Da Redação
“Se eu cair, será atirando.” A frase resume a forma como Clodoaldo Gomes de Jesus encara cada luta e também a própria trajetória no esporte. Nascido em 24 de fevereiro de 1983, em Dourados (MS), o lutador profissional e professor de Muay Thai construiu a carreira conciliando trabalho, família e treinos até conquistar o título de campeão brasileiro.
Para ele, a medalha nacional não representa apenas o resultado dentro do ringue. “Ser campeão brasileiro representa superação. Eu comecei tarde no esporte, sem estrutura e sem apoio financeiro. Sempre precisei trabalhar para sustentar minha família”, afirma. Durante anos, trabalhou em padaria, de domingo a domingo, sem folga. Foi nesse período que conquistou o Campeonato Brasileiro.
“Era difícil conseguir liberação no trabalho para competir, difícil pagar passagem, manter dieta para bater peso e arcar com todos os custos, sem retorno financeiro e sem patrocínio”, relata. Ao lembrar do título, diz que enxerga o processo. “Quando olho para essa medalha, vejo todo o processo. Não vejo só vitória, vejo renúncia, cansaço e fé. Ela me lembra que nunca é tarde quando se tem propósito.”
O contato com as lutas veio já na vida adulta. Influenciado pelos filmes e desenhos da década de 1980, cresceu admirando histórias de superação. Mas a experiência prática começou depois dos 20 anos, também em Dourados. Um amigo o convidou para assistir a um evento de MMA. “Quando vi aquilo de perto, senti algo diferente. Foi como uma injeção de propósito.” Após o evento, passou a frequentar uma academia onde se treinava karatê e MMA. Ali iniciou a trajetória nas artes marciais.
Na época, além do trabalho na padaria, começava a estruturar uma empresa de tapeçaria com o pai. Foi nesse contexto que conheceu o mestre Felipe Miranda, ao realizar um serviço de tapeçaria em um ringue. A aproximação consolidou sua entrada no Muay Thai. “Comecei a me aprofundar no Muay Thai, treinar com mais foco e entender que aquilo não era apenas um treino depois do trabalho. Quando percebi que o esporte estava moldando meu caráter e que eu poderia viver para isso e, através disso, transformar outras vidas, o Muay Thai deixou de ser apenas um esporte e se tornou minha missão.”
Conciliar a rotina profissional com a de atleta foi um dos principais desafios. “O esporte nunca foi minha fonte de renda, sempre foi paixão e propósito.” Ele destaca as dificuldades financeiras para competir: inscrição, passagem, alimentação e preparação física. “Quem é atleta sabe que bater peso custa caro.” Sem patrocínio, manteve a preparação com recursos próprios. Também enfrentou o fato de ter começado mais tarde que outros competidores. “Eu sabia que precisava me dedicar dobrado.”
Para Clodoaldo, a maior batalha sempre foi mental. “Persistir quando era mais fácil parar. Continuar treinando cansado, continuar sonhando mesmo quando as condições não eram favoráveis.” O título brasileiro, segundo ele, foi a confirmação de que o esforço acumulado produziu resultado.
Dentro do ringue, define seu estilo pela pressão constante. “Gosto de caminhar para cima, tirar o tempo do oponente, não deixar ele pensar ou respirar dentro da luta.” Trabalha clinch, socos, chutes e bloqueios, mas acredita que ritmo e intensidade interferem também no aspecto psicológico do adversário. “Sempre acreditei que, quando você impõe ritmo e intensidade, começa a dominar não só o corpo do adversário, mas também a mente dele.”
Além de atleta, é professor na academia Black Nocaute. Divide o tempo entre a empresa de tapeçaria, a família e os treinos. “Meus alunos não veem só um professor falando; eles veem alguém que trabalha o dia inteiro e, mesmo assim, está lá treinando.” Para ele, ensinar pelo exemplo é parte da metodologia.
Com iniciantes, o foco está na base técnica e nos valores. “Antes de formar um lutador, eu preciso formar um ser humano equilibrado.” A repetição dos fundamentos é prioridade. Para competidores, a preparação envolve estratégia, resistência física e fortalecimento mental. “Competição exige preparo físico, mas principalmente controle emocional.”
A academia desenvolve também um trabalho com crianças e adolescentes. O símbolo é a caveira, interpretada como representação de igualdade. “Uma caveira não tem cor, não mostra classe social, não revela se era homem ou mulher. Todos são iguais.” Entre as iniciativas está a entrega anual de um cinturão simbólico de “Gênio do Muay Thai” para um menino e uma menina que alcançam, no terceiro bimestre, média mínima 8 em todas as matérias escolares.
Sobre o cenário nacional, avalia que houve evolução técnica e organizacional, mas aponta a necessidade de maior investimento. “O que falta é mais valorização do atleta, mais empresas acreditando no esporte.” Para ele, o potencial brasileiro depende de apoio financeiro consistente.
Ao falar das lutas mais marcantes, evita escolher apenas uma. Destaca que cada combate envolve dificuldades anteriores, como corte de peso e preparação. Menciona, no entanto, um episódio recente em que o adversário fraturou a perna ao chutar e ser bloqueado. “Jamais gostaria de ver alguém perder daquela forma. Vitória é importante, mas a saúde vem primeiro.” Segundo ele, o atleta se recupera bem e a relação entre ambos se transformou em amizade.
Clodoaldo afirma que encara cada combate como se fosse o último. “Eu entro no ringue como se fosse a última vez. Sem economizar energia. Sem guardar nada.” No dia 7, enfrentará um novo desafio no boxe, em Santa Helena (PR), modalidade na qual nunca competiu. “Vou enfrentar um adversário especialista na modalidade. E, mesmo assim, aceitamos o desafio. Porque nós nunca corremos de desafio.”
No mesmo evento, o filho, de 4 anos, fará a estreia disputando um cinturão. Outro aluno da academia, de 9 anos, também competirá. “Seremos dois kids e eu em busca de um sonho.” Para ele, a continuidade do trabalho está ligada ao exemplo. “Isso não é só sobre cinturão. É sobre legado. É sobre exemplo. É sobre família.”
Enquanto mantiver condições físicas e mentais, pretende seguir competindo e ensinando. “Enquanto eu puder subir no ringue, eu lutarei. E, enquanto eu puder ensinar, essa corrente nunca vai parar.”