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Entre a quadra e a formação humana: o projeto Apolo e Artemis em Bonito

da redação - 11 de nov de 2025 às 15:53 172 Views 0 Comentários
Entre a quadra e a formação humana: o projeto Apolo e Artemis em Bonito Da Redação

Antonio “Michel” de Oliveira, nascido em 5 de fevereiro de 1986 em Bonito (MS), coordena há mais de uma década o trabalho com as equipes Apolo e Artemis, projetos de voleibol da cidade. O início dessa trajetória está diretamente ligado à própria vivência do treinador, que, quando jovem, não encontrou na cidade as oportunidades que gostaria de ter tido no esporte.

 

“Sempre fui amante do voleibol, mas não tive oportunidades de ser atleta em Bonito quando era adolescente”, recorda. A mudança veio quando ingressou na UFMS, em Campo Grande. Lá, pôde aprender, treinar e disputar campeonatos universitários. Nesse período, participou de um projeto interno de treinamento e percebeu que ensinar poderia ser um caminho. Ao retornar para Bonito, já formado, decidiu criar aquilo que ele mesmo não teve acesso: “Resolvi dar oportunidades aos meninos da minha cidade, que eu não tive, que era aprender voleibol e competir. Depois as meninas me pediram para treinar e lá se foram 13 anos”.

 

O projeto Apolo e Artemis nasceu com um propósito claro: formar pessoas por meio do esporte. “O objetivo é disseminar e promover o voleibol como ferramenta de saúde, aprendizagem e desenvolvimento social”, explica. Segundo o técnico, o trabalho é baseado em disciplina, educação e valores que auxiliam no bem-estar integral dos participantes.

 

Treinar em uma cidade pequena implica desafios específicos. Michel menciona o número reduzido de jovens e a dificuldade em encontrar perfis físicos considerados ideais para o esporte de alto rendimento. Além disso, ainda observa resistência cultural quanto ao voleibol masculino. “Bonito sempre teve como pilar o futsal e o futebol. O preconceito sobre o voleibol masculino ainda existe.” Entretanto, afirma que avanços ocorreram ao longo dos anos: “Acredito que conseguimos ultrapassar esses limites com muito trabalho e conquistas”.

 

Sobre a formação dos atletas, Michel afirma que a sinceridade é ponto de partida. Ele diz que evita criar expectativas irreais. “Não vendo sonhos. Ser claro com as possibilidades é o melhor caminho, principalmente nessas gerações em que a saúde mental é tão frágil.” A orientação é para que os atletas busquem seu espaço, sem que isso se torne uma pressão insustentável. “Se não der certo, que eles vivam esses momentos com intensidade e felicidade.”

 

Entre os momentos mais marcantes da carreira, Michel destaca o primeiro título estadual em 2018, na categoria juvenil. Ele já havia participado de competições nacionais como o CBS e o CBI, porém atribui importância particular a essa conquista. “Esse momento me fez compreender que todo sacrifício é válido para colocar a equipe no pódio. Ali reconheci meu valor. A partir disso, entendi que ser elogiado ou referência é bom, mas saber que o trabalho é válido é a melhor coisa.”

 

A preparação emocional também é trabalhada diariamente. Para ele, experiência é essencial para lidar com a pressão. “Quando entendemos que trabalho e execução fazem o time jogar bem, o nervosismo se torna algo pequeno e até favorável ao jogo.” Conversas em grupo são frequentes, mas ele enfatiza que a vivência prática é determinante. “Jogar é essencial para criar o sentimento de pertencimento. Quando o atleta sente que ali é o seu lugar, o nervosismo vira algo saudável.”

 

Os valores transmitidos vão além da quadra. Michel incentiva que cada atleta reconheça sua própria responsabilidade diante das escolhas que faz. “Eles são protagonistas da vida deles. Tudo de bom ou ruim acontece a partir das escolhas. A competição tem que ser com eles mesmos.”

 

O treinador cita Bernardinho como referência direta, mas destaca que procura construir um caminho próprio, de acordo com a realidade da cidade.

 

Sobre o cenário estadual, vê crescimento constante: “O voleibol escolar e de clubes tem se desenvolvido muito. O Campo Grande Vôlei está na Superliga B e leva o estado às competições mais importantes da base. Já participei do CBI como técnico em algumas categorias.”

 

Em Bonito, porém, Michel reconhece que ainda há limitações estruturais. “Precisamos melhorar o apoio das instituições públicas e privadas. Ainda não temos cultura de grandes projetos.”

 

Apesar dos avanços, ele admite cansaço, mas mantém planos futuros. “O sonho maior é aumentar o projeto, criar uma associação para manter o voleibol mais atuante e poder alçar voos mais altos.”

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