Da Redação
Em Campo Grande, a capoeira vai além dos movimentos acrobáticos e da musicalidade. Para o professor Murilo Gadelha Puorro, nascido em 2 de março de 1989 na capital sul-mato-grossense, a prática se tornou uma forma de educação cultural e social. “Comecei a treinar capoeira de final de 99 para 2000 quando vi uma apresentação na escola e achei incrível os movimentos que os capoeiristas executaram. Foi em 2012 que me formei como professor de capoeira, motivado por repassar e incentivar o contexto cultural também dentro da prática de luta”, contou Murilo, que hoje lidera o Coletivo Capoeira do Mato, grupo que busca unir capoeiristas de diferentes vertentes e ampliar a representatividade da arte no estado.
O Coletivo Capoeira do Mato surgiu da necessidade de criar um espaço de união entre praticantes, mas também de discutir temas que, muitas vezes, escolas e grupos evitam. “O Coletivo do Mato vem na necessidade da união de capoeiristas não somente da mesma vertente de capoeira, trazendo um movimento mais unificado e também com a necessidade de representatividade em discursos que grupos e escolas acabam se abstendo em abordar”, explica o professor. Essa missão se reflete tanto nas rodas de capoeira quanto nos projetos sociais desenvolvidos pelo coletivo, que são gratuitos ou demandam um investimento simbólico dos participantes.
Segundo Murilo, a capoeira transmite valores que vão muito além da luta ou da musicalidade. “Buscamos sempre a ideia de aquilombar, trazer um ambiente seguro”, afirma. A prática contribui para a formação cidadã de crianças e jovens, promovendo inclusão, valorização das diferenças e fortalecimento cultural. “Acredito que cada vez mais o papel cultural vem com um serviço social, distanciando do preconceito e valorizando as diferenças, trazendo todo o contexto de atividade física e mental que o esporte traz”, complementa.
Mesmo sem apoio financeiro de instituições ou empresas, o Coletivo mantém seu trabalho com recursos próprios e a colaboração dos participantes. Segundo Murilo, essa estrutura tem permitido a realização de aulas e vivências culturais que ampliam o contato com mestres de diferentes regiões do Brasil e do mundo. “O que temos observado é a amplitude cultural que a prática proporciona e o contato com mestres de dentro e fora do Brasil, trazendo uma pluralidade cultural”, destaca.
O professor também reflete sobre o significado de difundir uma arte reconhecida como patrimônio cultural brasileiro. “Representa como mais um título que devemos reconhecer dentro e fora da roda, que a prática que fazemos tem seu valor e o sentimento de pertencimento, nos ajudando a abrir horizontes e buscar profissionalizar”, comenta Murilo.
Apesar dos avanços, o coletivo enfrenta desafios relacionados ao preconceito e à valorização do trabalho cultural. “Ainda o grande desafio é ser associado com a cultura de matriz africana, o preconceito de entidades locais em permitir um projeto ser bem executado e a valorização do profissional”, afirma o professor.
A troca de experiências com outros grupos e a participação em rodas, encontros e festivais fora do estado também são essenciais para o desenvolvimento cultural do coletivo. “Sim, com certeza, e somos o resultado disso. Hoje temos grupos de estudos de Maculelê e samba rural inspirados em referências históricas fora de nosso estado, trazendo um novo horizonte e conceito cultural para a cidade”, explica Murilo.
Para a população, o Coletivo Capoeira do Mato oferece oportunidades de participação e aprendizado. Murilo destaca a importância da presença nas ações culturais e da comunicação digital do grupo. “Temos um trabalho bem forte nas ações culturais da cidade, sempre levando a representatividade nos eventos e mostrando a força cultural que a capoeira tem. Além disso, trabalhamos bem nossa mídia mostrando o bom posicionamento digital”, afirma.
O professor também compartilha a visão de futuro para a capoeira em Mato Grosso do Sul. Ele acredita que a prática deve ser acessível a todos e realizada de maneira pública, democrática e inclusiva. “Na capoeira existe um termo chamado vadiar, que é a forma de lutar brincando, se divertindo, valorizando os aspectos de qualidade de movimento e também a integridade do seu oponente, mantendo a elegância na efetividade do movimento sem perder a objetividade. E capoeira sempre em locais públicos abertos, sem discriminação”, conclui Murilo.