Da Redação
A corrida de rua deixou de ser apenas uma modalidade esportiva para se tornar parte do tratamento e do estilo de vida da professora e diretora de Esporte e Lazer da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Edineia Aparecida Gomes Ribeiro. Corredora de rua e de montanha, ela afirma que o esporte passou a representar autonomia e qualidade de vida após o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e fibromialgia.
"A corrida me ensinou que saúde não é ausência de desafios. Saúde é aprender a viver com eles. Hoje eu não treino para provar que sou mais forte do que os meus diagnósticos. Eu treino para conhecer melhor o meu corpo, compreender a minha mente e construir autonomia para viver a vida que desejo. Foi isso que a corrida me deu: não apenas medalhas, mas liberdade", resume.
Natural de São Jerônimo da Serra (PR), Edineia nasceu em 23 de outubro de 1978. Formada em Educação Física, ela conta que o movimento sempre fez parte de sua vida. Ainda na adolescência praticava diferentes modalidades esportivas e decidiu seguir carreira na área por acreditar no exercício físico como instrumento de promoção da saúde.
"Primeiramente, sempre acreditei no exercício físico como ferramenta de promoção da saúde. Hoje, além da teoria, vivo essa experiência como atleta e como pessoa neurodivergente que utiliza o movimento como parte do seu cuidado em saúde", afirma.
A corrida também esteve presente ao longo de sua trajetória, mas ganhou um novo significado em 2024, durante uma viagem ao Peru. Segundo ela, a experiência de subir a montanha de Machu Picchu marcou uma mudança na forma de enxergar o esporte.
"Cheguei ao final daquela subida completamente exausta e tive uma verdadeira virada de chave. Costumo dizer que senti o chamado da montanha. Naquele momento percebi que queria viver novas experiências na natureza, fazer trekking, travessias e provas de trail running. Para isso, precisava evoluir como corredora."
Ao retornar ao Brasil, ingressou em uma assessoria esportiva com o objetivo de melhorar o desempenho nas corridas. Participou de provas em Campo Grande e estreou no trail running durante uma competição em Bonito.
"Quando cruzei a linha de chegada, fiz um compromisso comigo mesma: nunca mais deixaria de correr."
Além da atuação como atleta, Edineia é professora do curso de Educação Física e diretora de Esporte e Lazer da UFMS. Ela explica que a vivência pessoal ampliou sua compreensão sobre o papel do exercício físico no cuidado à saúde.
"Sempre defendi o exercício físico como ferramenta de promoção da saúde, mas hoje essa defesa também é construída a partir da minha própria experiência."
Ela ressalta que o exercício integra um tratamento multiprofissional, acompanhado por médicos, nutricionista e psicólogo.
"Convivo com TEA, TDAH, transtorno de ansiedade generalizada e fibromialgia. O exercício físico faz parte do meu tratamento, sempre associado ao acompanhamento médico, nutricionista e psicológico."
Segundo Edineia, essa vivência também influenciou sua atuação profissional.
"Passei a compreender ainda melhor que cada pessoa possui seu próprio ritmo, suas limitações e potencialidades. O esporte não deve ser pensado apenas para quem busca desempenho, mas como uma possibilidade de promover autonomia, saúde e qualidade de vida."
Ao abordar a relação entre atividade física e neurodivergência, ela destaca que os benefícios são respaldados por estudos científicos.
"As evidências científicas mostram que a atividade física pode ser uma importante aliada no tratamento multiprofissional dessas condições."
Ela explica que, no caso do TEA, a prática pode favorecer a regulação emocional, a organização motora, a comunicação e a qualidade de vida. Para pessoas com TDAH, pode contribuir para a atenção, as funções executivas e o controle dos impulsos. Já em casos de ansiedade, auxilia na redução do estresse, na melhora do humor e da qualidade do sono.
Na experiência pessoal, o exercício também desempenha outro papel.
"O exercício representa uma estratégia diária de autorregulação. Não é uma cura e não substitui outros tratamentos, mas é um recurso que me ajuda a compreender melhor o funcionamento do meu corpo e da minha mente."
Ao falar sobre a prescrição de exercícios para pessoas neurodivergentes, ela afirma que não existem protocolos únicos.
"Cada pessoa neurodivergente apresenta características próprias. É necessário considerar suas necessidades, preferências, sensibilidade aos estímulos, medicamentos, objetivos e condições clínicas."
Ela também acredita que a escolha da modalidade deve respeitar a individualidade.
"Nem todos irão gostar de correr, e isso é absolutamente natural. O importante é descobrir uma prática que possa ser mantida ao longo do tempo."
Para Edineia, a corrida proporciona benefícios que vão além das adaptações fisiológicas.
"A corrida de rua desenvolve disciplina, constância e organização. Já a corrida de montanha exige tomada de decisão, atenção ao ambiente, adaptação constante, planejamento e respeito aos limites."
Ela afirma que essas habilidades também se refletem na vida cotidiana.
"Como pessoa neurodivergente, percebo que essas habilidades fortalecem minha autonomia, minha capacidade de autorregulação e meu autoconhecimento."
Conciliar os treinamentos com a rotina profissional exige planejamento. Além das atividades como docente, ela participa da gestão do esporte universitário e da organização de projetos e eventos.
"Aprendi que nem sempre será possível fazer o treino perfeito. O mais importante é manter a constância e respeitar os momentos em que meu corpo precisa de recuperação."
Entre as experiências que marcaram sua trajetória, Edineia cita a participação na centésima edição da Corrida Internacional de São Silvestre, realizada durante um período em que recebeu os diagnósticos de TEA e TDAH, além de enfrentar um quadro de burnout atípico.
"Participar daquela prova foi muito mais do que realizar um sonho esportivo. Foi a demonstração de que, mesmo em um momento de profunda transformação, eu era capaz de seguir em frente."
Outra lembrança está relacionada à Trail Run da Serra da Bodoquena. Em 2025, ela disputou a prova durante uma crise de fibromialgia, agravada pela fumaça das queimadas.
"Hoje retorno para essa mesma montanha com outro olhar. Não para apagar aquela experiência, mas para reencontrá-la com coragem, aceitação e respeito. Hoje treino para conhecer melhor o funcionamento do meu corpo e da minha mente, acolhendo meus limites sem deixar de buscar evolução."
Sobre o crescimento da corrida em Campo Grande, Edineia avalia que o esporte vem ampliando seu alcance.
"A corrida deixou de ser um esporte restrito a atletas experientes e passou a atrair pessoas que buscam saúde, convivência e qualidade de vida."
Ela, no entanto, defende maior atenção às pessoas neurodivergentes nas competições.
"Como neurodivergente, sinto falta dessa categoria no ato da inscrição. Os estímulos que uma pessoa neurodivergente recebe e percebe são diferentes dos de uma pessoa neurotípica. Na prova competimos igualmente, porém com desigualdades em muitos aspectos."
Para quem pretende iniciar na modalidade, a recomendação é respeitar o próprio processo.
"Meu principal conselho é não comparar sua trajetória com a de ninguém. Mais importante do que correr rápido é construir uma rotina prazerosa e sustentável. O esporte precisa fazer sentido para a sua vida. O esporte é para todos."
Entre os próximos objetivos, Edineia pretende melhorar seu tempo nos 10 quilômetros da prova 21K e seguir o planejamento para disputar provas de montanha, incluindo a Serra da Bodoquena, o Ultra Desafio Trail, em Passa Quatro (MG), e a KTR Campos do Jordão. O principal objetivo é chegar à La Misión Brasil, considerada uma das provas de maior desafio do trail running nacional.
Paralelamente à carreira esportiva, ela afirma que pretende continuar desenvolvendo projetos na UFMS voltados à ampliação do acesso ao esporte e à atividade física, reforçando a ideia de que o movimento pode fazer parte da promoção da saúde em diferentes contextos.