Da Redaçao
“Antes da defesa pessoal vem a prevenção.” A frase resume a forma como Johnatan Mateus Ribas da Costa Domingues Chaves enxerga o jiu-jitsu hoje. Atleta de Mato Grosso do Sul, ele construiu sua trajetória a partir de um projeto social e, ao longo dos anos, transformou a prática esportiva em rotina de alto rendimento, atuação como professor e proposta de formação voltada também à defesa pessoal.
Johnatan conta que começou no jiu-jitsu por meio de um projeto social. “Comecei através de um projeto social. A partir do projeto, tive contato com pessoas boas, que tive como exemplo, pessoas que alimentaram essa vontade em mim”, afirma. Quando o projeto chegou ao fim, ele recebeu bolsa vitalícia para treinar em outra equipe, o que permitiu a continuidade no esporte.
Segundo ele, a permanência no jiu-jitsu foi motivada por fatores que iam além da competição. “O que me motivou a continuar no jiu-jitsu foi essa mistura de intensidade e adrenalina, combinada com respeito e ordem em um ambiente familiar e acolhedor. Muitas coisas que aprendemos no tatame automaticamente refletem em outras áreas da vida”, relata.
A consolidação como atleta exigiu conciliar diferentes responsabilidades. Ele trabalhava com carteira assinada das 6h às 14h, mantinha alimentação regrada, fazia musculação, descansava e, à noite, treinava jiu-jitsu e dava aulas. “O maior desafio que tive foi conciliar a rotina do dia. Mesmo sendo difícil, mantive essa rotina por quase dois anos”, diz.
O reconhecimento veio em etapas. Johnatan voltou a competir no cenário estadual e passou a perceber evolução no desempenho. “Percebi que podia competir em alto rendimento quando fui convidado para lutar o Indoor Black Belt duas vezes. Não tive o resultado positivo, mas senti um reconhecimento pelo meu esforço. Isso me motivou ainda mais”, afirma.
Entre as conquistas, ele destaca uma vitória no MMA como ponto de virada. Após cerca de três anos afastado das competições, aceitou o desafio e venceu a luta em menos de dois minutos. “Foi um momento em que eu estava parado havia cerca de três anos. O desafio me fez voltar a ter disciplina. Depois dessa luta, nunca mais diminuí a frequência de treinos. Me fez voltar para o jogo”, declara.
Atualmente, Johnatan afirma que consegue administrar melhor a rotina entre treinos, aulas e descanso. Ele ministra aulas às 6h30, permanece na academia até o treino de competição, às 11h30, e depois retorna para casa para almoçar e descansar. “Durmo à tarde para recuperar o corpo. À noite, dou aulas novamente. Só não sobra tempo para a vida amorosa, mas minhas amizades são, na grande maioria, do jiu-jitsu”, relata.
Para ele, o esporte produz reflexos fora do tatame. “Senti que a disciplina reflete fora dos tatames e isso, de alguma forma, inspira pessoas. Mostra que é possível ter um estilo de vida mais saudável”, afirma.
Em 2025, disputou o primeiro Mundial da ISBJJ, representando a seleção de Mato Grosso do Sul. Apesar de não ter conquistado o título individual, avalia o desempenho de forma coletiva. “Lutei pela seleção do Estado do MS. Não venci, mas, pelo desempenho que tive na minha luta e pelos resultados do grupo todo, não estamos atrás. Fomos campeões na categoria por equipes, entre todas as que disputaram. Na minha opinião, estamos todos evoluindo juntos”, diz.
Sobre referências, ele afirma que prefere valorizar as pessoas próximas. “Não tenho uma pessoa em específico. São vários do cenário mundial que costumo acompanhar, mas prefiro dar esse mérito às pessoas próximas a mim, em especial meus professores. Meu antigo professor me ensinou muito sobre jiu-jitsu e sobre a vida. Meu atual professor vem me ensinando cada vez mais coisas e, para mim, são minhas referências”, declara.
Para 2026, Johnatan já colocou em prática novos projetos. Um deles é a criação de uma turma feminina. “Um dos objetivos foi abrir uma turma feminina, pensando em ver um cenário futuro com menos notícias sobre violência contra mulheres. O ideal seria que todas as pessoas tivessem acesso a essa arte marcial, mas, a princípio, direcionei meu esforço para o público feminino”, explica. As aulas são ministradas com o apoio de outra instrutora.
Ele relata que a identificação entre alunas fortalece o processo de aprendizado. “Vejo que muitas mulheres se inspiram ao ver outras mulheres fazendo golpes com o corpo que nem elas sabiam que era possível”, afirma.
Outra meta é cumprir um calendário de cursos rápidos de defesa pessoal. Segundo Johnatan, o jiu-jitsu esportivo se distanciou da proposta inicial de autodefesa. “Como o jiu-jitsu esportivo acabou se distanciando do objetivo que seria a autodefesa, eu me especializei em defesa pessoal e criei esses cursos para quem quer aprender, mas não sente interesse pelo esporte e pela competição. É algo rápido e mais objetivo, sempre mantendo a essência da arte marcial, que prega o respeito e o cuidado ao próximo”, diz.
Nos cursos, ele enfatiza que a autodefesa começa antes do confronto físico. “Antes da defesa pessoal vem a prevenção: analisar possíveis riscos e antecipar eventos. A boa comunicação, não só verbal, mas também a postura corporal como forma de comunicação, são temas desses cursos. Também tem a parte prática”, explica.
Ao falar com jovens que desejam seguir carreira no jiu-jitsu, Johnatan deixa um recado sobre valores e referências. “Escolham bem em quem vão se inspirar. Procurem atletas que não tenham vendido seus valores por nada. Nem tudo é sobre dinheiro”, conclui.