Da Redação
A trajetória de Vinicius Farinon Santos, técnico de vôlei de Sonora (MS), começou dentro da própria escola em que estudava. Ele tinha 16 anos quando foi convidado a ajudar na formação de uma equipe para os Jogos Escolares do município. O convite da professora, que buscava apoio por não dominar a modalidade, abriu caminho para o que mais tarde se tornaria sua rotina. “Comecei a ajudar nos treinos, dava algumas dicas, ajustava movimentos, ensinava fundamentos. No começo era lazer, mas, quando chegou perto dos jogos, a professora pediu que eu estivesse em quadra junto com as meninas, chega me espantei”, lembra.
A presença do jovem treinador, no entanto, gerou resistência. “Tivemos algumas barreiras, porque professores de outras escolas não queriam que eu ficasse em quadra por ser menor e não ter formação”, afirma. Ele havia completado 16 anos poucos meses antes. Mesmo assim, conseguiu acompanhar parte da competição. “A sensação de estar dentro de quadra, mas de um lado diferente, foi única.”
O trabalho rendeu um resultado simbólico. A escola foi campeã municipal pela primeira vez nos Jogos Escolares de Sonora. O título marcou o início de um processo de continuidade. “Acho que isso me motiva: a confiança das meninas e dos familiares, e o desafio de, no começo, ninguém acreditar que seria possível”, afirma. A equipe conquistou títulos municipais em 2022, 2023 e 2024 e disputa o tetra neste ano.
O vínculo de Vinicius com o vôlei começou antes, ainda na infância. Ele explica que buscava uma atividade para o contraturno escolar e encontrou no esporte uma alternativa. “Era uma criança muito agitada e gostava de praticar esportes. Resolvi dar oportunidade para o vôlei e, com o tempo, percebi que precisaria dedicar muito tempo e esforço para aprender e chegar onde queria.”
Hoje, aos 19 anos, ele conduz diferentes categorias no município, desde a base até o início da equipe adulta. Segundo o treinador, o crescimento do vôlei feminino em Sonora acompanha o avanço das turmas que começaram ainda na escola. “Antes eu trabalhava só com a equipe de 12 a 14 anos. Com o tempo, elas foram crescendo e tive que abrir a categoria de 15 a 17. Agora temos base de 8 a 10 e estamos começando a montar o adulto.”
Apesar do avanço, os desafios permanecem. A falta de estrutura e de apoio institucional é um dos principais pontos citados por Vinicius. “Estamos no interior e isso já é uma dificuldade. Não cobramos os treinamentos. São gratuitos e abertos à comunidade. Mas não temos incentivo para viagens, materiais de treino e outras despesas”, explica. Ele afirma que a quantidade limitada de quadras esportivas no município também afeta o planejamento. “É dividido entre futsal, vôlei, handebol e badminton. Acaba que treinamos poucas vezes na semana dependendo da categoria.”
Essa realidade influencia diretamente a formação das atletas. Vinicius busca equilibrar o rendimento esportivo com fatores sociais. Ele afirma que seu trabalho se apoia principalmente em disciplina, respeito, compromisso e dedicação. “Tento mostrar que não estamos trabalhando só fundamentos ou posições de vôlei, mas formando humanidade. Acompanho o desempenho delas na escola e com a família para que o vôlei seja um fator que ajude, e não comprometa.”
Para ele, a união do grupo é parte essencial do processo. “Busco trabalhar o diálogo e a parceria. No vôlei, uma precisa da outra. Gosto de ver elas sorrindo, mas é um sorriso de quem gosta de estar em quadra, não de brincadeira.”
O técnico aponta que a relação da comunidade com o esporte também tem impacto direto no desenvolvimento do projeto. “O apoio local garante infraestrutura e financiamento, mas o principal é a valorização dos atletas. Muitas vezes eles sentem falta de incentivo e não entendem como uma atividade que envolve tantas temáticas além do esporte não encontra apoio”, afirma. Para ele, a falta de investimento contribui para um sentimento de desvalorização entre os jovens.
Com três anos à frente das equipes femininas, Vinicius já acumula resultados relevantes. Ele destaca o terceiro lugar no Estadual Escolar na categoria de 12 a 14 anos, que garantiu a primeira medalha da história do voleibol feminino de Sonora em competições estaduais. Mas avalia que a principal conquista foi consolidar sua permanência como treinador. “Considero minha maior conquista ser técnico da equipe Sonora Vôlei e contribuir para que o vôlei feminino da cidade pudesse ressurgir, mesmo com todas as dificuldades e contestações.”
Para 2026, o objetivo é ampliar o projeto por meio da criação da Associação Esportiva Sonora Vôlei. A proposta é buscar mais apoio e recursos, além de estruturar melhor a formação desde a base. “Planejamos alcançar novos horizontes. A equipe já está empenhada para as competições do próximo ano, mas nosso objetivo sempre será ter mais meninas e meninos dentro das quadras.”
Vinicius também deixou uma mensagem para jovens que desejam seguir no vôlei. “Persistência. Muitas pessoas esperam uma fórmula pronta, mas cada um faz seu caminho. O trajeto vai além de ser um bom jogador. Envolve ser um bom filho, aluno e irmão.”