Da Redação
“Eu achei que realmente dessa vez não poderia mais voltar a jogar.”
A frase resume um dos momentos mais delicados da trajetória de Maicon de Souza Oliveira, atleta de voleibol nascido em Dourados, em 2 de outubro de 2002, e que, aos 23 anos, segue tentando transformar o esporte em profissão, mesmo após enfrentar lesões graves e um acidente que quase interrompeu de forma definitiva sua carreira.
O voleibol entrou na vida de Maicon ainda na infância, por incentivo de um professor, quando tinha cerca de 10 ou 11 anos, na cidade de Ivinhema. No início, o contato com o esporte era simples, mas a relação se aprofundou anos depois, já em Dourados, quando ele ingressou no curso de Educação Física da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Segundo ele, foi nesse ambiente que surgiram mais oportunidades de aprendizado, treinos e jogos. “Depois que comecei a estudar Educação Física na UFGD, tive mais oportunidades de aprender, treinar e jogar mais, e vi que era aquilo que eu queria para a minha vida. Um dia ter uma carreira profissional como atleta de vôlei”, afirmou.
O reconhecimento começou a aparecer à medida que a dedicação aumentava. Convites para jogar em outras cidades e o fato de ser lembrado pelo voleibol fizeram Maicon perceber que o caminho poderia ir além do amadorismo. “Quando comecei a treinar bastante e ser reconhecido por outras pessoas, percebi que muitas pessoas me conheciam pelo vôlei, que me chamavam para jogar em outras cidades. Ali eu vi que teria alguma chance de reconhecimento e, quem sabe, um futuro profissional”, contou.
Um dos momentos mais marcantes dessa fase inicial foi a participação no primeiro campeonato estadual, defendendo a universidade e a cidade. A experiência, segundo ele, ajudou a confirmar a escolha pelo esporte. “Quando fui para o meu primeiro estadual representando a universidade e a cidade, percebi o quão incrível é estar em quadra. Vi que realmente era o que eu queria, quero e gosto de fazer”, relatou.
A trajetória, no entanto, foi interrompida por problemas físicos ainda cedo. Em 2018, Maicon precisou se afastar das quadras após descobrir um problema sério no ombro direito. Ele explica que não possui ligamento entre o ombro e a clavícula, o que, com o passar dos anos, acabou se calcificando. A condição provocou a quebra de um pedaço do ombro e uma trinca na clavícula. “Achei que não poderia mais voltar a jogar”, relembrou. Mesmo assim, decidiu retornar. “Voltei, com dor, mas voltei”, disse.
Anos depois, um novo episódio colocou sua carreira em risco. Em dezembro de 2024, Maicon sofreu um acidente de moto, provocado pela imprudência de outra pessoa. O impacto resultou em uma infecção grave no joelho direito, que exigiu atendimento imediato. “Se não fosse tratada o mais rápido possível, muito certamente eu teria que amputar”, afirmou. O pior cenário não se confirmou, e o atleta iniciou um processo de recuperação que ainda está em andamento.
O retorno às quadras após o acidente teve um significado especial. Para ele, disputar e vencer um torneio depois desse período foi um marco. “O primeiro torneio que consegui realmente jogar e ganhar pós-acidente foi muito marcante, porque achei que dessa vez não poderia mais voltar a jogar”, contou.
Atualmente, Maicon retomou a rotina de treinos, com foco no fortalecimento físico. “Este ano voltei a frequentar a academia, fazendo treinos de fortalecimento para os joelhos, e sigo treinando na faculdade e fora também”, explicou. Dentro de quadra, ele se define como um atleta versátil, atuando como levantador, central e oposto, priorizando a velocidade do jogo. “Acredito que meu estilo seja um jogo mais rápido, para não dar muito tempo de resposta ao time adversário”, afirmou.
As referências vêm tanto de colegas de quadra quanto de atletas consagrados. “Tenho muitos amigos que jogam muito bem e que me inspiram pela força de vontade e estilo de jogo”, disse. Entre os profissionais, citou nomes como Thaisa Daher, Júlia Kudies, Lucão e Fabiana.
Ao falar sobre o cenário do voleibol em Mato Grosso do Sul, Maicon reconhece avanços, mas também aponta dificuldades estruturais. “Hoje o esporte no Estado vem crescendo muito, com muitos jogadores iniciando a carreira, porém ainda não temos muita ajuda para a realização de torneios. Muitas vezes, os próprios atletas precisam bancar as competições e se esforçar para que tudo seja feito de forma justa, amigável e bem organizada”, destacou.
Mesmo após lesões, pausas forçadas e um acidente grave, os planos seguem claros. “Meus próximos objetivos são sempre me dedicar ao máximo em quadra, treinar, treinar e treinar mais, para um dia ser reconhecido e ter uma oportunidade de jogar fora do Estado”, afirmou. O sonho final permanece o mesmo desde os primeiros passos no esporte: “Fazer parte de um time profissional de voleibol”.