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Da pausa ao topo: o recomeço que moldou um campeão brasileiro

da redação - 19 de mar de 2026 às 16:55 43 Views 0 Comentários
Da pausa ao topo: o recomeço que moldou um campeão brasileiro Da Redação

“Não façam como eu fiz, não desistam”. O conselho direto resume parte da trajetória de Fernando Gonçalves dos Santos, atleta sul-mato-grossense de jiu-jitsu que alcançou o título de campeão brasileiro após anos de tentativas e recomeços dentro do esporte.

 

Nascido em 23 de junho de 1992, Fernando teve o primeiro contato com o jiu-jitsu ainda jovem, em 2005. A permanência inicial foi curta. “Na verdade, comecei no esporte em 2005, fiquei durante seis meses e depois parei. Meus amigos continuaram e viraram todos faixa preta, menos eu. Isso me motivou a voltar e tentar recuperar o tempo perdido”, relatou.

 

O retorno marcou o início de uma relação diferente com a modalidade, agora com foco na constância. Segundo ele, as competições passaram a ser uma ferramenta de disciplina. “Foi uma forma que encontrei para me cobrar de estar sempre treinando e não desistir novamente. Além disso, gosto da adrenalina das competições. O jiu-jitsu competitivo exige muita constância de treino, e foi o jeito que encontrei de estar sempre em evolução.”

 

A insistência trouxe resultados, mas também frustrações. Antes de conquistar o Campeonato Brasileiro, Fernando acumulou tentativas sem sucesso no principal torneio nacional da modalidade. “Foi um sonho realizado. Era uma competição em que eu vinha batendo na trave durante quatro anos seguidos. Apesar de ganhar praticamente todos os outros campeonatos que lutei, o Brasileiro é a cereja do bolo. É um dos campeonatos mais difíceis do mundo, devido à quantidade de atletas de alto nível. A conquista foi a consolidação do trabalho”, afirmou.

 

Além do título nacional, o atleta soma duas medalhas de prata no Campeonato Sul-Americano. Em ambas as ocasiões, as decisões foram marcadas por detalhes. “Faltaram detalhes. Na final do meu peso, eu estava ganhando a luta por pontos, mas, faltando um minuto para acabar, cometi um erro e fui desclassificado. Perdi o ouro por falta de atenção aos detalhes. Era uma luta controlada, que tinha tudo para dar certo, até dar tudo errado”, disse.

 

Na disputa do absoluto, enfrentou um adversário mais pesado. “Acabei perdendo por pontos. Era um adversário acima de 110 quilos, mas foi uma guerra. Ele passou minha guarda no fim da luta e ganhou por pontos merecidamente.”

 

Para Fernando, a rotina fora das competições é um dos principais desafios. Sem viver exclusivamente do esporte, ele divide o tempo entre treinos, trabalho e família. “O grande desafio é manter a constância de treinos diários, conciliar com trabalho, família, filhos, estudo e competições. Para quem não vive do jiu-jitsu, é muito difícil se manter motivado e estar sempre competindo. Não é um esporte barato, exige gasto com viagens, hotéis. A gente acaba deixando de trabalhar durante as competições para treinar mais”, explicou.

 

Mesmo diante das dificuldades, ele afirma que a superação cotidiana reforça a motivação. “Quando todas essas dificuldades são vencidas, eu fico ainda mais motivado a trabalhar mais para estar sempre entre os melhores.”

 

A preparação envolve uma rotina intensa, com até três treinos por dia. “Normalmente faço de dois a três treinos no dia, conciliando o jiu-jitsu com musculação e preparação física. Trinta dias antes das competições mais importantes, aumento a intensidade dos treinos para chegar mais forte fisicamente”, contou.

 

O suporte fora do tatame também é apontado como fundamental. “Meu principal apoio mental vem da minha esposa e dos meus filhos, que estão sempre comigo nas competições, torcendo pelas minhas vitórias.”

 

Entre as referências no esporte, Fernando cita o nome de Roberto Cyborg. “Hoje minha referência é o mestre Roberto Cyborg, em quem me espelho pela perseverança de estar sempre competindo, independentemente de qualquer adversidade. Além da qualidade do jiu-jitsu, a didática nas aulas. É um exemplo de resiliência e atitude.”

 

Os aprendizados adquiridos nos treinos também são levados para a vida pessoal. “O jiu-jitsu me ensina a trabalhar sob pressão. Me tornou uma pessoa mais calma para avaliar situações adversas. Durante os treinos, às vezes você se coloca em situações difíceis, e se desesperar piora ainda mais. Isso acontece na vida fora do tatame também. Quando você aprende a não perder a calma nas lutas, acaba transferindo isso para a vida real.”

 

Ao falar sobre representar Mato Grosso do Sul, o atleta adota um tom cauteloso. “Sou bem tranquilo quanto a isso. Acho que seria muita vaidade dizer que represento o estado. Existem vários outros grandes atletas aqui, com mais conquistas. O que eu tento fazer é ser disciplinado e educado, evitar dar maus exemplos nas competições, porque levo o nome de uma equipe quando saio para competir.”

 

Com novos objetivos no horizonte, Fernando projeta ampliar sua participação em competições internacionais. “Tem lenha para queimar ainda. Lutar o Europeu e o Mundial são os próximos objetivos. Já estou trabalhando com o visto para, em um futuro próximo, poder estar nessas competições.”

 

Ao olhar para quem está começando, ele reforça o aprendizado que marcou sua própria trajetória. “Se você tem um sonho, quanto mais cedo começar a trabalhar para realizá-lo, maior será a chance de obter sucesso. O jiu-jitsu é o esporte mais transformador de pessoas com o qual já tive contato. Mantenham a constância, mesmo nos momentos adversos. O trabalho duro é sempre recompensado.”

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