Da Redação
O corpo muda, mas o rendimento pode continuar. É com essa premissa que o treinador Flávio Gargioni Galvão, de Campo Grande (MS), estrutura seu trabalho com atletas de jiu-jitsu que ultrapassaram a barreira dos 30 anos. Especializado em treinos voltados para alta performance nesta faixa etária, ele desenvolveu uma metodologia própria, nascida da observação da realidade de seus alunos.
"Eu comecei atendendo de tudo um pouco, como a maioria dos profissionais. Mas com o tempo, percebi um padrão: os alunos que mais me procuravam eram homens acima dos 30, que treinavam jiu-jitsu, tinham uma vida corrida e estavam frustrados por não conseguirem manter performance no tatame", explica Flávio. Segundo ele, a queixa mais comum era a sensação de estagnação física, dores frequentes e falta de energia.
Com base nesse cenário, o treinador passou a investigar os fatores que impactavam o desempenho desse público. "Quase sempre, o problema não era a idade — era o treino errado. Foi aí que eu entendi que existia uma lacuna gigante entre o que o corpo precisava e o que o treino entregava", aponta.
A partir dessa constatação, Flávio estruturou um modelo de acompanhamento que considera as particularidades de cada aluno. "Eu não acredito em receita pronta. Cada aluno que entra no meu acompanhamento passa por uma análise completa: rotina, limitações, valências físicas, histórico de lesões, objetivos no tatame", detalha.
Segundo ele, os principais desafios enfrentados por quem pratica jiu-jitsu depois dos 30 estão relacionados à recuperação física e ao equilíbrio com a vida pessoal. "O corpo já não responde como antes se você não cuida bem dele. O principal desafio físico é lidar com o acúmulo: dores que vêm de treinos mal feitos, cansaço que não passa, falta de mobilidade, perda de potência", diz. No campo mental, a pressão vem da tentativa de conciliar trabalho, família e treinos com o mesmo rendimento de antes. "O cara se compara com quando era mais novo ou com os mais novos no tatame, e sente que está ficando pra trás."
Para evitar esse tipo de frustração, o treinador aposta em três pilares básicos: intensidade na medida certa, recuperação inteligente e consistência viável. "Isoladamente, nenhum dos três resolve. O que mais importa é o equilíbrio entre eles — e é isso que muita gente erra. Tem aluno que treina forte demais, sem dar tempo de recuperar. Outros treinam pouco e irregular", resume.
A adaptação dos treinos também passa por uma leitura precisa das condições físicas e dos objetivos do praticante. "Tem cara que precisa de mobilidade antes de pensar em força. Tem outro que tem potência, mas não tem gás", exemplifica. O método adotado por Flávio prioriza a individualização, respeitando a realidade do aluno. "O segredo é ajustar o treino ao corpo, e não o contrário."
Flávio também aponta alguns mitos que, segundo ele, afastam pessoas maduras do tatame. "Achar que depois dos 30 o corpo não aguenta mais, que lesão é normal, e que a idade é um limite", cita. Ele critica especialmente a ideia de replicar treinos convencionais de academia como preparação física para o jiu-jitsu. "Fazer treino de maromba, genérico, achando que isso vai melhorar o desempenho no tatame" é, segundo ele, um erro comum.
O cuidado com elementos muitas vezes negligenciados, como alimentação, sono e mobilidade, também compõe o planejamento. "A alimentação é o que abastece o corpo pra treinar bem e se recuperar. O sono é onde a mágica acontece — é ali que o corpo se reconstrói. E a mobilidade é o que permite que você continue se mexendo com liberdade, sem compensar, sem se machucar", pontua.
O treinador cita casos de alunos que alcançaram resultados significativos mesmo após os 30 anos. Um deles é o de Marco, que começou no jiu-jitsu com mais de 35 anos. "Cheio de dor, sem fôlego e frustrado", conta. Após ajustes na rotina, treinos individualizados e foco em mobilidade e recuperação, Marco voltou a competir e subiu no pódio. Outro caso é o de Hércules, que não compete, mas transformou sua qualidade de vida com a perda de mais de 20 quilos. "Às vezes o pódio não é o campeonato — é poder treinar bem, sem dor, com prazer e energia pra viver", resume.
Mesmo para quem não tem pretensões competitivas, Flávio defende que o jiu-jitsu pode ser um aliado importante na busca por longevidade. "O jiu-jitsu te obriga a se mexer, a manter mobilidade, força, raciocínio rápido, e ainda tem o fator social — que pesa muito depois dos 30, 40, 50 anos."
Ao refletir sobre sua trajetória, o treinador admite mudanças na própria forma de ver o esporte. "Achava que quanto mais eu treinasse, melhor seria. Com o tempo, entendi que a chave não era fazer mais, mas fazer na hora certa." Hoje, ele aposta em treinos inteligentes, com foco em longevidade. "Não é sobre treinar como se tivesse 20, é sobre treinar pra continuar no tatame com saúde e performance aos 40, 50, 60."
Para quem acredita que já passou da idade de começar ou buscar alta performance, Flávio é direto: "Você não passou da idade — só precisa do plano certo. O que atrasa não é a idade, é insistir num caminho que não respeita sua fase de vida."