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“Nunca me senti tão viva”: o início improvável da corredora Hemilene Oliveira

da redação - 30 de out de 2025 às 15:01 129 Views 0 Comentários
“Nunca me senti tão viva”: o início improvável da corredora Hemilene Oliveira Da Redação

O que começou como uma tentativa de incentivar o marido a parar de fumar acabou se tornando um divisor de águas na vida de Hemilene de Oliveira Correa Silva, atleta de corrida de rua nascida em Dourados (MS), no dia 9 de janeiro de 1980. Em 2013, sem imaginar o impacto daquela escolha, ela comprou um par de tênis e iniciou o que viria a ser uma das paixões de sua vida.

 

“Tudo começou em 2013, quando eu e meu marido fomos comprar um tênis para fazermos caminhada, na época queria incentivar ele a parar de fumar. Compramos os tênis e começamos a fazer caminhada numa quadra do posto de saúde, pois era grande e o pessoal se reunia ali para esta atividade”, relembra.

 

A princípio, eram apenas caminhadas no fim da tarde, até que, num dos dias, o acaso fez com que ela se desafiasse. “No terceiro dia, ele encontrou um amigo e foi conversando com ele. Então pensei: já que eles estão conversando, vou tentar dar uma volta correndo, e fui... e consegui”, conta. “Eles ainda estavam caminhando e eu pensei: vou tentar mais uma, e consegui. Foram três voltas na quadra sem parar, e isso me deixou uma sensação que eu sinto até hoje quando termino um treino ou uma prova: eu sou capaz.”

 

Aquela pequena corrida de improviso se transformou em uma nova rotina. “No outro dia, ele não quis ir, disse que estava dolorido, então eu disse: eu vou correr. Ontem eu dei três voltas, hoje vou tentar dar cinco. Terminei morta, mas nunca me senti tão viva”, recorda. Sem aplicativos de corrida ou relógios esportivos, Hemilene usou o marcador do carro para medir a distância. “Descobri que a quadra tinha 700 metros. Fiz a conta: cinco voltas eram 3,5 km. Aí pensei: vou me inscrever numa corrida de 5 km.”

 

Desde então, ela nunca mais parou. Foram inúmeras provas de 5 e 10 km, nove meias maratonas no asfalto e uma na trilha, onde foi campeã. O que a motiva, diz ela, é a sensação de superação e de liberdade. “Acho que o que me motiva a seguir na corrida é, primeiro, a sensação de superação a cada treino e cada prova, de erguer a cabeça e dizer: eu consegui, eu corri! E também a sensação de liberdade que me traz, de ser o meu momento de conexão comigo mesma e com Deus, porque Ele sempre está presente nas minhas corridas.”

 

Mas nem tudo foi simples. Ao longo dos anos, Hemilene enfrentou desafios que vão além da resistência física. Um dos principais, segundo ela, é a falta de segurança. “Acho que essa é a queixa de todas as mulheres. Inclusive fui assaltada uma vez, em Campo Grande, perto de onde eu morava. Um cara me pegou pelo braço, colocou uma faca de cabo branco na minha barriga e pediu meu celular. Eu dei, e ele foi embora”, relata.

 

Além disso, a estrutura do esporte ainda engatinhava quando ela começou. “Hoje, a corrida é modinha, é bonito e tal, mas há dez anos tinha pouca prova, faltava investimento no esporte e muitas corridas nem tinham premiação por categoria.”

 

Atualmente, Hemilene mantém uma rotina disciplinada de treinos. “Eu treino corrida três vezes na semana — terça, quinta e sábado — e musculação três vezes — segunda, quarta e sexta.” Essa constância é o que a mantém competitiva e saudável, mesmo depois de mais de uma década no esporte.

 

A parte mental, porém, só passou a receber atenção especial mais recentemente. “No começo eu não me preocupava com isso, era muito confiante e achava que, se tivesse feito um bom treinamento, a corrida seria a cereja do bolo. Mas na pandemia conheci a Pri Janaudis, uma terapeuta que fez muitas lives falando sobre autoconfiança e desenvolvimento mental para corrida, e isso mudou muito minha vida.”

 

A partir daí, Hemilene aprendeu técnicas de visualização e a importância de manter pensamentos positivos. “Aprendi muito com ela. Sempre que me pego em algum pensamento negativo ou me colocando pra baixo, lembro de algo que ela ensinou.”

 

Entre as várias provas que disputou, duas marcaram sua trajetória. “A primeira foi a Meia Maratona Volta das Nações, em Campo Grande, que hoje é a Corrida do Pantanal. Fiz na última edição, em 2014. Um corredor infartou e morreu durante a prova, e aquilo me marcou muito. Mas também porque foi minha primeira corrida de 21 km.”


A outra foi a Meia Maratona na Trilha, em Bonito (MS). “Foi no Balneário Estrela do Formoso. Éramos apenas dez mulheres, e fiz os últimos seis quilômetros praticamente sozinha na trilha. Foi bem difícil”, recorda.

 

Mais do que resultados, a corrida transformou o modo como Hemilene enxerga a vida. “Acho que o principal benefício é a disciplina. Você não acorda cedo com vontade de correr, ainda mais no frio e na chuva. Mas, se você deseja uma coisa, tem que correr atrás — literalmente. Isso te ensina a ser disciplinado com tudo: com a casa, com os horários, com a alimentação. Só não muito com a cervejinha”, brinca.

 

Para ela, a corrida de rua em Mato Grosso do Sul vive um bom momento. “De 2020 pra cá deu um grande salto. Já teve fim de semana com 12 provas no estado, dá até pra escolher onde ir”, comenta. “Vejo de forma positiva, porque o público está mais exigente. Antes era difícil uma corrida ter premiação por faixa etária, hoje já é mais comum.”

 

Apesar da dedicação, Hemilene não segue uma dieta rígida. “Já fiz acompanhamento com nutricionista duas vezes, mas eu não continuo. Como de tudo e tomo minha cervejinha. Claro que antes de provas ou treinos longos costumo comer carboidratos, como macarrão e pizza, e me hidrato com soro fisiológico. Se o treino é longo, uso gel de carboidrato.”

 

Para quem está começando, ela deixa um conselho direto: “Disciplina e treino. Procure um profissional habilitado, veja se ele entende seu objetivo e treine.”

 

Hoje, aos 45 anos, Hemilene segue firme no propósito de correr por prazer — e por permanência. “Nesta altura da minha vida de corredora, quero só correr sem me lesionar, pra correr pra sempre”, diz.

 

Em dezembro, ela volta a Bonito para disputar a prova Bonito 21k, evento do qual participa pela nona vez. “Foi uma vez nos 10 km e as outras oito nos 21 km. E já vou começar a planejar minha estreia na Maratona, em 2026, também em Bonito.”

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