Da Redação
Aos 13 anos, Joyce Vieira Ferreira Hungria descobriu o jiu-jitsu em um projeto social realizado em uma igreja do bairro Caiobá, em Campo Grande. O esporte, que no início lhe pareceu apenas diferente, tornou-se parte de sua vida. “Nas primeiras aulas eu achei o esporte bem diferente, mas ao mesmo tempo fiquei muito interessada em aprender mais. O que me motivou de fato a continuar praticando foi a disciplina, resiliência e frutos da dedicação que o jiu-jitsu em si ensina”, conta a atleta, que hoje tem 21 anos.
O primeiro torneio em que competiu foi um campeonato estadual da Federação Sul-Mato-Grossense de Jiu-Jitsu (FSMJJ), no qual ficou em segundo lugar. Foi ali que tomou uma decisão que mudaria seus próximos anos: “Foi ali que decidi seguir isso pra minha vida.”
De família humilde, Joyce enfrentou dificuldades comuns a muitos atletas que iniciam a carreira no esporte sem apoio financeiro. Nem sempre teve kimonos adequados ou recursos para pagar as inscrições em competições. Nesse cenário, buscou alternativas para não desistir. “Para poder alcançar pódios maiores e me manter ativa no esporte competidor, eu comecei a vender bala baiana nos bares à noite no centro de Campo Grande. Isso me ajudou muito. Consegui arrecadar dinheiro para lutar vários campeonatos tanto dentro do estado quanto fora, no Rio de Janeiro, Curitiba, São Paulo, Santa Catarina.”
Além dos esforços próprios, contou com a ajuda de pessoas próximas. “Graças a Deus eu tive muita ajuda do meu professor André Soares e do Fábio Rocha”, afirma. O apoio, somado ao trabalho extra, permitiu que competisse em torneios relevantes no cenário nacional e internacional.
As principais conquistas vieram ao longo dos anos seguintes. Joyce acumula títulos como o de campeã mundial da CBJJD (peso e absoluto), campeã do Campeonato Brasileiro Centro-Oeste (peso e absoluto), além de ter sido vice-campeã no Sul-Americano da CBJJ e medalhista no Open São Paulo da CBJJ.
Apesar dos resultados, a jornada não foi simples. No início, ela era a única menina no tatame, cercada apenas por colegas homens. A adaptação não foi imediata. “Quando iniciei o jiu-jitsu eu era a única menina e os meninos não gostavam de treinar muito comigo. Mas com o tempo isso mudou e hoje podemos ver muitas mulheres conquistando o seu espaço dentro dos tatames”, recorda.
O crescimento do jiu-jitsu feminino no Mato Grosso do Sul, segundo ela, é perceptível. “O jiu-jitsu feminino tem crescido bastante no MS, não só o jiu-jitsu competidor, mas também o jiu-jitsu amador. Isso me deixa muito feliz em saber que mais mulheres estão tendo a oportunidade de descobrir a força e uma defesa pessoal.”
Para Joyce, o esporte é mais do que técnica ou medalhas. “O jiu-jitsu pra mim é mais que um esporte, ele se tornou um estilo de vida. Com o jiu-jitsu eu descobri a minha força como mulher, aprendi a superar e lidar com as frustrações e principalmente a respeitar o próximo.”
A trajetória até aqui foi marcada também por episódios que se tornaram pontos de virada em sua vida pessoal. Em uma competição importante, o Campeonato Brasileiro da CBJJ, ela viveu um momento inesperado. “Esse campeonato marcou a minha trajetória até aqui, lá eu conheci meus ídolos e inclusive descobri que estava grávida esse ano. Encerrei minhas competições esse ano lá.”
A gravidez alterou a rotina de treinos, mas não interrompeu totalmente a preparação. “Minha rotina de treinos com a gravidez mudou bastante, mas sigo me exercitando e fortalecendo meu corpo para quando chegar o ano de 2026 voltar 100% na minha categoria.”
Atualmente faixa roxa, Joyce traça seus próximos objetivos já pensando no retorno. “Meus próximos objetivos como atleta é lutar o Mundial CBJJD no Rio de Janeiro em 2026 e voltar ao ritmo de competições entregando o melhor de mim sempre.”
Suas inspirações vêm tanto de atletas consagradas como Gabrieli Pessanha e Bianca Basílio quanto de pessoas próximas. “Minha maior inspiração é a minha melhor amiga, Bárbara Moraes.”
Ao falar com mulheres que desejam ingressar no esporte, ela se coloca como exemplo de superação diante das dificuldades. “Um conselho que deixo para as mulheres é: não desistam e se olhem com amor. O jiu-jitsu é um esporte lindo e vai te ensinar a superar qualquer fase da sua vida, além de ser uma defesa pessoal.”