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“Não foi para ser atleta, foi para me curar”, diz professora de lutas

da redação - 5 de fev de 2026 às 16:06 160 Views 0 Comentrios
“Não foi para ser atleta, foi para me curar”, diz professora de lutas

“Não foi em me tornar atleta, mas um meio de me curar.” É a partir dessa afirmação que a história de Andreia Beatriz Ferreira de Cesare ganha contorno. Nascida em Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, em 7 de agosto de 1995, ela encontrou nas artes marciais um caminho que ultrapassou o esporte e se tornou parte central do seu processo de reconstrução pessoal, emocional e profissional.

Andreia conviveu com a depressão por grande parte da vida e passou dois anos fazendo uso de medicamentos antidepressivos, além de remédios para dormir. Segundo ela, as recaídas eram constantes até o momento em que o esporte entrou como alternativa de cuidado. “O que me fez permanecer foi vencer totalmente a depressão a qual sofri a vida toda. A busca não foi em me tornar atleta, mas um meio de me curar e deixar de vez os medicamentos antidepressivos”, relata.

O vínculo com a luta se fortaleceu à medida que os efeitos começaram a aparecer. “O que me fortaleceu foi o amor que criei pelo esporte e os benefícios de bem-estar que ele me trazia”, explica. Com o tempo, a prática esportiva passou a ocupar o espaço antes preenchido pelos remédios. “Eu percebi que a luta e o treino são muito mais que só luta e treino quando parei com os antidepressivos e também com os medicamentos para dormir, os quais eu não vivia sem.”

Mais do que mudanças físicas, Andreia aponta uma transformação emocional e mental. “A luta me ensinou a controlar minhas emoções, ter um físico mais resistente e uma mentalidade de campeã.” Essa virada marcou também o início de uma nova etapa: a atuação como Personal Fight.

Começar a dar aulas foi, segundo ela, um momento decisivo. “Foi algo extraordinário para mim, pois pude ajudar outras pessoas a se sentirem bem através do meu trabalho, assim como um dia eu recebi.” A vivência como atleta se reflete diretamente no contato com os alunos. “Eles verem a minha dedicação no esporte os influencia e motiva muito mais a treinar.”

A trajetória, no entanto, não foi isenta de dificuldades. Andreia destaca que os principais obstáculos estiveram ligados à falta de recursos. “Os obstáculos que tive foram mais na área financeira, pouco apoio.” Ainda assim, o suporte familiar e de amigos foi fundamental para seguir. “Sempre fiz de tudo e tive apoio da família e amigos para me manter firme. Isso só me fez criar mais vontade e ser forte, e poder passar isso para meus alunos. Não tem preço.”

No ambiente competitivo, ela descreve o ringue como um espaço singular. “Estar no ringue é algo que não tem explicação. Chegar ali é a melhor parte de ser atleta.” Fora dele, os desafios se acumulam. “O desafio mesmo é conciliar trabalho, família, treino, a dieta, a perda de peso. Às vezes a cabeça também tenta nos sabotar”, conta, acrescentando que a fé também faz parte do processo. “Nada que dobrar o joelho, falar com Deus e ter essa força divina não resolva.”

Andreia iniciou sua trajetória competitiva no boxe, passou pelo kickboxing e hoje se dedica ao muay thai. “Sou muito grata, pois todos me trouxeram muitos conhecimentos e experiências.” Sobre o cenário atual da modalidade, ela observa avanços, mas aponta limitações. “Ultimamente o muay thai, a modalidade à qual me dedico hoje, vem tendo um bom crescimento, mas ainda pouco reconhecimento para os atletas e pouco apoio.”

A atuação com mulheres é um ponto central do seu trabalho. Para ela, empoderamento está ligado à segurança e à preparação. “Empoderamento, para mim, são mulheres seguras, firmes e em alerta, pois infelizmente ainda sofremos muito por sermos mais frágeis.” Nesse contexto, a luta surge como ferramenta de proteção e confiança. “Eu sempre ensino que a luta nos deixa preparadas para qualquer situação que possamos passar.”

Quando olha para o futuro, Andreia destaca a necessidade de políticas públicas voltadas ao esporte. “O que precisa mudar é o governo apoiar os atletas financeiramente nas competições. Além de representarmos o estado, somos espelhos para jovens e adultos.” Para ela, o impacto social vai além do rendimento esportivo. “A luta tira milhares de pessoas da depressão, das drogas e do alcoolismo.”

Os planos seguem claros. “Meu objetivo é poder chegar ao profissional e ser exemplo de que podemos, sim, ser quem queremos ser.” Ao mesmo tempo, ela projeta um cenário mais amplo. “Quero ver mais mulheres no esporte e ver crianças sendo resgatadas do que é errado, vivendo esse lindo caminho que é ser atleta.”

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