Da Redação
“Com toda certeza o maior desafio foi ‘deixar’ os hábitos da fase de jogadora amadora e entrar no sistema proposto pelo técnico.” A fala de Aline Rodrigues Berquo sintetiza o momento de virada vivido por ela nos últimos meses. Aos 25 anos, a atleta nascida em Costa Rica (MS) vive atualmente sua primeira temporada como jogadora profissional de futsal, depois de uma década de dedicação ao esporte de maneira amadora.
A história de Aline com o futsal começou cedo. “Desde nova sempre fui apaixonada pelo esporte, brincava na rua com os meninos da minha vizinhança”, lembra. Em 2012, ela teve a primeira oportunidade de treinar em um projeto esportivo na cidade. “Surgiu um projeto em uma praça com o treinador Max e também num campo de futebol com o treinador Cesarino, e meus pais me incentivaram a iniciar. Eu tinha 12 anos de idade.”
Ainda nessa fase, Aline começou a disputar competições escolares e rapidamente se destacou. Entre 2012 e 2014, foi campeã dos Jogos Escolares de Mato Grosso do Sul sob a orientação dos professores Alaercio Guimarães e Sara Cristina. A atleta também acumulou títulos importantes no cenário estadual com o técnico Alex Oliveira. “Fui campeã das duas grandes competições do MS, sendo a Copa Morena e a Copa Rotary de futsal. Pessoas que sempre incentivaram e viam potencial para eu seguir carreira.”
Apesar das conquistas, a profissionalização no futsal demorou a acontecer. Aline seguiu jogando por equipes da região de forma amadora, conciliando com outras prioridades de vida. Isso só mudou em 2020, quando recebeu um convite que marcaria uma nova etapa na sua carreira. “Fui convidada pela Kenia Leite para compor a equipe do Resenhas de Goiás, onde fiquei por três anos. Tive com eles a oportunidade de jogar minha primeira competição de alto nível, sendo a Taça Brasil de Futsal e a Copa do Brasil.”
Essa experiência a colocou frente a frente com atletas que antes eram apenas referência. “Foi uma experiência incrível, onde vi e joguei contra inspirações que eu tinha como Amandinha, Vanessa e Luana Moura.” Além dos grandes nomes nacionais, Aline também teve referências locais importantes, como as atletas Lorena Peres e Lorraine Caixeta, que jogavam com ela na equipe goiana e já atuavam em nível profissional.
A transição para o profissionalismo, no entanto, envolveu abrir mão de muita coisa. “Acredito que os maiores desafios para quem decide viver do esporte é a distância que ficamos da família e amigos, perder os momentos divertidos, datas comemorativas, não ver as sobrinhas crescerem. Porém, para realizarmos nossos sonhos precisamos abrir mão de algumas coisas.”
Após o período em Goiás, Aline decidiu buscar novos horizontes e migrou para o futsal do Paraná, um dos estados mais tradicionais na modalidade. A escolha foi motivada pela estrutura, visibilidade e oportunidades oferecidas. “O Paraná é um local onde o futsal é bem difundido, contendo grandes equipes. Devido ao apoio que o Estado proporciona para a modalidade, acaba sendo um centro de novas oportunidades.”
A adaptação a um novo estado e a uma nova equipe não foi simples. “Sair da zona de conforto não é algo fácil. Porém, fui muito bem recebida pela equipe e direção.” Um ponto de apoio importante nessa fase foi encontrar na equipe uma conterrânea: “Conheci a Maria Luiza, goleira da equipe e que também é do MS, então tem mais uma que é da mesma cultura regional que eu.”
Entre as principais diferenças sentidas por Aline está a exigência tática e física. “As equipes aqui se estudam muito nesses detalhes, além da intensidade e a força que as atletas impõem durante as partidas. Ou seja, não basta ser boa tecnicamente se não estiver alinhado a esses outros fatores.”
Ela também destaca o contraste na estrutura oferecida pelos clubes. “A estrutura aqui está bem à frente do Estado do MS, visto a valorização, incentivo e patrocínios. Temos alojamento, acesso a restaurantes, academia, plano de saúde, espaço para treinos técnico/tático e fisioterapia, tudo com qualidade e organização.”
Essa nova realidade exigiu mudanças profundas em sua rotina e mentalidade. “Irá completar 6 meses que me tornei profissional e com toda certeza o maior desafio foi deixar os hábitos da fase de jogadora amadora e entrar no sistema proposto pelo técnico.” Hoje, mais adaptada ao estilo de jogo e à dinâmica do novo clube, ela planeja seguir evoluindo. “O planejamento é seguir evoluindo cada dia mais.”
Apesar da nova fase, Aline não esquece de suas raízes e faz um alerta sobre o cenário esportivo em Mato Grosso do Sul, especialmente no que se refere ao futsal feminino. “O incentivo e apoio para o futsal feminino na região é muito abaixo, visto quantos talentos e equipes com potencial para representar o Estado em grandes competições. Deveriam dar mais atenção e importância, já que vem recurso para isso.”