Da Redação
“Eu comecei a treinar boxe por causa de uma depressão suicida que tinha. Cheguei a pesar 120 kg na época da depressão. Hoje digo que estou curada. Graças a minha fé em Deus e ao boxe.” É assim que Mônica Damazio da Conceição, nascida em 24 de fevereiro de 1984 em Campo Grande (MS), resume o início da sua trajetória no esporte que se tornaria não apenas profissão, mas também caminho de superação pessoal.
Aos 41 anos, Mônica acumula mais de 20 vitórias no boxe olímpico, duas medalhas em campeonatos brasileiros e duas conquistas internacionais. Mas, para além dos títulos, a atleta carrega consigo uma história marcada por desafios, preconceitos e persistência.
Ela lembra que a saúde mental foi determinante em sua entrada no esporte. “Não foi fácil, mas consegui me curar dessa doença tão difícil e perigosa. Saúde mental não é brincadeira e muito menos frescura como muitos pensam e falam. Só quem tem sabe como é difícil. Mas o esporte é um grande aliado contra ela. Eu sou prova disso”, afirma.
Se superar pessoalmente foi um processo árduo, enfrentar o preconceito dentro do esporte também fez parte da caminhada. “Não foi e até hoje não é fácil. Existe muito preconceito ainda. Muitos não torcem por você simplesmente porque uma mulher não pode ser e aparecer mais que um atleta homem”, relata.
Para ela, o boxe feminino ainda carece de valorização e reconhecimento. “Quando uma mulher começa a ter destaque, muitos falam que está se achando, que não vão postar para não dar ibope. A atitude de muitos é lamentável e imatura”, comenta.
Apesar das barreiras, Mônica encontra apoio em amigos e colegas de luva espalhados pelo Brasil. “Aqui em Mato Grosso do Sul são poucos que ajudam. Quem mais me ajuda são os amigos de outros estados e alguns alunos da minha equipe”, diz. Ela faz questão de citar nomes que colaboraram em sua caminhada: “Tenho gratidão ao Marcelo Nunes na época em que ainda competia no olímpico. Sou grata ao vereador Junior Coringa pelo uniforme do Brasileiro 2024. E um amigo que me ajuda sempre é o atleta Murilo, um abençoado por Deus.”
Entre as medalhas conquistadas, Mônica guarda um significado especial para a do Campeonato Brasileiro de 2022. “Foi o meu primeiro brasileiro. Tinha acabado de perder meu irmão caçula em um acidente de moto trágico. Veio a óbito na hora. Tive que ser a forte da família pela minha mãe, que sofreu muito com a perda. Nessa época estava em processo de cura da depressão. Mas Deus me sustentou com a força que precisava”, recorda.
Conciliar trabalho, treino e vida pessoal foi outro desafio. “Trabalhava em dois empregos na época, um à noite e outro durante o dia. Saía do trabalho noturno e ia direto para meu treino, fazia duas horas de treino, depois ia descansar um pouco, fazer almoço para meus filhos e entrar no próximo trabalho. Mesmo assim fui representar meu estado e fui medalhista”, relembra.
A conquista, porém, foi marcada também por episódios de machismo. “Passei por preconceito de uma pessoa que estava lá da minha própria equipe da seleção do estado. O atleta precisa de pessoas que torçam por ele, não de quem idolatra outros que não são do estado dele. Falar para o atleta que o adversário é muito melhor e que ele não tem chance não é humano. Nenhum atleta merece escutar isso”, lamenta.
A rotina de preparação para lutas profissionais envolve esforço físico e mental. “Minha preparação é com muito treino e sempre cuidando da alimentação. Na minha primeira luta profissional tive que eliminar 12 kg em 15 dias. Foi uma luta de última hora que apareceu. Na segunda luta eliminei 10 kg em 30 dias, foi mais tranquilo”, relata. Para o lado mental, ela conta com a música como aliada.
Se privar de prazeres simples, como a comida, ainda é um dos pontos mais difíceis. “Amo comer. Diminuir a alimentação sempre é o mais difícil. Disciplina é você entender que não pode, e pronto.”
Além de atleta, Mônica também é treinadora de boxe e hoje ocupa a posição de técnica feminina da seleção de Mato Grosso do Sul, ao lado do técnico principal, professor Paulo Lima. “Não é fácil, mas faço com amor”, resume.
O orgulho em ver alunos evoluírem é uma das recompensas. “Já tive dois atletas no ringue, Leonardo e Lucca, da equipe CT Arena Fight. Foi lindo de ver a evolução. Seis meses de treino e já conseguiram fazer um lindo trabalho”, conta. Atualmente, ela dá aulas na CT Bleck e busca focar mais em sua carreira profissional como lutadora.
Para Mônica, dar mais espaço ao boxe feminino passa pela divulgação das histórias das atletas. “Divulgar mais o esporte, principalmente o feminino. Contar a história dessas guerreiras de luva. Eu tenho 41 anos e ainda estou lutando. Sou um exemplo para muitos. Sou mãe de três filhos, tenho minha família e continuo aqui”, afirma.
Sobre os próximos passos, ela mantém os pés firmes em dois caminhos: “Como atleta, meu objetivo é conseguir parcerias para continuar com as minhas lutas e conseguir treinar sem me preocupar. Como treinadora, meus planos são continuar dando aulas.”
Ao final, Mônica deixa um recado para as mulheres que sonham com o boxe profissional. “Não é fácil, mas faça valer a pena cada treino, cada sacrifício. Faça por você, sempre por você. Não deixe ninguém dizer que não é capaz, porque você é.”
E faz questão de reconhecer quem esteve ao seu lado: “Gostaria de agradecer ao meu treinador Márianderson Romero, o cubano. Meu professor sempre acreditou e me apoiou em tudo. Ele sempre falou para mim que o que importa é o crescimento do atleta. Sou muito grata ao meu treinador por tudo. Tudo que sou hoje, ele me ensinou. Obrigada, professor cubano. Gratidão sempre.”