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“É compromisso consigo mesmo”: Marcela Ortiz fala sobre esporte, superação e os desafios da vida adulta

da Redação - 8 de set de 2026 às 16:32 307 Views 0 Comentários
“É compromisso consigo mesmo”: Marcela Ortiz fala sobre esporte, superação e os desafios da vida adulta Da Redação

A relação de Marcela dos Santos Ortiz Leal com a natação começou ainda na primeira infância, por meio de um projeto social desenvolvido em parceria com a escola municipal onde estudava, em Campo Grande. Aos 36 anos, ela mantém a modalidade como parte da rotina, atualmente treinando pelo Sesc Camilo Boni, e também acumula mais de 15 anos de atuação como árbitra de natação. Ao longo da trajetória, ainda passou por modalidades como judô e triatlo.

 

Nascida em Campo Grande no dia 29 de dezembro de 1989, Marcela teve o primeiro contato com a natação por meio do projeto “Água Neles”, que oferecia aulas para estudantes da rede pública de ensino.

 

“Em específico sobre a natação, na primeira infância minha escola municipal tinha parceria com um projeto social chamado ‘Água Neles’, que ensinava alunos e alunas da rede a nadar. Foi por meio desse projeto que aprendi a modalidade e também comecei a treinar. Desde então, nunca mais abandonei a natação”, conta.

 

A prática esportiva, no entanto, não ficou restrita às piscinas. Marcela também experimentou outras modalidades ao longo da vida, entre elas o judô e o triatlo. Para ela, as diferentes experiências contribuíram para manter uma rotina voltada à saúde física e mental.

 

“O esporte ensina sobre disciplina, trabalho em equipe e bem-estar. As diferentes modalidades foram a maneira que encontrei de me manter saudável física e mentalmente”, afirma.

 

O triatlo, segundo Marcela, era um sonho que conseguiu realizar já na vida adulta. A modalidade, porém, também trouxe um desafio que permanece presente na rotina: conciliar os treinos com as demais responsabilidades.

 

“Triatlo era um sonho de infância, que só consegui realizar na vida adulta, e o grande desafio é conciliar treinos com as responsabilidades da vida. Mas vale a pena. Amo o cheiro de cloro, os cabelos molhados e os amigos que só o esporte é capaz de lhe ofertar”, relata.

 

Atualmente, a natação ocupa o principal espaço entre as atividades esportivas. Marcela treina pelo Sesc Camilo Boni e afirma que a modalidade passou a representar também um momento de pausa diante das exigências da rotina.

 

“A natação é também uma atividade de higiene mental. É através dela que consigo relaxar a mente e respirar um pouco além da rotina de trabalho que tenta nos sufocar às vezes”, diz, entre risos.

 

Apesar de atualmente concentrar os treinos nas piscinas, ela afirma que sua preferência está nas provas em águas abertas.

 

“Hoje treino só nas piscinas, mas minha paixão mesmo é nadar em águas abertas”, conta.

 

A rotina de Marcela inclui trabalho, casamento e a etapa final do doutorado. Para continuar treinando, ela conta com adaptações feitas em conjunto com o técnico, Dante Piazza.

 

“Organização. A natação hoje é mais do que competição para mim, é bem-estar, é respirar livremente”, explica.

 

Segundo ela, o planejamento dos treinos precisa considerar as diferentes demandas da vida adulta. “Conto com a compreensão do meu técnico Dante Piazza, que sabe que trabalho, casamento e atualmente a etapa final do meu doutorado requerem muitas adaptações de rotina, montando nossos treinos e sendo compreensível com possíveis faltas, baixa de imunidade, compromissos etc.”, afirma.

 

Com o passar dos anos, a relação com o esporte também mudou. Marcela se define como uma pessoa naturalmente competitiva e afirma que essa característica aparece em diferentes áreas da vida. Ao mesmo tempo, reconhece que as responsabilidades interferem no rendimento esportivo.

 

“Sim, muda. Eu sou uma pessoa naturalmente muito competitiva em quase todas as áreas. Acho que é herança do esporte. Tudo que me proponho a fazer, quero oferecer e ser a minha melhor versão”, relata.

 

“Com as responsabilidades da vida adulta, é necessário fazer adaptações, o que atrapalha um pouco o rendimento. Eu costumo dizer que o trabalho e o doutorado estão atrapalhando minha vida de atleta...”, brinca.

 

Para Marcela, porém, a prática esportiva passou a ter um significado que vai além dos resultados das competições.

 

“Com o tempo, a vida saudável vai além das competições, é compromisso consigo mesmo. O esporte ajudou a me salvar da depressão, não tenho como abandoná-lo”, afirma.

 

Entre as experiências que considera importantes na trajetória estão a conclusão da primeira meia maratona, em Campo Grande, em 2022, e a participação no Triatlo Olímpico de Presidente Epitácio, também em 2022.

 

As provas foram realizadas após um período difícil em sua vida. Em 2021, sua melhor amiga, a quem considera como uma irmã e que também treinava com ela, morreu aos 30 anos.

 

“Após um período difícil da minha vida, minha melhor amiga, uma irmã que treinava comigo, faleceu aos 30 anos, em 2021. Fiquei muito triste, sofri um episódio depressivo e mal conseguia viver, quem dirá treinar. Superar a tristeza e concluir essas provas foram de grande importância para mim”, relata.

 

Marcela também destaca a importância das competições de longa distância nesse processo. “Atletas de longas distâncias costumam estar superando grandes dificuldades, e isso foi real para mim”, afirma.

 

Mais recentemente, outra marca passou a fazer parte da trajetória esportiva. Nos campeonatos estaduais de natação de 2025 e 2026, ela foi campeã estadual na categoria +35, nas provas de 200 metros livre, 400 metros livre e 50 metros borboleta.

 

A experiência na categoria master também mudou a percepção de Marcela sobre a competição. Ela considera que a participação de atletas adultos deve ser valorizada independentemente dos tempos obtidos.

 

“Quando você se torna master, é comum as pessoas zombarem porque seus tempos não são tão bons ou tão perfeitos. Mas a verdade é que só o fato de se dispor a treinar e competir, mesmo com tantas demandas, já deveria fazer com que as pessoas te olhassem com mais ‘carinho’”, afirma.

 

Além da experiência como atleta, Marcela construiu uma trajetória de mais de 15 anos na arbitragem de natação. O contato com essa atividade começou quando ela ainda tinha 16 anos e, inicialmente, surgiu como uma forma de obter uma renda extra.

 

“A arbitragem foi uma oportunidade de contribuir com um esporte que tanto amo. Hoje sou formada em Educação Física também, mas o interesse foi, a princípio, para ter uma graninha extra. Eu tinha 16 anos quando comecei a ‘trabalhar’ com arbitragem”, conta.

 

A atividade acabou proporcionando experiências que ultrapassaram as piscinas. Por meio da arbitragem, Marcela conheceu outras cidades do país e teve contato com situações que até então não faziam parte de sua realidade.

 

“Foi nela e através dela que conheci outras cidades do país, andei de avião pela primeira vez. A natação é uma parte fundamental de quem sou”, afirma.

 

A experiência acumulada como árbitra também influenciou sua maneira de enxergar os competidores. Hoje, atuando simultaneamente como atleta e árbitra, Marcela afirma que passou a olhar de outra forma para quem se dispõe a treinar e competir.

 

“Aprendi, sendo árbitra e atleta, a ser mais generosa com as pessoas que estão competindo, que estão se propondo a treinar, a entregar tempo nas piscinas, independentemente da idade”, explica.

 

Ao longo de mais de uma década acompanhando competições, ela também viu atletas crescerem dentro da modalidade e permanecerem no esporte mesmo diante das mudanças da vida.

 

“Ao longo da minha trajetória como árbitra, vi crianças que se tornaram adolescentes e adultos, que permaneceram na natação depois do primeiro emprego, do vestibular, da faculdade. É maravilhoso”, afirma.

 

Para Marcela, a natação também pode representar uma oportunidade de inclusão. Ela defende que a modalidade seja cada vez mais acessível.

 

“Gosto de a natação se tornar um espaço mais democrático, pois sabemos que ainda é elitista. Não é todo mundo que tem acesso a uma piscina para aprender e treinar”, observa.

 

A relação com atletas de diferentes gerações também rende situações bem-humoradas. “Às vezes dói um pouco ver marmanjos de 20 anos me chamando de tia... (risos), mas faz parte do esporte”, brinca.

 

Hoje, viver a natação sob diferentes perspectivas é algo que Marcela considera uma posição privilegiada.

 

“É um lugar privilegiado. A natação é vida e, independentemente do lado, minha escolha é sempre mostrar que esse esporte é para todos e que pode ser fôlego para viver sempre”, afirma.

 

Mesmo com uma rotina dividida entre trabalho, casamento, doutorado, arbitragem e treinos, Marcela pretende continuar ligada ao esporte. Ela afirma que a prática de diferentes modalidades continua fazendo parte de sua vida.

 

“Não existo sem esportes, então estou sempre fazendo alguma coisa, me arriscando em alguma modalidade nova. Quando fico com saudades dos treinos de judô, por exemplo, encaixo na rotina quando posso”, conta.

 

A atleta também mantém o interesse pela corrida e pela natação. “Gosto da sensação de correr, gosto de nadar semanalmente e, se pudesse, faria isso todos os dias”, afirma.

 

Para os próximos anos, o objetivo é continuar ativa e levar essa relação com o esporte para a família que pretende construir.

 

“Meu projeto é me manter ativa, saudável e criar meus futuros filhos dentro do esporte. Isso inclui competir quando estiver gestante também, o que faz parte dos meus planos para o ano que vem”, revela.

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