Da Redação
“O esporte é o meu refúgio.” É dessa forma que Poly Paniago resume a relação construída ao longo dos anos com duas modalidades que fazem parte da sua rotina: o laço comprido e o crossfit. Em Mato Grosso do Sul, estado onde a cultura do laço está presente em diversas famílias, ela cresceu ligada às tradições do campo e encontrou, mais tarde, no treinamento funcional, uma forma de recuperar o equilíbrio físico e mental.
Segundo Poly, o laço veio primeiro. A prática faz parte da história da família e da infância vivida no ambiente rural.
“O laço veio primeiro. Meu pai sempre teve essa tradição e eu cresci no meio, então acabei pegando gosto e entrando no esporte”, contou.
Já o crossfit apareceu anos depois, em um momento delicado da vida pessoal. Morando em Campo Grande, ela enfrentava um período de desgaste emocional e encontrou nos treinos uma forma de retomar a rotina.
“O crossfit veio bem depois, quando eu morava em Campo Grande. Eu estava no meu limite, com uma exaustão mental enorme e sem ânimo para nada. O cross foi o que me salvou e me devolveu a energia para voltar a me cuidar e viver socialmente”, afirmou.
Poly também fez questão de destacar o papel do local onde iniciou na modalidade. Segundo ela, o acolhimento recebido no ambiente foi importante durante o processo de recuperação emocional.
“O lugar onde comecei o crossfit foi essencial na ajuda ao meu psicológico. Lá, me acolheram não como aluna, mas como parte da família”, disse, ao citar o Sesc Camillo Boni.
Apesar de parecerem modalidades distantes, Poly acredita que as duas práticas se complementam dentro e fora das competições. Segundo ela, o crossfit ajudou a desenvolver resistência física e controle emocional, características importantes também no laço comprido.
“No começo parece que não tem nada a ver uma coisa com a outra. Mas, na prática, elas se completam muito bem. A força e a cabeça fria que eu treino no crossfit encaixaram direitinho com o que eu preciso quando estou em cima do cavalo na pista de laço”, disse.
Ela destaca que o principal ganho não está apenas no condicionamento físico, mas na capacidade de manter o foco durante os momentos de pressão.
“O crossfit me dá muita resistência física e firmeza no corpo, o que ajuda demais na hora de correr e dar a armada. Mas o principal mesmo é o controle mental. Ele me ensinou a ter foco e a respirar fundo sob pressão, e isso faz toda a diferença na hora da competição.”
Além dos treinos e das competições, Poly também divide o tempo entre o trabalho como contadora e as atividades na fazenda da família. Para ela, o maior desafio é conseguir equilibrar todas as responsabilidades sem deixar que o desgaste mental volte a afetar a rotina.
“O maior desafio é dar conta de tudo sem pirar. Eu sou contadora, ajudo a cuidar da fazenda e ainda tenho os treinos. Juntar tudo isso cansa o corpo, e a mente precisa estar muito forte para não deixar aquela exaustão de antes voltar. É um equilíbrio diário.”
Mais do que um esporte, o laço comprido representa uma ligação direta com as origens familiares. Ao falar sobre a modalidade, Poly relaciona as lembranças da infância ao sentimento de união vivido dentro da família.
“A modalidade do laço representa a minha raiz, de onde eu vim, de onde nasci e de como eu me criei. É honrar as tradições da minha família, que é o laço e a união que a gente tinha quando eu era criança, tanto para mexer com o gado quanto para se juntar e fazer uma pamonha. Para mim, o laço é exatamente isso: união da família.”
Ela também afirma que ainda enfrenta situações de preconceito por atuar em um ambiente historicamente dominado por homens. Segundo Poly, a presença feminina nas pistas vem crescendo nos últimos anos.
“Com certeza, principalmente no laço, que sempre foi um ambiente muito masculino. Já passei por muito preconceito. Mas a gente está conquistando o nosso espaço na raça. Hoje em dia, a força das mulheres é gigante, e ver rodeios e eventos com disputas só nossas mostra que ninguém mais segura a gente.”
Na preparação para provas e competições, Poly procura manter uma relação mais leve com o esporte. Para ela, o resultado não pode ser mais importante do que o significado que aquelas atividades têm na vida pessoal.
“Eu tento focar que o esporte é o meu refúgio e não apenas uma competição. Pensando assim, ganhando ou perdendo, eu sei que dei o meu melhor e saio de cabeça erguida.”
Ao lembrar dos momentos mais marcantes da trajetória, ela não cita títulos ou conquistas financeiras. O episódio mais importante aconteceu durante uma competição, ao ouvir a mãe torcendo na arquibancada.
“Para mim, o momento mais marcante não tem nada a ver com troféu, título ou dinheiro. Foi um dia em que eu estava na pista e ouvi a minha mãe na arquibancada, torcendo e gritando muito por mim. Eu escutei a voz dela, fiz a armada no laço, olhei direto para a arquibancada e abri um sorrisão.”
Segundo Poly, aquele instante mudou a forma como ela passou a enxergar as competições.
“Naquele segundo, me deu um estalo: percebi que, independentemente de eu acertar ou errar o laço, ela estaria ali gritando por mim do mesmo jeito. Isso encheu meu coração de amor e virou a minha maior vitória no esporte.”
A mãe, inclusive, é apontada como a principal incentivadora da trajetória tanto no crossfit quanto no laço comprido.
“Ela é a minha grande incentivadora, a minha base para tudo na vida. No crossfit ou no laço, é ela quem está do meu lado segurando a minha mão. Ela vibra com as minhas vitórias e me levanta nas derrotas.”
Por fim, Poly deixa uma mensagem para outras mulheres que desejam iniciar no esporte, independentemente da modalidade escolhida.
“Eu diria para não ligarem para o julgamento dos outros e irem com tudo. Nós, mulheres, temos uma força absurda. Cuidem da mente de vocês, entrem nos lugares com respeito e educação, mas nunca deixem ninguém dizer que ali não é o seu lugar. O esporte transforma a gente.”