Da Redação
A trajetória esportiva de Heitor Remijo Muniz, 15 anos, passa por uma decisão incomum para a maioria dos jovens atletas: deixar de ser atacante para se tornar goleiro. Natural de Campo Grande, onde nasceu em 28 de fevereiro de 2010, ele hoje é bicampeão estadual de futsal nas categorias sub-14 e sub-15 e projeta seguir carreira profissional na modalidade.
O início no esporte veio por influência do irmão mais velho, Othávio. Heitor conta que ainda pequeno acompanhava os treinos dele em uma escolinha da capital, mesmo sem poder participar por causa da idade. “Ficava com minha mãe aguardando meu irmão nos treinos, mas eu ia vestido com o uniforme dele, chuteira, sempre na esperança do professor deixar eu treinar”, relembra.
A insistência chamou a atenção dos professores. A mãe conversou com o responsável pela escolinha, Júlio, e ele decidiu incluí-lo em uma turma para crianças entre 5 e 6 anos. Heitor tinha apenas 4. O desempenho surpreendeu e ele foi transferido para uma turma mais avançada. “Na mesma semana o professor chamou minha mãe e disse que estaria me transferindo para outra turma mais adiantada, de meninos de 6 e 7 anos”.
Durante os anos seguintes, seguiu atuando na linha, participando de campeonatos em Campo Grande e também no interior do Estado. Aos 9 anos, passou a conciliar futsal e futebol de campo. O novo ambiente ampliou sua visão de jogo e o fez experimentar uma mudança que definiria seu futuro. “Lembro que nessa época, jogando campo e futsal na linha, senti uma vontade de experimentar ser goleiro. Pedi para meu professor se podia ser goleiro naquele dia. Ele estranhou, mas deixou”.
A decisão foi recebida com surpresa em casa. “Falei para minha mãe que iria ser goleiro, que não queria mais jogar na linha. Lembro que ela ficou louca. Meu pai e meu irmão não acreditaram que eu iria mudar. Mas senti vontade de mudar”. Durante um tempo, alternava entre a linha e o gol. A mudança definitiva veio em dois campeonatos decisivos no final de 2019. Ele defendeu pênaltis nas finais de futsal e campo e ajudou as equipes nas conquistas. “No futsal, defendi dois pênaltis e, no campo, foram três defesas. Fomos campeões nos dois”.
Em 2020, recebeu um convite para estudar e jogar pela escola ABC, onde ficou até 2023. Ainda atuava nas duas modalidades, mas começou a sentir os efeitos da exigência física. A questão da altura também pesou. “Infelizmente há uma exigência nos clubes de altura para goleiros. Faço acompanhamento médico e, mediante exames e histórico familiar, não atingirei a altura exigida”. Aos poucos, perdeu o entusiasmo pelo futebol de campo e passou a focar exclusivamente na quadra.
A decisão foi oficializada em janeiro de 2024. “Falei para meus pais que tinha tomado uma decisão e que sairia do campo e focaria exclusivamente na quadra sendo goleiro. Dessa maneira respeitaria meu corpo, teria menos lesão, e meus treinos iriam render muito mais”.
Ainda em 2024, passou a estudar e jogar pela escola Raul da Funlec e também se juntou à equipe Bayern. Pelos dois times, participa de campeonatos simultâneos. Pela equipe Bayern, foi campeão estadual sub-14 e sub-15. “Foi um sonho concretizado com muita disciplina e força de vontade. Ganhar o primeiro título estadual no sub-14 foi gratificante. Ganhar o segundo reforça nosso empenho, trabalho e dedicação no futsal”.
Além dos treinos regulares com as equipes, Heitor mantém uma rotina complementar intensa. “Sempre mantive meu treinamento específico de goleiro com o professor Flávio Cavassa nos finais de semana (sábado e domingo), faço musculação cinco vezes na semana e fisioterapia de fortalecimento duas vezes. De manhã vou à escola e nas tardes concilio todos esses compromissos com tarefas e estudos em casa”.
Para ele, o segredo está na organização. “Não é fácil. Tem que ter disciplina e foco. Mas são escolhas. Eu escolhi ter essa rotina e responsabilidade. Tenho minha família para me apoiar e me ajudar com tudo”.
O goleiro também destaca a importância da preparação física na evolução entre um título e outro. “Tivemos mais um ano de preparação física e mental. Continuei meus treinos específicos e com a equipe, além de acrescentar musculação e fisioterapia. Aumentando assim minha intensidade nos treinos”.
Entre suas inspirações no esporte estão dois goleiros da seleção brasileira de futsal. “Gosto do Willian, que jogou no Joinville e hoje está no MFK Norilsk Nickel da Rússia, e do Guitta, que foi cinco vezes considerado o melhor do mundo e hoje atua pelo time russo YXTA”.
A experiência de jogos em campeonatos nacionais também marca sua trajetória. Ele cita como um dos momentos mais marcantes o jogo pela Liga Brasileira de Futsal, em Sapezal (MT), em 2024. “Era fase de grupos e jogamos contra o time da casa com ginásio lotado da torcida rival. Foi marcante pela atuação e pela pressão. O jogo terminou 2x2 e ganhei o prêmio de Craque da Partida”. Outro jogo marcante foi a semifinal do Estadual sub-14, contra o DEC Futsal. “Foi bastante intenso, exigiu muita concentração. Consegui fazer boas defesas e ajudar o time na vitória por 4x3”.
Heitor também tem consciência do papel e da responsabilidade do goleiro. Aos que desejam seguir o mesmo caminho, ele dá um conselho direto: “Ser goleiro não é fácil. Há muitas exigências. Você não pode errar e tem que ter uma mentalidade forte. Tem muita pressão, pois é o último homem na linha. Um vacilo pode definir a partida”.
Outro ponto central em sua trajetória é o apoio da família. “Minha família é minha base. Sempre me apoiaram em cada decisão. Ter uma rotina de treino de alto rendimento e participar de campeonatos dentro e fora do Estado gera uma despesa grande. Meus pais são meus maiores incentivadores e únicos patrocinadores”.
Heitor destaca que a falta de apoio financeiro é um dos principais obstáculos para atletas de alto rendimento no Brasil. “Infelizmente, muitos jovens atletas acabam desistindo por causa da situação financeira, falta de ajuda e apoio. Gostaria muito de ter um patrocinador, alguma empresa que acreditasse no meu potencial e pudesse me ajudar financeiramente a continuar no futsal”.
Mesmo diante dessas dificuldades, os objetivos seguem bem definidos. “Tenho vários objetivos na carreira. O principal é conseguir disputar uma Copa do Mundo pela Seleção Brasileira. Inicialmente desejo ir para um clube brasileiro e futuramente jogar profissionalmente na Europa”.
Até o final deste ano, Heitor terá uma sequência intensa de competições. Em julho, disputa a Liga MS sub-16 com a equipe Funlec. Em setembro, participa do Estadual sub-16 em Corumbá. Já em novembro, viaja com a equipe Bayern para Parnamirim (RN), onde representará Mato Grosso do Sul na Taça Brasil sub-15. “Se Deus permitir, chegaremos na final”.
Enquanto isso, segue conciliando treinos, escola, preparação física e competições. A rotina exige muito mais do que talento. Para Heitor, exige também escolhas, renúncias e foco. “Não adianta querer fazer 10 coisas ao mesmo tempo. Sei do meu limite, sei da exigência dos meus treinos e quero estar 100% nos jogos. Se for da vontade de Deus meu retorno ao campo, ele irá me guiar. Enquanto isso, creio que estou no caminho certo”.