Da Redação
A trajetória de Gustavo Guerra no futsal não começou com a intenção de seguir uma carreira como treinador. Natural de Vacaria, no Rio Grande do Sul, e nascido em 29 de março de 1979, ele manteve durante muitos anos uma relação mais distante com o esporte enquanto direcionava sua vida para pesquisas e outros projetos. A aproximação com as comunidades da região, porém, fez com que o futebol voltasse a ocupar espaço em sua rotina e desse origem a um projeto que posteriormente se transformaria no Dakila Futsal.
“Minha relação com o esporte vem desde pequeno, mas durante muitos anos acabei ficando mais afastado, porque direcionei grande parte da minha vida para as pesquisas e para outros projetos”, conta Gustavo.
Durante as pesquisas de campo e o desenvolvimento do ecossistema construído na região, Gustavo passou a ter maior contato com as comunidades ao redor, incluindo a comunidade quilombola. As partidas de futebol realizadas no local começaram a atrair a atenção de crianças e jovens, que se aproximavam para acompanhar as atividades.
“Nós costumávamos jogar bola e, aos poucos, as pessoas começaram a ouvir de longe as narrações, perceber aquela movimentação e se aproximar. As crianças e os jovens começaram a aparecer cada vez mais”, relata.
A partir dessa aproximação, surgiu a ideia de formar uma equipe com jovens da comunidade, principalmente atletas entre 14 e 18 anos. O grupo recebeu o nome de Barbantinhos e começou de maneira espontânea, sem a perspectiva inicial de se tornar uma equipe voltada para grandes competições.
“Foi então que resolvi formar uma pequena equipe com jovens da comunidade, principalmente entre 14 e 18 anos. Nascia ali os Barbantinhos”, explica.
O projeto passou a apresentar resultados e chamou a atenção da própria estrutura que acompanhava o trabalho. Com isso, veio a possibilidade de disputar competições, o que exigiu mudanças na organização e na preparação da equipe.
“Foi algo muito espontâneo, mas começou a crescer. O trabalho foi dando resultado, nosso presidente percebeu que poderíamos dar um passo adiante e começar a participar de competições. Fomos ajustando a equipe, estruturando o projeto e evoluindo”, afirma.
A evolução levou o grupo às competições da Liga Sul-Mato-Grossense de Futsal. Segundo Gustavo, o trabalho já resultou no bicampeonato da Conferência Central, no vice-campeonato da fase estadual da Liga e, novamente, na classificação para uma semifinal da competição estadual.
“Hoje estamos fazendo história: conquistamos o bicampeonato da Conferência Central da Liga Sul-Mato-Grossense de Futsal, fomos vice-campeões da fase estadual da liga e estamos novamente em uma semifinal da Liga Sul-Mato-Grossense também na fase estadual”, destaca.
Para o treinador, a trajetória construída explica também como surgiu o convite para assumir o comando do Dakila Futsal. O envolvimento com o esporte e a capacidade de integração proporcionada pela modalidade foram alguns dos fatores que contribuíram para a continuidade do trabalho.
“O convite surgiu justamente porque as pessoas perceberam o quanto eu gostava do esporte, da interação com o ambiente esportivo e principalmente dessa capacidade que o esporte tem de integrar pessoas”, afirma.
Com a equipe inserida em competições, a função passou a representar também uma responsabilidade institucional. Gustavo entende que o trabalho do treinador não se limita às decisões tomadas durante as partidas.
“Assumir o Dakila Futsal passou a ser também uma responsabilidade de representar uma instituição e tudo aquilo que ela acredita. Para mim, estar à frente da equipe significa muito mais do que simplesmente comandar jogadores dentro de quadra. Significa trabalhar com pessoas, construir confiança e representar corretamente o nome que carregamos”, explica.
Essa visão também está presente na filosofia de trabalho adotada pelo treinador. Para Gustavo, a lealdade deve orientar a relação entre todos os envolvidos no esporte, independentemente do papel desempenhado.
“Existe um princípio que está acima de todos os outros para mim: lealdade acima de tudo”, resume.
O conceito, segundo ele, envolve a relação do atleta consigo mesmo, com os companheiros, adversários, arbitragem, profissionais responsáveis pelas transmissões e público. Dentro de quadra, a orientação é concentrar a atenção no próprio jogo.
“Lealdade consigo mesmo, com o companheiro de equipe, com o adversário, com a arbitragem, com quem está transmitindo uma partida, com o público e com todos aqueles que fazem parte do esporte”, afirma.
Gustavo também procura evitar que situações externas à partida tirem a atenção dos jogadores.
“E dentro de quadra eu procuro transmitir uma ideia muito simples: vamos jogar futsal. Jogar futsal, focar no futsal e não desperdiçar energia com elementos externos. Esquecer arbitragem, esquecer provocações, esquecer rivalidades quando elas ultrapassam o sentido saudável da competição”, explica.
Para ele, a competitividade não precisa estar associada à falta de respeito.
“Podemos competir intensamente, querer vencer e lutar por cada bola sem abrir mão do respeito. Para mim, uma coisa não exclui a outra”, diz.
A transformação de um grupo formado inicialmente de maneira espontânea em uma equipe capaz de disputar competições também trouxe desafios. Entre eles, Gustavo aponta a necessidade de desenvolver aspectos relacionados à organização, disciplina, preparação, entendimento tático e mentalidade coletiva.
“Um dos principais desafios foi transformar um grupo que nasceu praticamente de forma espontânea em uma equipe realmente competitiva. Uma coisa é reunir pessoas que gostam de jogar futsal. Outra é construir uma equipe preparada para enfrentar campeonatos, adversários fortes e momentos de pressão”, avalia.
O treinador considera que cada atleta precisa compreender a dimensão coletiva do trabalho.
“Também existe o desafio permanente de fazer com que cada atleta compreenda que ele representa algo maior do que ele próprio quando entra em quadra. A evolução dos resultados mostra que estamos conseguindo construir isso”, afirma.
Apesar dos resultados alcançados, Gustavo entende que o trabalho ainda tem pontos a serem desenvolvidos. A regularidade, a tomada de decisão e a manutenção do padrão de jogo em momentos de pressão aparecem entre os aspectos que precisam continuar sendo trabalhados.
“A evolução é evidente, inclusive pelos resultados que conquistamos. Fomos bicampeões da Conferência Central da Liga Sul-Mato-Grossense, conquistamos um vice-campeonato estadual e novamente chegamos a uma semifinal. Mas resultado não significa que o trabalho esteja pronto”, ressalta.
“Precisamos continuar evoluindo principalmente na regularidade, na tomada de decisão e na capacidade de manter nosso padrão de jogo nos momentos mais difíceis das partidas. Quanto mais alto você chega em uma competição, menores ficam as margens para erro. Muitas vezes são detalhes que definem quem avança e quem fica pelo caminho”, completa.
Na avaliação do treinador, a construção de uma equipe competitiva depende da combinação de diferentes fatores. Entre eles estão a qualidade técnica, preparação física, disciplina tática, união e talento. Mas, antes desses elementos, Gustavo coloca a vontade de competir e fazer a diferença.
“Eu colocaria a vontade acima de tudo. O desejo de fazer a diferença, de competir e de entregar algo a mais é fundamental”, afirma.
Ao mesmo tempo, ele ressalta que a disposição precisa estar acompanhada de preparação.
“Depois disso, todos os outros elementos precisam caminhar juntos: qualidade técnica, preparação física, disciplina tática, união do grupo, coletividade e talento aliados ao desempenho. Não adianta ter talento sem comprometimento. Da mesma forma, somente vontade, sem preparação, não é suficiente para competir em alto nível”, explica.
Gustavo também destaca a importância do desenvolvimento do futsal em Mato Grosso do Sul e das oportunidades oferecidas aos atletas que atuam no Estado.
“Mato Grosso do Sul possui atletas de muita qualidade e um enorme potencial no futsal. É importante criar oportunidades para que esses jogadores possam competir, crescer e serem reconhecidos dentro do próprio Estado”, afirma.
Na visão do treinador, o crescimento da modalidade depende da participação de diferentes setores.
“Quando surgem equipes organizadas e campeonatos competitivos, todo o ecossistema se fortalece. Isso envolve atletas, treinadores, dirigentes, patrocinadores, imprensa, transmissões e torcida”, pontua.
Entre os momentos que considera mais marcantes à frente da equipe, Gustavo cita o último título da Conferência Central da Liga Sul-Mato-Grossense. Para ele, a conquista representa também uma etapa da transformação iniciada com os Barbantinhos.
“O último título da Conferência Central da Liga Sul-Mato-Grossense foi muito especial para nós. Além do título em si, ele representou a confirmação de um trabalho que começou de maneira muito simples e foi crescendo aos poucos”, afirma.
“Quando lembramos daquela primeira equipe, dos Barbantinhos, e observamos onde conseguimos chegar, percebemos que existe uma história sendo construída. Cada conquista tem seu valor, mas esse último título teve um significado especial justamente pelo momento da equipe e pelo caminho percorrido até ali”, acrescenta.
Para a sequência da temporada, o objetivo é avançar nas fases decisivas e disputar finais e títulos, sem deixar de lado os princípios que, segundo Gustavo, orientam o trabalho desde o início.
“Nosso objetivo é chegar às fases decisivas e, sempre que for possível, disputar finais e títulos. Vamos fazer tudo aquilo que estiver ao nosso alcance para chegar lá”, afirma.
O treinador reforça, porém, que a busca pelos resultados deve estar acompanhada pela forma como o clube se apresenta dentro e fora das quadras.
“Queremos competir para vencer, mas carregar conosco aquilo que estabelecemos desde o início: lealdade. Se conseguirmos unir competitividade, evolução e respeito aos nossos princípios, estaremos representando bem o Dakila dentro e fora das quadras”, destaca.
Ao falar sobre o trabalho desenvolvido até aqui, Gustavo também faz questão de reconhecer a participação de pessoas que não estão diretamente dentro de quadra. Para ele, a construção de uma equipe envolve atletas, comissão, dirigentes, parceiros, famílias, torcedores e demais pessoas que acompanham o projeto.
“Um projeto esportivo não é construído somente pelos atletas que entram em quadra. Existe muita gente por trás de cada treinamento, de cada viagem e de cada partida”, afirma.
A mensagem final do treinador é de agradecimento e de continuidade do trabalho.
“Por isso agradecemos ao nosso presidente, aos nossos parceiros, às pessoas que acompanham, às famílias, aos torcedores e a todos aqueles que acreditam no futsal sul-mato-grossense. Queremos continuar entrando em quadra para competir, buscar resultados e representar bem aqueles que confiam no nosso trabalho”, diz.
Para Gustavo, independentemente dos resultados alcançados ao longo da temporada, a identidade construída pelo Dakila Futsal deve permanecer como parte do projeto.
“E acima de qualquer resultado, queremos deixar uma identidade: uma equipe competitiva, unida e que tenha a lealdade acima de tudo como princípio”, finaliza.