Da Redação
“Obsessão ganha do talento, todas as vezes. Você pode ter todo o talento do mundo, mas vem cá, você é obcecado? É só nisso que você pensa? Vamos encarar: é você contra você lá fora.” A frase resume a forma como o atleta de vôlei Giovanne Cilirio de Lima, de 23 anos, encara o momento mais recente de sua carreira. Natural de Batayporã, em Mato Grosso do Sul, ele vive o processo de recuperação da segunda lesão no tornozelo esquerdo em menos de dois anos.
A mais recente ocorreu no dia 11 de abril de 2026, durante uma partida da Superliga de Dourados, competição regional em que representava a equipe AMDV. O lance aconteceu em uma jogada de bloqueio. “No nosso sétimo jogo, em uma ação de bloqueio, o oposto do time adversário invadiu os dois pés da quadra, e foi quando eu pisei em cima do pé dele e torci novamente o meu tornozelo, justamente o esquerdo, onde já era lesionado”, relatou.
Segundo Giovanne, o risco de uma nova lesão já era conhecido. “Fiquei com medo e com muita dor, pois eu sabia que era um risco que eu estava correndo há muito tempo. Eu não tinha feito cirurgia nem nada, então sabia dos riscos e imaginava que um dia poderia acontecer novamente. E aconteceu.”
O episódio retoma um histórico recente. Em 2024, o atleta sofreu a primeira lesão grave, também no tornozelo esquerdo, às vésperas dos Jogos Abertos de Nova Andradina. “Faltando uma semana para acontecer, tive a minha primeira lesão, onde quebrei meu tornozelo e rompi os ligamentos do meu pé esquerdo, me afastando do vôlei por mais de um ano”, afirmou.
Mesmo afastado das quadras naquele período, Giovanne manteve vínculo com o esporte. Ele atuou como auxiliar técnico ao lado do professor Leandro Henrique, seu padrinho e responsável por sua iniciação no vôlei. “Mesmo com o pé lesionado, não abandonei as quadras. Estava sendo auxiliar técnico do meu padrinho, participando dos treinamentos masculinos”, disse.
Um dos momentos citados por ele ocorreu em um torneio no município de Angélica. “No primeiro quadrangular que eles foram participar, saíram com três jogos e três vitórias. Para mim, foi um momento importante, pois, mesmo sem poder praticar o esporte que eu amo, eu estava fazendo parte de uma conquista que os meninos levariam para a vida.”
A relação com o vôlei começou em 2019, na Escola Estadual Jan Antonin Bata. “Tive o primeiro contato com o vôlei na escola. Foi onde o professor de Educação Física, Leandro Henrique, me convidou para fazer parte do treinamento escolar, com a intenção de selecionar atletas para os Jogos Escolares de Mato Grosso do Sul”, contou.
A partir daí, passou a disputar competições municipais e regionais, em cidades como Nova Andradina e Bataguassu. O envolvimento com o esporte, segundo ele, ultrapassou o aspecto competitivo. “O vôlei hoje, para mim, é mais do que um esporte. É mais do que entrar em quadra e competir. É quem me apresentou uma família fora de casa, quem me deu as pessoas mais importantes da minha vida na área do esporte e quem me apresentou pessoas que eu nunca imaginei que fosse conhecer um dia.”
O processo de recuperação atual, apesar de semelhante ao anterior, tem diferenças no aspecto pessoal. “Ter que passar pela segunda vez por mais uma lesão em menos de dois anos não foi tão complicado quanto a primeira vez, quando eu estava sozinho. Agora eu tenho uma família com quem contar, principalmente minha namorada, que me ajudou e esteve ao meu lado desde o momento em que eu caí e fui para o hospital.”
Ainda assim, a ausência das quadras tem impacto diário. “A dor de não poder estar em quadra e de não poder estar presente jogando, a cada dia que passa, vem ficando mais difícil. Saber que só vou conseguir voltar daqui quatro a cinco meses me deixou com muita saudade”, afirmou.
Durante esse período, Giovanne mantém contato com a equipe e acompanha atividades sempre que possível. “Ir acompanhar os rachões, assistir amistosos e os jogos que o meu time está tendo está sendo importante. Consigo ver a grande família que eu faço parte, que mesmo machucado e com medo não me deixou abalar.”
Apesar das dificuldades, ele afirma que sua forma de encarar o esporte não mudou. “A minha forma de pensar nunca mudou e nunca vai mudar. Eu não sou de desistir, muito menos gosto de pensar que existe essa possibilidade. Se eu entro em quadra, é para ganhar.”