Da Redação
“Conheci o flag football em 2013 através da minha prima. Ela já acompanhava o futebol americano e descobriu que havia flag na cidade, então me convidou para ir a um treino com ela. Sempre gostei de esportes e, naquela época, estava iniciando a faculdade de Educação Física. Logo de cara me apaixonei pelo esporte e me senti cada vez mais desafiada a melhorar meu jogo e minhas técnicas. O que me fez permanecer foi a sensação de pertencimento.”
A fala é de Luiza da Cunha Franco, atleta e coach de flag football em Mato Grosso do Sul. Aos 29 anos, ela reúne mais de uma década de envolvimento com a modalidade, acumulando experiências como jogadora, treinadora e integrante de comissões técnicas nacionais. Sua trajetória acompanha de perto o desenvolvimento do flag football no estado, hoje uma das referências no cenário brasileiro.
Desde o início, os obstáculos não foram pequenos. “No início, o maior desafio foi lidar com a falta de visibilidade e de estrutura do flag football, principalmente no nosso estado. Era preciso conciliar treinos, viagens e todos os custos praticamente do próprio bolso.” A realidade ainda é enfrentada por muitos atletas de modalidades em crescimento no Brasil, mas não foi suficiente para interromper o caminho que ela escolheu.
Com o tempo, Luiza acumulou funções e responsabilidades dentro e fora de campo. Além de atuar como atleta, assumiu também o papel de coach, conciliando os dois lados do esporte. “É um desafio constante, porque exige equilíbrio entre estar em campo como jogadora e, ao mesmo tempo, ter uma visão mais ampla para orientar o time. Muitas vezes, preciso separar as emoções e tomar decisões racionais pensando no coletivo.” Essa experiência, segundo ela, só é possível pelo apoio das próprias atletas. “Sempre reconheci que só consigo exercer essas múltiplas funções porque tenho muita ajuda das atletas, e agora estamos construindo uma comissão técnica maior para este segundo semestre, o que tem ajudado bastante a não sobrecarregar ninguém.”
O flag football, modalidade reconhecida oficialmente pelo Comitê Olímpico Internacional e em crescimento no Brasil, ainda carrega desconhecimento do público em geral. Para Luiza, trata-se de um esporte que vai além do estereótipo da força física. “Diferente do que muitos pensam, não se trata apenas de força, mas também de inteligência de jogo, disciplina e trabalho em equipe. Ele desenvolve habilidades como velocidade, coordenação e tomada de decisão rápida.” Além disso, destaca que a modalidade é “estratégica, inclusiva e em ascensão”.
Em Mato Grosso do Sul, o flag football conquistou espaço nos últimos anos e já se tornou referência. “Nosso estado é referência e, há anos, se mostra uma potência a nível nacional, principalmente pelos títulos conquistados tanto por nós quanto pelo time masculino de Campo Grande. Minha expectativa é que o número de praticantes cresça cada vez mais, para que possamos realizar campeonatos locais e revelar novos talentos.”
As conquistas já alcançadas reforçam a relevância desse trabalho. Luiza recorda especialmente os títulos nacionais de 2019 e 2024, marcos para o time feminino sul-mato-grossense. “Coletivamente, destaco os títulos nacionais que conquistamos em 2019 e 2024, pois representam não só o esforço e união do grupo, mas também a dimensão do nosso trabalho em nível Brasil.” O reconhecimento também chegou em nível de seleção. “Ser chamada para integrar a comissão técnica da Seleção Brasileira Sub-17 masculina foi um marco especial na minha trajetória. Representar o Brasil e contribuir para o desenvolvimento de jovens atletas é algo que me enche de orgulho.”
A presença de atletas sul-mato-grossenses em convocações nacionais reforça a força da modalidade no estado. Recentemente, jogadoras foram chamadas para defender a Seleção Brasileira em torneios internacionais, inclusive no Panamá, já dentro do ciclo olímpico.
Se os títulos marcam a trajetória, o impacto social do esporte também tem peso na visão de Luiza. Ela enxerga sua atuação como referência para outras mulheres como parte dessa responsabilidade. “Acredito que representatividade importa, e se a minha caminhada serve de incentivo para que outras mulheres acreditem no seu espaço dentro do esporte, então já valeu a pena.”
Essa noção de responsabilidade também aparece quando o tema é motivação em um esporte que ainda busca maior visibilidade. “Exige muita paixão e resiliência. O processo vai além da parte técnica: envolve criar um ambiente em que os atletas se sintam valorizados, mesmo sem tanta visibilidade ou retorno financeiro. Trabalhamos com metas realistas e celebramos cada avanço, por menor que seja.”
O futuro segue como horizonte. Como atleta, Luiza ainda quer competir em alto nível e somar conquistas com o time. Como treinadora, sonha em participar de competições internacionais e consolidar ainda mais o flag football no Brasil. “Acima de tudo, quero deixar uma contribuição positiva para que o esporte seja cada vez mais reconhecido e respeitado.”
Aos jovens que pensam em iniciar no esporte, o recado é direto: “Acredite no processo e não tenha medo de começar, mesmo que pareça difícil no início. Cada treino, cada erro e cada acerto fazem parte da construção do atleta. O esporte é uma ferramenta poderosa de transformação: abre portas, cria laços e fortalece valores que você levará para toda a vida.”