistosos para que as crianças possam competir”, revela.
O projeto não conta com patrocínio fixo nem repasse público. As atividades acontecem com o apoio da escola da comunidade, que cede o espaço, e com a ajuda pontual de pais e professores que doam materiais usados. Ainda assim, a continuidade depende muito do esforço pessoal dos envolvidos. “Dependemos exclusivamente da ajuda dos pais que podem e colaboram, e de alguns professores de escolinhas que nos ajudam”, diz.
A participação da Comunidade Tia Eva, onde o projeto está enraizado, é considerada essencial, mas ainda com margem para crescer. “A comunidade, dentro de suas possibilidades, sempre que pode abraça a nossa causa. Estamos enraizados aqui, não tem como não se envolverem. Mas confesso que poderia ser muito maior a participação. A comunidade tem uma força enorme que poderia ser melhor aproveitada”, analisa.
Com um trabalho que atravessa gerações, o projeto segue firme, mesmo diante das limitações. Os planos para o futuro incluem continuar atendendo jovens e expandir, dentro do possível. “Somos meio restritos quanto à expansão de horários e turmas, pois temos só um professor para todas as categorias. Esse número insuficiente de profissionais acaba restringindo o crescimento”, lamenta João Paulo.
Ainda assim, ele segue com um objetivo claro: seguir ensinando e orientando crianças e adolescentes para a vida. “O plano é seguir ajudando as crianças com ensinamentos que vão além do esporte.”