Da Redação
No final da década de 1990, dois irmãos com histórias semelhantes encontraram no judô a ponte para um sonho maior: tornar o esporte acessível para todas as crianças, independente da condição social. Foi assim que nasceu, em 1999, o projeto Judô Para Todos, em Maracaju (MS), idealizado por Roger Augusto Ziemann e seu irmão, Robert Gustavo Ziemann. A primeira aula aconteceu de forma simples, na varanda da escola Manoel Ferreira de Lima. De lá pra cá, a iniciativa cresceu, formou atletas, professores e se consolidou como referência na formação de crianças e adolescentes.
“Tanto eu como meu irmão éramos crianças carentes e praticávamos judô, e sempre idealizamos um projeto onde as crianças não pagariam mensalidade e também ganhariam kimono”, conta Roger, que nasceu em Rio Negro (PR) em 15 de setembro de 1976. Robert, o irmão e cofundador, é campo-grandense, nascido em 9 de julho de 1982.
O que era uma ideia em uma varanda virou um trabalho estruturado com cinco polos de atendimento e uma sede própria em Maracaju. O projeto atende 350 crianças e adolescentes de 5 a 17 anos, oferecendo não só aulas de judô, mas também disciplina, convivência e oportunidades. “São crianças de todas as classes, da mais humilde até a classe alta, todas tratadas iguais”, explica Roger. A igualdade, aliás, é um dos pilares da metodologia dos irmãos Ziemann.
No tatame, a filosofia é clara: “O judô ensina principalmente a formação do caráter, a humildade, a disciplina e o amor à família. Esses são os quatro pilares do nosso projeto”. Não se trata apenas de formar atletas. A prioridade é formar cidadãos. Por isso, o projeto expandiu seu raio de atuação e está também presente em Rio Brilhante e Sidrolândia, por meio do Instituto Pequeno Cidadão, com planos de abrir uma nova unidade em Jateí.
A confiança da comunidade é um dos grandes alicerces da iniciativa. “A comunidade tem um elo importante no nosso projeto, pois confia seus filhos a 26 anos de história”, afirma o sensei. Essa relação construída ao longo do tempo passa pela presença constante do projeto em eventos tradicionais da cidade, como a Festa da Linguiça, onde o Judô Para Todos mantém uma barraca há 15 anos.
Hoje, o projeto conta com apoio das esferas estadual, municipal e também da iniciativa privada, o que ajuda a manter a estrutura e as atividades. E os resultados são visíveis. Além da transformação social, o tatame revelou talentos que chegaram ao alto nível do esporte. “Já tivemos atletas com medalhas nacionais, como a Crislaine Luis Pereira Ziemann e a Cliselma Braga Paré, que hoje são professoras do projeto e começaram na primeira turma”, lembra Roger com naturalidade. Ao todo, são mais de 17 medalhas em campeonatos brasileiros, desde a categoria sub-13 até o sênior.
Ao contrário do que muitos poderiam pensar, o sucesso do Judô Para Todos não veio de grandes patrocínios ou estruturas de alto padrão. Veio da constância. Da persistência. Da vontade de dois irmãos que conheceram, na infância, o poder transformador do esporte e decidiram compartilhá-lo com quem também precisava. Hoje, mais de duas décadas depois, o impacto do projeto se mede pelas histórias de vida, pelos quimonos entregues, pelos laços de amizade formados e pela confiança renovada a cada nova matrícula.
“O que nos motivou a criar o projeto foi justamente isso: que nenhuma criança deixasse de praticar judô por não poder pagar”, resume Roger. A frase, simples e direta, continua sendo o fio condutor de uma iniciativa que já ultrapassou fronteiras, rompeu barreiras sociais e segue construindo, dia após dia, um caminho de cidadania através do esporte.