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“Esse esporte transforma vidas”: a trajetória de Martinha Macedo no ciclismo de MS

da redação - 3 de dez de 2025 às 15:56 97 Views 0 Comentários
“Esse esporte transforma vidas”: a trajetória de Martinha Macedo no ciclismo de MS Da Redação

A ciclista sul-mato-grossense Martinha Macedo, nascida em Campo Grande no dia 1º de novembro de 1968, encontrou no esporte uma saída inesperada em um dos períodos mais difíceis de sua vida. Ela conta que tudo começou após perceber alterações no próprio comportamento. “Estava em um momento muito difícil da minha vida e percebi que algo estava errado, sintomas estranhos. Fui ao médico e ele disse: ‘parece que temos alguém com depressão por aqui’. Saí da consulta mais triste do que eu estava e com uma receita enorme”, lembra. Segundo ela, naquele instante surgiu a recusa em iniciar a medicação: “Pensei: ‘e agora? Me nego a tomar medicamento e confirmar esse diagnóstico’”.

 

Foi a partir dessa resistência que Martinha encontrou o ciclismo. Ela conta que lembrou de um amigo que lhe devia R$ 360. Em vez de cobrar a quantia, pediu uma bicicleta equivalente ao valor. “Assim ele fez. Pensa na bike ruim”, brinca. No dia seguinte, decidiu pedalar e, na Orla do Aeroporto, encontrou um amigo de adolescência que também praticava ciclismo recreativo. Depois disso, não parou mais. Ela conta que, logo nas primeiras semanas, encarou rotas longas sem qualquer técnica. “Já fui até Terenos. Amei. Sofri bastante, pois não tinha técnica e não sabia nada sobre o esporte.” No dia seguinte, enfrentou novo desafio. “Segui para o Rochedinho, sofrendo mais ainda, porém percebi a ‘delícia’ desse esporte, que nos ‘cansa, porém descansa a alma’”.

 

Aos poucos, Martinha passou a se aproximar de ciclistas da capital, integrar grupos e se reconhecer na modalidade. Com cerca de cinco meses de prática, já havia trocado de bicicleta e percebia que o ciclismo se tornava parte da rotina. Incentivos também surgiram. “As pessoas já começavam a falar: ‘Martinha, você é forte, não pensa em competir?’”. Ela relata que a motivação cresceu quando viu atletas e patrocinadores demonstrarem interesse por sua participação em pedais e eventos.

 

O convite para iniciar treinos específicos veio de um atleta experiente de mountain bike e ciclismo de estrada. “Aceitei. Sou muito competitiva e tudo que faço sempre acho que faço bem feito, embora sem experiência alguma.” Logo na primeira prova, mesmo sem equipamento adequado, teve resultado acima do esperado. “Na primeira prova e com a bike errada para meu tamanho e peso, errei o percurso e ganhei.” A partir dali, foi convidada para integrar a equipe de Bodoquena, onde permaneceu por seis anos. “Sempre nos pódios”, resume.

 

O ciclismo se consolidou como elemento fundamental em sua trajetória. Hoje, Martinha integra a equipe Bonito Bike Team e lembra das provas que mais marcaram seus anos no esporte. Ela destaca a Pata de Onça, realizada em Nova Andradina, com 150 km no primeiro dia e 100 km no dia seguinte. “Essa prova requer muita determinação e preparo físico e mental, pois o atleta tem apenas cinco horas para concluir.” Também cita a Brasil Ride, em Bonito, com três dias de disputa e altimetria elevada. “Afirmo que todas as provas não são fáceis, porém são maravilhosas pelo percurso e belezas do nosso estado.” Para ela, as colocações são secundárias diante de outro resultado: “Mesmo que eu não estivesse no pódio, já me considerava vitoriosa pelo fato de ter vencido uma depressão”.

 

Martinha afirma que a motivação permanece ligada à sensação proporcionada pelo esporte e à superação diária. “O que me motiva a continuar treinando, além da mudança física, é a superação e a delícia dos treinos, que eu nem considero cansativos.” Sua rotina inclui pelo menos quatro treinos semanais, variando entre 40 e 100 quilômetros, além de musculação para fortalecimento específico e acompanhamento nutricional.

 

Quando fala em desafios, Martinha aponta para a convivência no trânsito, especialmente nas estradas. Para ela, a falta de respeito de alguns motoristas é uma das principais dificuldades enfrentadas pelos ciclistas. Em outra reflexão, ela comenta aspectos que geram desmotivação entre atletas amadores, mas evita aprofundar esse ponto.

 

A desistência nunca foi opção, segundo ela. Nem mesmo quando enfrentou complicações da Covid-19. “Quando tive Covid e fiquei entubada por cinco dias, ao retornar aos treinos achei que não conseguiria. Mas com três meses de treinos, lá estava eu de novo”, relata. O retorno foi impulsionado pelo apoio das pessoas próximas. “O que me fez continuar foi ver o quanto sou querida pelos amigos, patrocinadores, minha equipe e minha família.”

 

Com quase 12 anos de competições, Martinha acompanha o crescimento do ciclismo feminino no estado e projeta novos objetivos. Ela mira a Brasil Ride de Bonito em 2026. “Meu objetivo principal é estar entre as cinco no Brasil Ride na etapa de Bonito, competindo os três dias.” Em paralelo, segue acumulando histórias e vivências em longas distâncias. “Tenho inúmeras histórias, viagens de bike até Santos, Bonito, Três Lagoas, Ribas e Piraputanga.” Mesmo com o volume elevado de treinos, ela conta que costuma pedalar sozinha. “Treino sozinha. Veja que perigo. Graças a Deus nunca aconteceu nada, e nem vai acontecer.”

 

Martinha resume sua mensagem para quem deseja iniciar no esporte, independentemente da condição física ou do equipamento. “Meu conselho é: não importa sua bike. Só vá. Esse esporte transforma vidas.”

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