Da Redação
O douradense Paulo Henrique Reis viveu em 2024 o auge de sua trajetória esportiva ao conquistar a medalha de bronze no salto em distância nos Jogos Paralímpicos de Paris. A marca de 7,20 metros garantiu o lugar entre os três melhores do mundo e representou, segundo ele, o “maior feito da vida profissional”.
Durante a prova, Paulo Henrique soube que havia alcançado o pódio, mas a confirmação do resultado veio de forma diferente. “A prova foi muito boa. Eu sabia que estava no pódio no momento em que saltei 7,20 metros, se não me engano no terceiro salto. Porém, eu não sabia quanto meus adversários tinham saltado, já que tenho baixa visão e não enxergava as informações nos telões. Então, apesar de saber que era pódio, eu só queria melhorar minha melhor marca, apesar de não ter conseguido nos saltos posteriores”, contou.
A conquista em Paris teve um significado duplo. Além da realização pessoal, o atleta vê o feito como uma mensagem de esperança para a cidade onde nasceu e iniciou a carreira. “Para mim é o maior feito da minha vida profissional e um sonho realizado. Para Dourados, é a prova de que, apesar de praticamente não haver investimento tanto público quanto privado, a nossa cidade é rica em talentos. Com o investimento certo, novos ‘Paulos’ podem surgir com mais frequência”, afirmou.
Paulo Henrique explicou que o ciclo até os Jogos foi marcado por desafios, especialmente emocionais. “Lidar com o psicológico foi o mais difícil. Era preciso manter o equilíbrio entre saber que eu poderia brigar por medalha ou até mesmo pelo ouro e entender que, sem entrega total, isso seria muito difícil. Durante os Jogos, atletas de modalidades com menos mídia vivem um pouco da ‘vida de celebridade’. Tudo e todos estão lá por e para você. Muitos se perdem nisso e esquecem o objetivo principal”, observou.
O atleta também comentou sobre o momento decisivo que garantiu o bronze. “Se for para falar de forma racional, o principal que passava era corrigir erros e focar em acertos, como a velocidade da corrida, que estava muito boa. Mas, no sentido irracional, o que eu mais sentia era uma fúria, uma vontade extrema de fazer com que tudo o que passei até ali valesse a pena, independente do resultado”, lembrou.
A medalha de Paris consolidou uma trajetória que começou com amor pelo esporte, mas sem grandes pretensões. “Sempre amei esporte em geral e sempre quis construir algo como atleta, seja em qual modalidade fosse. Mas confesso que não imaginei que alcançaria tal patamar”, disse.
Apesar do sucesso internacional, a realidade atual de Paulo Henrique é bem diferente. Após os Jogos, ele precisou voltar a Dourados e enfrenta dificuldades para manter o ritmo de treinos. “Hoje minha rotina mudou bastante. Por alguns problemas pessoais, precisei voltar a morar em Dourados, e aqui não temos praticamente nada de estrutura. Meus treinos estão sendo todos na rua, apenas para manter o condicionamento”, relatou.
Ele fez questão de mencionar as pessoas que estiveram ao seu lado durante a trajetória até o pódio. “Quem mais esteve comigo com apoio emocional foi minha mãe, Lucinda dos Reis. Também passaram pela minha vida meu primeiro treinador, Antônio Pietramale, e o técnico que me acompanhou no ciclo de Paris, Daniel Biscola, do SESI-SP.”
Entre as principais lições deixadas pelos Jogos de Paris, Paulo Henrique destacou a importância de acreditar no processo, mesmo quando os resultados demoram a aparecer. “Por vezes parecia que eu não estava no caminho certo, mas continuei durante os três anos do ciclo com o mesmo objetivo. Uma curiosidade é que eu sempre dizia que tinha potencial de saltar 7,20 metros nos Jogos — e foi exatamente essa a marca que alcancei.”
Sobre o cenário do paradesporto em Mato Grosso do Sul e no país, o atleta foi direto ao afirmar que os resultados são sustentados por políticas públicas, mas que há uma grande lacuna no apoio municipal e privado. “O paradesporto vive e rende muitos resultados fruto do investimento dos governos federal e estadual. O projeto Bolsa Atleta é o que possibilita que o paratleta chegue ao pódio. Mas o município peca muito, porque deveria fornecer o mínimo, que é estrutura. Hoje não temos nenhuma pista em boas condições e com uso aberto ao público. Eu mesmo não tenho onde fazer treinos técnicos e preciso me deslocar até a capital, a quase 300 quilômetros daqui. Outro ponto é o apoio privado, que é irrelevante. Até hoje não recebi nenhum tipo de patrocínio privado, mesmo já tendo conquistado grandes feitos”, afirmou.
Pensando no futuro, Paulo Henrique mantém o foco nas próximas competições. “A curto prazo, terei o Brasileiro de Atletismo Paralímpico em dezembro e o Sul-Americano no ano que vem, ainda sem local e data definidos. A longo prazo, o objetivo é Los Angeles 2028.”
Ao final, o atleta deixou uma mensagem aos que desejam seguir o mesmo caminho. “Que acreditem em seus sonhos, independente do tamanho. Toda conquista deve ser comemorada”, concluiu.