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Do quintal de casa aos títulos estaduais: a história de Rithiely

da redação - 7 de jan de 2026 às 15:24 245 Views 0 Comentários
Do quintal de casa aos títulos estaduais: a história de Rithiely Da Redação

“Mesmo sabendo que iria levar uma bronca ao chegar em casa, eu ia mesmo assim”. A frase resume a relação de Rithiely Antônio Cândido com a bola desde a infância. Nascida em 2 de setembro de 2008, em Aquidauana, ela cresceu em uma família de origem da aldeia Água Branca/Bananal, da etnia Terena, e construiu sua trajetória no futsal e no futebol de campo a partir de brincadeiras simples, em espaços improvisados, que aos poucos deram lugar a campeonatos estaduais e sonhos maiores no esporte.

 

O primeiro contato com o futebol aconteceu ainda muito cedo. Rithiely lembra que tinha cerca de três anos quando o pai a levava para assistir às partidas em que ele jogava. “Eu amava assistir, foi aí que tudo começou”, relata. Na infância, com poucas crianças por perto, o convívio com o primo que morava ao lado foi fundamental. “Com ele fui aprendendo a como jogar. Eu vivia na casa dos meus primos jogando bola com vários guris em um campinho onde o gol era feito de taquara”, conta.

 

As brincadeiras de criança já indicavam um caminho que não seguiria padrões. “Todos os dias eu voltava suja para casa e minha mãe brigava comigo, dizia para eu brincar de ‘coisas de menina’”, lembra, em tom bem-humorado. Ainda assim, a vontade de jogar falava mais alto. “Mesmo sabendo que iria levar uma bronca ao chegar em casa, eu ia mesmo assim”.

 

Desde cedo, Rithiely passou a conviver com atletas mais velhos. “Sempre joguei com pessoas adultas. Conforme fui crescendo, fui participando de torneios e campeonatos de categoria livre, e com isso fui obtendo mais experiência”, afirma. O contato com competições fora do ambiente informal ajudou a amadurecer a atleta e a perceber que o esporte poderia ir além da diversão.

 

A virada mais clara aconteceu aos 14 anos, quando conheceu a professora Paula Sims. O convite para disputar a Copa Pelézinho, em Campo Grande, foi decisivo. “Foi a partir daí que percebi que era isso que eu realmente queria”, destaca. A competição marcou o início de uma trajetória mais estruturada dentro do futsal e do futebol feminino no estado.

 

Vivendo as duas modalidades, Rithiely identifica diferenças claras entre elas. “No futsal, a quadra é menor, o jogo é mais rápido e exige mais controle de bola e raciocínio rápido. No futebol de campo, o espaço é maior, o jogo é mais lento e exige mais preparo físico e resistência”, explica. Atualmente, ela diz se identificar mais com o campo, embora mantenha a ligação com o futsal.

 

Essa escolha está relacionada também a um momento delicado da carreira. Em uma partida de futsal, Rithiely sofreu uma lesão no ligamento do joelho esquerdo, que a afastou das quadras por vários meses. “Estou voltando agora ao futsal e como goleira, descobri uma nova posição”, conta. No campo, a adaptação foi mais natural no processo de recuperação. “Estou jogando mais futebol de campo por ser mais lento, assim não tenho tanto impacto pós-lesão. Pretendo me recuperar bem e voltar a treinar futsal na linha”.

 

Mesmo jovem, Rithiely já coleciona momentos importantes. Em novembro de 2025, ela foi campeã do Festival Estadual Sub-17 defendendo o CRA. A final ficou marcada pela participação direta no resultado. “Fiz o gol de empate em 1 a 1 na final, que nos levou para os pênaltis, onde também marquei e fomos campeãs”, relembra. Outro título significativo foi a Copa Pelézinho Sub-15. “Foi meu primeiro campeonato em nível estadual. Eu estava muito feliz e era a capitã do time”.

 

A rotina atual exige disciplina para conciliar diferentes compromissos. Rithiely estuda das 7h às 15h30 e, após as aulas, divide o tempo entre academia e fisioterapia por conta da lesão. Os treinos de futsal acontecem três vezes por semana, no período noturno, com a professora Paula. “Nos dias em que não tenho treino, vou à igreja”, relata.

 

Dentro de campo, ela se inspira em um dos maiores nomes do futebol mundial. “Me inspiro muito no Messi, pela forma como ele joga e pela visão de jogo. Sempre tive essas mesmas características”, afirma.

 

Ao falar sobre o cenário esportivo em Mato Grosso do Sul, Rithiely aponta obstáculos recorrentes. “As principais dificuldades são a falta de apoio e investimento, poucas oportunidades de campeonatos e visibilidade, além da distância dos grandes centros, o que dificulta testes e competições”, avalia. Para ela, o preconceito em relação ao esporte feminino ainda pesa. “Isso torna o caminho ainda mais difícil”.

 

A desigualdade também aparece nas premiações. “Estamos acostumadas a participar de campeonatos em que a premiação do masculino é muito superior à do feminino, e isso precisa mudar”, afirma. Na avaliação da atleta, são necessárias ações estruturais. “É preciso mais investimento, apoio do poder público, mais campeonatos, incentivo nas escolas e maior divulgação do futsal e do futebol feminino. Também é importante valorizar mais as atletas e criar projetos de base”.

 

O olhar para o futuro mistura prudência e ambição. “A curto prazo, quero evoluir tecnicamente, ganhar experiência em competições e continuar conciliando os estudos com o esporte”, diz. Em um horizonte mais distante, o objetivo é claro. “Sonho em me profissionalizar, conquistar títulos e representar bem minha equipe e meu Estado”.

 

Para outras meninas que estão começando, Rithiely deixa um recado direto, construído a partir da própria vivência. “Por mais que pareça difícil, continuem. Sempre haverá meninas que se inspiram em você”, afirma. E completa: “Mesmo com dificuldades, preconceito ou falta de apoio, acreditem em vocês, treinem com dedicação e persistência. O esporte feminino merece espaço, e cada menina que insiste ajuda a abrir caminho para outras”.

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