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Luiz Bonelli: “Um campeão não é definido com uma vitória, mas sim como ele lida com a derrota”

da redação - 6 de out de 2025 às 16:01 97 Views 0 Comentários
Luiz Bonelli: “Um campeão não é definido com uma vitória, mas sim como ele lida com a derrota” Da Redação

“Um campeão não é definido com uma vitória, mas sim como ele lida com a derrota.” A frase é de Luiz Carlos Bonelli Júnior, 39 anos, natural de Dourados (MS), terceiro colocado no Mundial de Muay Thai e campeão Sul-americano e Brasileiro da modalidade. O treinador e atleta resume em poucas palavras uma das principais lições que o esporte lhe ensinou ao longo de mais de duas décadas de dedicação: resiliência diante das derrotas e valorização da experiência adquirida no caminho.

 

O interesse pelas artes marciais surgiu ainda na infância. “Quando guri, gostava muito de assistir programas, desenhos de luta e eventos de boxe que passavam na TV”, relembra. Na adolescência, iniciou no jiu-jitsu, em uma academia próxima de casa, até conhecer o Muay Thai de fato. “Após um ano treinando com alguém que eu achava que me ensinava Muay Thai, foi na academia em que eu treinava jiu-jitsu que conheci o finado mestre Eduardo Maiorino, quem me mostrou de verdade o que era Muay Thai, o que me permitiu conquistar as oportunidades que viriam a aparecer.”

 

As primeiras experiências internacionais foram decisivas para moldar sua visão sobre o esporte. Bonelli participou do Mundial em 2007, mas recorda 2009 como o ano mais marcante de sua trajetória. “Pude ir para a Tailândia conhecer o berço da modalidade. Viver a cultura foi algo realmente incrível”, afirma. Ele reconhece que, com o tempo, percebeu que experiências como essa podem ser mais valiosas do que os títulos conquistados. “Na época até eu mesmo pensava que conquistas eram o mais importante. Hoje identifico como essencial as experiências que vivi, e a Tailândia foi o auge para mim.”

 

A rotina que o levou a ser campeão brasileiro e sul-americano foi intensa. “Eram dois treinos por dia, às vezes três, dependendo da dinâmica. A parte de força com musculação e a parte específica que, além de bater em sacos e aparadores, foi forjada à base de muito sparring. Afinal, para aprender a sair na mão, tem-se que sair na mão”, brinca.

 

No Mundial, o desafio não esteve apenas no ringue. “Com certeza, a bagunça da federação em que eu era filiado na época foi um problema. E se me perguntar o que faltou para avançar além do terceiro lugar, foi a experiência. Não perdi a luta porque o adversário era mais duro do que eu, mas porque ele entendia mais o jogo e como me enrolar durante a luta para ganhar a pontuação.” Ao comparar os combates, ele é categórico: “julgo que foi mais difícil enfrentar o argentino no Sul-Americano, em que fui campeão, do que o coreano que me derrotou na semifinal do Mundial.”

 

Conciliar família, treinos e trabalho é uma questão de organização. “Tudo é uma questão de prioridades. Família, trabalho, treino e estudos, não necessariamente nessa ordem. Não estou querendo vender facilidade, mas é simples: fazemos o que temos que fazer no momento que temos que fazer, com as condições que temos.”

 

Bonelli também aponta o que considera essencial para a formação de um atleta de alto nível. “Ser apenas o mais duro na porrada não é o suficiente. O lutador tem que: 1 —  ouvir o corner e realizar exatamente o que ele pede; 2 — conseguir, durante a luta, ter a percepção do que acontece, como se estivesse assistindo a luta de fora; 3 — ser determinado, pois inúmeras situações adversas surgem, principalmente em épocas de competição.”

 

Sobre a lição mais importante que aprendeu, ele não tem dúvida: lidar com a derrota. “Você se dedica por meses, às vezes anos, e perde em um dia, uma noite, uma luta, um momento. Como é dolorido. Você começa a se questionar se realmente é bom naquilo. Mas no dia seguinte pega seu material e retoma os treinos.” Para ele, é justamente essa retomada que diferencia quem continua no esporte. “Vejo jovens hoje preocupados com resultados imediatos e supervalorizando conquistas, e pior, supervalorizando derrotas. Ninguém ganha sempre, nem o tempo todo.”

 

Como treinador, Bonelli afirma ter encontrado sua vocação. “Amo o que faço, amo dar aula. Ensinar é uma arte que me irrita e me encanta”, diz, rindo. Entre os principais desafios da formação de novos atletas, cita a resiliência, mas observa uma barreira além dos tatames: “o maior desafio atualmente são os pais nutelas.”

 

Para o futuro, o treinador se mostra aberto a aprender e contribuir ainda mais com a modalidade. “Recentemente fui surpreendido com uma federação desenvolvendo um trabalho fantástico, trazendo uma parte cultural que há muito eu buscava. Então parece que meu próximo desafio é aprender mais, após 20 anos na modalidade ainda tenho muito a aprender e ensinar.” Além do Muay Thai, Bonelli também atua como Instrutor de Armamento e Tiro. “Educar sobre filosofia e uso de arma de fogo, ensinar com metodologia e segurança aqueles que desejam operar um equipamento desses” é uma de suas atuais atividades paralelas.

 

Ao deixar um conselho para iniciantes, ele reforça a importância de buscar formação de qualidade. “Lá atrás eu mencionei que achava que treinava Muay Thai e perdi um ano da minha vida por conta disso. Se você está procurando um professor, busque as referências dele, quem são seus mestres, a qual entidade ele está filiado, porque o que mais tem hoje no mercado é professor de YouTube.”

 

A trajetória de Luiz Carlos Bonelli Júnior se constrói na soma de títulos, experiências e ensinamentos. Mais do que medalhas, ele valoriza as lições de vida trazidas pelo esporte. Como disse, “um campeão não é definido com uma vitória, mas sim como ele lida com a derrota.”

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