Da Redação
“Eu sempre disse que a minha missão é mudar a vida das pessoas através do esporte.” A frase de Nayara Vieira Takeuchy resume um caminho marcado por mudanças, superação e descobertas. Aos 29 anos, a atleta sul-mato-grossense, que nasceu em 10 de janeiro de 1996, em Campo Grande (MS), enxerga no esporte não apenas uma profissão, mas um propósito que se construiu ao longo de diferentes fases da vida.
A relação de Nayara com a atividade física começou ainda na infância. Incentivada pela mãe, que fazia questão de colocar os filhos em projetos do bairro, ela praticou diversas modalidades. “Meu primeiro contato com um esporte foi com a capoeira, onde treinei cerca de nove anos. Em seguida fiz ginástica, boxe e futsal”, lembra. Mas no auge dessa trajetória inicial, sofreu uma lesão no joelho — ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA) — durante uma troca de graduação na capoeira.
O episódio a afastou do esporte e alterou o rumo de sua vida. “Acredito que foi a partir daí que muita coisa desandou”, conta. O objetivo de cursar educação física ficou em suspenso, enquanto os hábitos mudaram de forma significativa. Ela passou a trocar o dia pela noite, trabalhou em diferentes áreas, como bartender, atendente, freelancer e frentista, e mergulhou em uma rotina de cigarro e bebida.
O retorno ao esporte aconteceu em 2018, quase por insistência da família. A mãe e os irmãos já praticavam crossfit e a convidaram para uma aula experimental. “Foi quando eu dei um start e pensei: ‘por que não?’”, recorda. A primeira experiência foi dura. “Eu não encontrava uma posição para dormir de tanta dor.” Mas, aos poucos, os resultados começaram a aparecer, não apenas no desempenho físico, mas também nos hábitos de vida. “Eu fumava há mais de sete anos, mas comecei a pegar nojo do cigarro, pois aquilo atrapalhava muito meu treino. Até que eu parei de vez, e desde então nunca mais coloquei um cigarro na boca.”
Se a entrada no crossfit foi marcada pelo desafio físico, também trouxe inseguranças ligadas ao passado. “Por muito tempo eu fui irredutível em relação ao crossfit, pois eu já havia feito cirurgia do LCA e menisco. Então tinha muito medo e usava isso como artifício para nunca começar. Achava que ia me machucar e que não daria conta.” A percepção mudou com a evolução no esporte, que não apenas mostrou ser possível treinar, como abriu portas profissionais.
O envolvimento com o box de treinamento se transformou em estágio e, depois, em uma carreira consolidada. “Troquei minha faculdade, me tornei estagiária no box que eu treinava na época e hoje, finalizando minha faculdade, sou a estagiária mais bem remunerada e reconhecida em Campo Grande. Saí de estagiária para gerente e, por um período, também proprietária de um box.” A experiência reforçou o desejo de compartilhar o que aprendeu e de ensinar de forma acessível. “Sempre disse que quero ensinar de forma descontraída e descomplicada.”
Mesmo com a rotina de treinos, Nayara não ficou livre de dificuldades. Além da lesão no joelho, enfrentou uma cervical causada pelo excesso de treinamento. “Me aventurei em uma outra modalidade, o strongman, sem estar com estrutura fortalecida o bastante para suportar tamanhas cargas”, explica. O esforço, porém, também trouxe conquistas. “Obtive a lesão, mas saí com o 15º lugar no ranking mundial, entre 60 atletas, e o 2º lugar no Log Lift nas Américas.” O tratamento e a recuperação contaram com acompanhamento especializado, em parceria com profissionais que hoje também a apoiam como patrocinadores.
Atualmente, a rotina de Nayara combina o crossfit com musculação e corrida. Na nova modalidade, mesmo iniciando há pouco tempo, já tem colecionado pódios. “Ingressei na corrida há poucos meses e já estou ganhando visibilidade, estando presente em pódios e participando do time de elite da minha assessoria. Claro que temos muito tempo pela frente, na corrida ainda sou ‘scale’”, diz, utilizando o termo do crossfit para quem está em fase inicial.
A preparação vai além dos treinos. Nayara faz acompanhamento nutricional e destaca a importância da alimentação no desempenho. “Desde que comecei a conciliar a atividade física com a alimentação regular, com certeza potencializei muito os resultados, não só no quesito performance, mas também na qualidade física.”
Do convívio com diferentes esportes à construção de uma carreira no crossfit, passando pela superação de hábitos nocivos e de lesões, Nayara encontrou no esporte uma forma de transformação pessoal e coletiva. Sua história reflete a de muitos atletas que descobrem, na prática esportiva, não apenas saúde e rendimento, mas também novos caminhos de vida.
“Minha vida antes do crossfit, minha rotina e hábitos eram totalmente diferentes. Eu fumava já há mais de sete anos e fazia faculdade de jornalismo. Quando comecei a praticar o cross, eu parei de fumar, e foi muito natural, pois aquilo fazia mal no meu treino e eu comecei a ter muito mais prazer treinando. E além disto, me encontrei em uma profissão.”