Da Redação
A trajetória de Tiago Venâncio na corrida começou ainda na adolescência e foi construída paralelamente a diferentes desafios pessoais, acadêmicos e profissionais. Antes de se tornar ultramaratonista, ele passou pelo Exército, pelo triathlon, por maratonas e por experiências que exigiram resistência física e mental. Agora, entre os próximos objetivos, está a busca por uma vaga na UTMB (Ultra-Trail du Mont-Blanc), prova de 100 milhas disputada ao redor do Mont Blanc, nos Alpes.
Tiago conta que começou a se interessar pela corrida em 2014, quando tinha 14 anos. Naquele período, seu irmão havia ingressado no Exército e apresentado a ele o triathlon. A atividade esportiva, porém, já fazia parte de sua rotina. Ele jogava futebol, nadava no Círculo Militar, pedalava e acumulava cerca de dez anos de prática de kung fu.
Foi em 2016 que a corrida passou a ocupar um espaço maior em sua rotina. Sem equipamentos específicos ou recursos para investir no esporte, ele corria com o tênis que tinha e sem utilizar celular ou qualquer dispositivo para registrar os treinos.
“Fiquei dois anos assim, correndo pela pura sensação. Só em 2018 passei a usar o celular para registrar meus treinos”, relata.
Naquele momento, Tiago ainda não tinha condições financeiras para comprar equipamentos ou disputar provas de triathlon. Além disso, seu principal objetivo era ingressar no curso de Direito. A corrida, portanto, foi inicialmente desenvolvida de maneira independente, sem uma estrutura voltada para competições.
A relação com o esporte mudou a partir da entrada no Exército. Aos 19 anos, Tiago ingressou no NPOR (Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva). Em 2020, retornou à tropa como 2º Tenente de Cavalaria e iniciou também sua trajetória nas provas de triathlon.
No ano seguinte, participou de um estágio operacional no Pantanal, com duração de aproximadamente um mês. Para ele, a experiência representou um período de exigência física e mental que contribuiu para a formação que teria posteriormente como atleta de longa distância.
Durante a pandemia, entre 2020 e 2021, a ausência de eventos esportivos fez com que Tiago buscasse alternativas para continuar se desafiando. Por conta própria, percorreu duas vezes a distância de uma maratona, 42 quilômetros, sem apoio e sozinho.
Em 2022, veio uma nova etapa. Tiago se tornou o atleta mais novo a concluir a Maratona de Campo Grande. Dois meses depois, viajou para a Alemanha para disputar a Maratona de Frankfurt.
A prova europeia, no entanto, acabou sendo a experiência mais difícil de sua trajetória até então. Na época, ele cursava Direito, estava no último ano da faculdade e dividia o tempo entre a preparação para a OAB, o trabalho de conclusão de curso, as demais atividades acadêmicas e os treinamentos.
Segundo Tiago, o volume de compromissos afetava diretamente sua recuperação. “Dormia muito pouco e meu corpo simplesmente não se recuperava dos treinos”, conta.
Mesmo com uma lesão no reto femoral, decidiu largar em Frankfurt. O resultado foi uma prova marcada por dor e dificuldade para completar o percurso.
“Foram 32 km correndo e mancando, seguidos por mais 10 km alternando entre caminhada e alongamentos, até conseguir cruzar a linha de chegada”, afirma.
De todas as maratonas que concluiu, entre dez e 11, ele considera a prova de Frankfurt a mais difícil e marcante.
A primeira ultramaratona, entretanto, só viria em novembro de 2024. Foram 90 quilômetros de prova, distância que, segundo Tiago, só foi possível concluir devido à preparação construída ao longo dos anos anteriores.
Para enfrentar distâncias tão longas, o atleta afirma que existe também uma preparação mental. Durante horas de corrida, pensamentos de diferentes naturezas surgem, mas ele procura manter a concentração no objetivo.
“Ocorre uma infinidade de pensamentos. Eu rezo, converso comigo mesmo, planejo o meu futuro, organizo ideias e projeto ações futuras”, explica.
A estratégia, segundo ele, é evitar alimentar a possibilidade de desistência. “O grande segredo é tentar ao máximo nem deixar o pensamento de desistir entrar na mente, porque é exatamente dar margem para esse tipo de ideia que complica tudo nessas corridas longas e difíceis.”
A preparação para as provas envolve cinco treinos por semana. Em vez de concentrar a atenção exclusivamente na quilometragem, Tiago procura trabalhar o tempo em movimento. Nos dias considerados normais, dedica cerca de uma hora e meia aos treinos.
Ele também busca reproduzir, em momentos específicos, o estresse físico que será enfrentado durante uma competição, mas sem provocar sobrecarga. O trabalho de corrida é acompanhado pelo fortalecimento muscular, com o objetivo de prevenir lesões.
Conciliar a preparação com as demais atividades, entretanto, sempre foi um desafio. Durante o período em que disputava maratonas, ultramaratonas e triathlons, Tiago também atuava como instrutor do Exército, formando soldados, cabos, sargentos e oficiais temporários.
A rotina profissional, em alguns períodos, exigia que passasse semanas sem voltar para casa. Por isso, os treinamentos precisavam se adaptar aos horários disponíveis.
“Treinava no horário que fosse possível — de madrugada, à noite ou na hora do almoço —, mantendo o foco em me alimentar o melhor possível tanto nos dias úteis quanto no fim de semana”, afirma.
A dedicação ao esporte também teve impacto na vida pessoal. Tiago reconhece que, durante determinado período, outras áreas acabaram ficando em segundo plano.
“A rotina pessoal acabou ficando de lado por um bom tempo. Muitas pessoas ao meu redor não entendiam essa dedicação e frequentemente se afastavam por conta da minha indisponibilidade”, relata.
Ao mesmo tempo em que enfrentava os treinos e competições, ele mantinha a preparação acadêmica. Concluiu a faculdade de Direito e foi aprovado no exame da OAB antes mesmo de se formar. Atualmente, segue se preparando para se tornar magistrado.
Para Tiago, conciliar as exigências do esporte com a formação acadêmica e a atividade profissional representou um dos principais desafios de sua trajetória.
“O maior desafio foi conciliar a pressão mental e a preocupação de querer realizar tantas coisas ao mesmo tempo”, afirma.
Ele aponta o ano de 2022 como um dos períodos mais marcantes. Naquele ano, passou por dois ciclos de preparação e disputou duas maratonas, enquanto enfrentava as etapas finais da faculdade de Direito, a preparação para a OAB, o TCC e a rotina como tenente de Cavalaria.
“Suportei dois ciclos intensos de preparação e corri duas maratonas no mesmo ano, tudo isso enquanto enfrentava as provas finais da faculdade de Direito, a preparação para a OAB, a elaboração do TCC e a rotina exaustiva do dia a dia como tenente de Cavalaria”, lembra.
A alimentação, a hidratação e a recuperação também fazem parte da preparação. Tiago afirma que evita frituras, bebidas alcoólicas e o excesso de gordura e doces. A hidratação é mantida de forma constante, com consumo de água e utilização de isotônicos para reposição de sais minerais.
Já o descanso passou a receber mais atenção ao longo do tempo.
“Descanso e recuperação são pontos nos quais venho evoluindo bastante, principalmente porque aprendi na prática o quanto dói e o preço que se paga ao negligenciar essa parte”, explica.
Depois de anos aumentando as distâncias e acumulando experiências em diferentes modalidades, a ultramaratona também mudou a maneira como Tiago encara outros desafios da vida.
“A ultramaratona mudou completamente a minha forma de enxergar a vida e encarar desafios”, afirma.
Para ele, a experiência nas provas de longa distância trouxe uma nova percepção sobre os próprios limites. “Entendi que os meus limites são apenas aqueles que eu mesmo me imponho. Hoje, nada mais me limita. Se algo for realmente do meu interesse, eu vou atrás e faço acontecer, não importa o quanto custe ou o tempo que vá durar.”
O próximo objetivo é ainda maior. Tiago pretende conquistar uma vaga na UTMB, considerada uma das principais provas de ultratrail do mundo. A corrida principal tem 100 milhas e percorre a região do Mont Blanc, com largada em Chamonix, na França, passagem pela Itália e pela Suíça e retorno à França.
Para chegar à competição, ele sabe que ainda precisa ampliar sua preparação e construir um currículo esportivo que permita alcançar os requisitos necessários para disputar a prova.
“Meu grande sonho é conquistar a UTMB, uma corrida lendária de 100 milhas que atravessa três países”, afirma.