Da Redação
“Comece com medo mesmo. A coragem vem depois. Ninguém começa pronto. Mas você pode escolher não ser mais vulnerável — e isso muda tudo.” A frase resume a forma como Lucinha Jara conduz o trabalho que desenvolve em Campo Grande, unindo a experiência como investigadora da Polícia Civil ao ensino do jiu-jitsu e da defesa pessoal.
A trajetória na arte marcial começou dentro de casa. O primeiro contato com o jiu-jitsu veio por meio da filha, Giovanna Jara, que iniciou na modalidade ainda jovem e hoje atua profissionalmente, com academia em Piracicaba. O que inicialmente era acompanhamento se transformou em envolvimento direto com o esporte.
Ao longo do processo, Lucinha passou a enxergar o jiu-jitsu para além da prática esportiva. Segundo ela, a modalidade se tornou uma ferramenta voltada à sobrevivência, ao controle emocional e à preparação para situações de risco. A partir dessa compreensão, decidiu iniciar o trabalho como instrutora.
A atuação na Polícia Civil tem papel central na construção desse método. No cotidiano profissional, ela acompanha casos de violência e situações de vulnerabilidade, o que influencia diretamente a abordagem utilizada nas aulas. “No dia a dia, eu vejo a realidade sem filtro”, afirma. A experiência contribuiu para que desenvolvesse um ensino voltado a situações concretas.
Nas aulas, o conteúdo inclui reações a abordagens físicas comuns, como puxões, estrangulamentos, imobilizações e tentativas de domínio. No entanto, a instrutora destaca que a defesa pessoal começa antes do contato físico. “A defesa pessoal começa na postura, na atenção e na leitura do ambiente”, explica.
A proposta não está baseada exclusivamente na força física. Para ela, um dos principais equívocos sobre o tema é justamente associar a defesa pessoal à força. Outro erro frequente, segundo aponta, é a crença de que situações de violência não acontecerão. “Acreditar que tudo depende de força física e achar que ‘isso nunca vai acontecer comigo’ são erros comuns”, afirma.
O trabalho também busca desenvolver aspectos como controle emocional e capacidade de reação sob pressão. De acordo com Lucinha, a preparação mental é determinante para que a pessoa consiga agir diante de uma situação de risco. “Mais do que a técnica, o que faz a diferença é não travar”, diz.
O público atendido é variado. As aulas recebem desde mulheres que já passaram por situações de violência até aquelas que procuram prevenção, melhora da autoestima ou condicionamento físico. Apesar das diferentes motivações, ela observa um ponto em comum entre as alunas. “Todas chegam com algo em comum: a decisão de não serem vulneráveis.”
Além das aulas regulares, Lucinha também atua em iniciativas sociais. Uma delas é o projeto “Eu Luto Por Elas”, desenvolvido desde 2017, com aulas e palestras gratuitas voltadas ao público feminino. A ação ocorre mensalmente em diferentes regiões da cidade, com foco em prevenção e conscientização.
Outro trabalho é o Projeto Pena Branca, realizado na aldeia Água Bonita, onde crianças participam de aulas de jiu-jitsu aos sábados. Segundo a instrutora, a prática tem contribuído para mudanças de comportamento. “Os pais relatam mais disciplina, respeito e foco”, afirma.
As iniciativas contam com apoio de profissionais da segurança pública e de parceiros externos. Entre as ações realizadas estão doações de kimonos, alimentos e articulações para atendimento médico às crianças atendidas.
Lucinha também mantém uma academia no bairro Caiçara, onde ministra aulas diárias de jiu-jitsu e defesa pessoal para crianças e adultos. O espaço é conduzido em conjunto com a família, incluindo o esposo e os filhos, que também atuam como professores.
Apesar do alcance das ações, ela avalia que ainda há lacunas na área de prevenção. Para a instrutora, o investimento em políticas públicas ainda está concentrado em respostas após a violência. “A maioria das ações acontece depois que a violência já ocorreu”, afirma. Na avaliação dela, levar o ensino de defesa pessoal para escolas, comunidades e projetos sociais seria uma medida necessária.
Ao falar diretamente com quem ainda não iniciou, a orientação é objetiva. “Comece com medo mesmo. A coragem vem depois.”