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“O jiu-jitsu salvou minha vida”, diz atleta sul-mato-grossense que encontrou no esporte uma forma de recomeçar

da redação - 16 de out de 2025 às 15:51 70 Views 0 Comentários
“O jiu-jitsu salvou minha vida”, diz atleta sul-mato-grossense que encontrou no esporte uma forma de recomeçar Da Redação

Aos 18 anos, a campo-grandense Julia Vitória Gutierrez dos Santos encontrou no jiu-jitsu um caminho de superação, disciplina e reconstrução pessoal. A atleta começou a treinar em 2019, aos 12 anos, de forma quase acidental. “Entrei achando que era muay thai, totalmente leiga sobre lutas, mas sempre gostei. Aí conheci o jiu-jitsu”, lembra.

 

Por trás dessa descoberta havia um contexto delicado. Julia enfrentava um diagnóstico de depressão e buscava no esporte uma forma de se reerguer. “Quando tinha essa idade, recebi um diagnóstico de depressão e comecei no futebol, que era algo que eu gostava muito, mas não achei nenhum time feminino, então entrei em um masculino”, conta. O ambiente, porém, acabou se tornando hostil. “Comecei a sofrer muito bullying pelos parceiros de equipe e algumas pessoas da própria organização, pelo simples motivo de ser mulher. Ouvia muitos comentários maldosos de colegas, pais de alunos, atitudes agressivas comigo e até má condutas sexuais.”

 

Segundo Julia, a situação piorou a ponto de interferir em seu tratamento. “Minha mãe percebeu que, ao invés do futebol me ajudar com a depressão, só estava piorando meu caso, ao ponto dos remédios de ansiedade e antidepressivos terem que ser trocados por outros mais fortes.”

 

Foi então que, em um dia comum, surgiu o encontro com o esporte que mudaria sua trajetória. “Passamos em frente à academia 67 Pantanal Association, que era na Santa Quitéria, e eu vi as pessoas lá dentro treinando. Aquilo roubou minha atenção. Coloquei na minha mente que queria tentar de novo um novo esporte.” O primeiro contato foi determinante. “A recepção que tive, tanto dos professores quanto dos alunos, foi muito melhor do que pensei. Era uma das poucas meninas no treino, mas isso não fez diferença. Com o tempo fui me apaixonando cada vez mais.”

 

O apoio da família sempre foi uma base importante, mas as dificuldades eram inevitáveis. “Eu sempre tive o apoio dos meus pais no esporte, mas claro que, como nada é fácil pra ninguém, passei por dificuldades. Quando a academia mudou de localização e ficou longe, eu andava no sol e na chuva 40 minutos até chegar só para treinar. Se o treino era 16h, eu saía de casa às 14h e chegava às 22h”, relata.

 

Em meio à rotina de treinos e superação pessoal, Julia enfrentou um novo desafio. “Logo depois da pandemia, voltei a treinar e passei por uma situação de assédio por um faixa-preta da academia. Fiquei passando por isso diariamente em silêncio e com medo, até que um dia tive coragem de contar ao meu atual professor. Ele resolveu a situação, expulsando o rapaz da equipe e aplicando as punições cabíveis.”

 

Ela tinha 14 anos na época e diz que o episódio a marcou profundamente, mas não a afastou do tatame. “Muitos acharam que eu iria desistir, que eu não conseguiria continuar. Também me criticaram e me culparam pelo que aconteceu. Mas isso não me fez parar.” Anos depois, ela decidiu falar sobre o caso publicamente. “Me revelei na internet sobre essa situação, incentivando outras meninas que passaram pelo mesmo a se manifestarem também.”

 

Julia também enfrentou críticas dentro do próprio ambiente esportivo por treinar com pessoas mais experientes e pesadas. “Muitos me criticavam por eu estar treinando com graduados, dizendo que eu era maluca, que não deveria estar lá, que atrapalhava os outros. Mas eu nunca deixei isso me abalar. Enquanto eu estava treinando sem dar desculpas, eles estavam falando, e era aí que estava a diferença.”

 

Essas experiências acabaram moldando sua mentalidade. “Isso tudo teve sua parte boa, lapidou meu jiu-jitsu e meu psicológico. Por ser leve, sempre tive que subir de categoria para lutar nos campeonatos, mas eu não me importava. Sempre acreditei na minha capacidade.”

 

A coragem é uma das marcas mais lembradas por quem a acompanha. Julia recorda uma fala do professor Bruno Bezerra que ficou com ela até hoje: “Você não tem medo e é muito corajosa. O que você faz é o que muitos não têm coragem pra fazer.”

 

Para ela, essa postura é resultado da própria vivência. “Muitos me chamavam de louca por subir de categoria, mas a realidade é que não é loucura. É coragem. É como se eu estivesse me pondo à prova e mostrando para mim mesma do que sou capaz, mesmo quando tudo parece ir contra.”

 

Entre as referências, Julia cita os professores e amigos que a inspiram dentro e fora do tatame. “Meu professor Fábio Rocha sempre me ajuda e me dá oportunidades. Outra pessoa é o Jhon Katumata, que diz não querer ser exemplo, mas é. Aprendo muito com ele, tanto pro jiu-jitsu quanto para a vida.” Ela também menciona o apoio de Bruno Bezerra e Ruan Freitas. “O Ruan é um grande amigo. Antes das minhas lutas, ele era um dos primeiros com quem eu queria conversar para me tranquilizar.”

 

Durante o ensino médio, Julia chegou a treinar até cinco horas por dia. Com a entrada na faculdade, precisou ajustar os horários, mas mantém a rotina. “Hoje em dia eu consigo conciliar meus horários da faculdade com os treinos de acordo com minha grade. Geralmente treino no período da manhã e à noite, ou à tarde e à noite.”

 

Quando fala sobre conquistas, ela surpreende ao valorizar as derrotas. “Ironicamente, não foi nenhuma vitória, mas sim todas as minhas derrotas. Foram elas que moldaram quem eu sou hoje. Se não fosse por elas, eu não conseguiria destravar muitas coisas na minha mente que fizeram a diferença para alcançar as vitórias.”

 

Para Julia, o jiu-jitsu é mais do que um esporte. “O jiu-jitsu para mim é o meu ar, é como se ele já fizesse parte do meu ser. Eu não consigo viver sem ele. O jiu-jitsu salvou minha vida. Ele me ajuda a lidar com muitas dificuldades e me ensinou muito da vida através de lutas.”

 

A atleta também reflete sobre o espaço feminino no esporte. “Temos um público grande de mulheres jiujiteiras no MS, principalmente graduadas, mas muitas não se interessam pelos campeonatos. Isso atrapalha um pouco nossa conquista de espaço, mas ainda há meninas que se interessam, principalmente nossas crianças.”

 

Julia acredita que a falta de incentivo familiar e empresarial ainda é um obstáculo. “É muito difícil conseguir patrocínio hoje em dia, mesmo de empresas pequenas. E o patrocínio é uma grande ajuda, principalmente pra quem está começando agora.”

 

O futuro, ela garante, continua ligado ao tatame. “Quero participar de muitos campeonatos grandes e conhecer o mundo através do esporte. Tenho o desejo de abrir uma turma, gosto muito de ensinar. Seria egoísmo não compartilhar o que de bom o jiu-jitsu me deu.”

 

Por fim, deixa uma mensagem às meninas que pensam em começar. “Todas deveriam treinar. O jiu-jitsu não é só um esporte, não é só um estilo de vida. O jiu-jitsu salva pessoas.”

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