Da Redação
“Ganhei outra chance de vida. Então, pra que vou ficar reclamando? Quero cada dia mais viver meus sonhos junto com minha família.” É com essa frase que o atleta sul-mato-grossense Joel Lídio Faustino resume a trajetória marcada por superação, fé e amor pelo futebol. Hoje, aos 48 anos, ele é jogador profissional de futebol para amputados, modalidade que o ajudou a reencontrar o sentido da vida após um acidente que mudou tudo.
Nascido em 26 de novembro de 1976, Joel cresceu sonhando em ser jogador profissional. “Era jogador amador, sonho de infância ser profissional. Joguei no Operário, na época do seu Eloi como treinador”, lembra. A carreira, no entanto, foi interrompida aos 32 anos, quando perdeu uma das pernas. “Foi um momento muito difícil. Um mês depois ainda perdi minha mãe. Mas falei pra ela que um dia eu ia ser profissional, e hoje sei que ela está feliz comigo.”
O futebol voltaria à vida de Joel de uma forma inesperada. “Através do meu amigo Juninho, que montou um time aqui em Campo Grande, o Pantanal, comecei a jogar novamente. No início era tudo novo, correr com a muleta, sem prática. Mas continuei e fiquei sete anos jogando pelo Pantanal, já como destaque na zaga.”
Com o tempo, o desempenho chamou atenção de outros clubes. Joel recebeu o convite para jogar em São Paulo, pela equipe do Acre, uma das mais tradicionais da modalidade no país. “Lá consegui ser campeão da modalidade, jogando praticamente ao lado dos melhores jogadores do Brasil. É como se fosse um Flamengo do futebol para amputados”, diz, rindo.
No novo time, acumulou títulos importantes. “Fui campeão paulista invicto, campeão brasileiro da Série B e campeão da Copa do Brasil. Também fomos vice-campeões do Campeonato de Guarulhos. Consegui ajudar o time a subir para a Série A.”
A rotina de treinos é intensa. “Treino duas vezes por semana com bola e quatro vezes na academia, acompanhado pelo professor Natan, de São Paulo. Ele cuida de cada atleta.” Joel destaca o ambiente do time e a qualidade dos companheiros. “O time do Acre é uma grande equipe, o ambiente é ótimo. Tem os meninos Mosquito e Wesley, que são da seleção, o Formiga, o Gabriel, que é um grande goleiro. Toda a comissão técnica, o preparador físico, são sensacionais.”
O atleta também vê crescimento na visibilidade do futebol para amputados. “Cada dia o futebol para amputados vem crescendo. Já chegamos a ganhar prêmio de gol mais bonito, concorrendo com jogadores do futebol convencional. Hoje as equipes ficam em hotel de alto nível. Parabéns ao vice-presidente da modalidade, Diego, e ao presidente, pelo trabalho que estão fazendo.”
Joel já planeja o retorno ao time em que começou. “Em 2026, estou voltando ao meu time do Pantanal, onde iniciei minha carreira profissional. Hoje sou profissional, realizei meu sonho de infância, mas de um modo diferente. Não deixei de lutar.”
A luta, aliás, é uma constante na vida de Joel. Ele lembra do momento em que esteve entre a vida e a morte. “Há 17 anos, eu tinha dez minutos de vida. Todos da minha família estavam pedindo a Deus pra eu não ir embora. Eu também pedi outra chance. Ganhei. Então, pra que vou ficar reclamando? Quero viver meus sonhos junto com minha família.”
A fé, a família e o esporte foram os pilares da recuperação. “Minha esposa Lígia, minha filha Rylarim e meu filho Ryan Dyballa são minha força de vencer todos os dias. Foi o Ryan que me fez acreditar que eu ia vencer.”
Hoje, além de atleta, Joel também atua como técnico e professor. “Sou o primeiro técnico do meu filho. Ele continua o meu sonho de ser jogador profissional. Minha meta é revelar mais jogadores, como ele, o Nicolas e várias crianças que vocês já fizeram matéria. Vivo dentro das quatro linhas: quando não estou jogando, estou dando aula. Futebol é minha paixão.”
Entre os aprendizados, Joel destaca o que o esporte trouxe para sua vida. “A lição que o esporte traz é disciplina, humildade e nunca desistir dos seus sonhos.” E deixa uma mensagem para outras pessoas com deficiência: “Não desistam. A vida é feita de oportunidades. Se Deus te deu mais uma chance, agarre com força. Eu pedi uma e ganhei. Hoje vivo ela todos os dias.”