Da Redação
Em 2023, a vida de Willian Eugênio do Nascimento mudou radicalmente. Bombeiro militar na época, ele sofreu um acidente quando um ônibus tombou e perdeu a mão esquerda. Desde então, precisou reaprender a rotina e também o esporte que pratica desde 2018: o crossfit.
Natural de Cuiabá, nascido em 28 de maio de 1998, Willian cresceu em Coxim, onde vive até hoje. O contato com o crossfit surgiu por influência da família. “Meus pais praticavam crossfit e me convidaram para conhecer no ano de 2018. Fui fazer aula experimental e vi que era isso que eu gostava. Na época queria ser forte, ágil, ter boa coordenação motora por ser militar. Minha meta era ter um corpo funcional e encontrei uma forma praticando cross”, recorda.
Com a rotina militar e os treinos frequentes, Willian desenvolveu as habilidades necessárias para os movimentos do esporte. Mas após o acidente, o cenário mudou. Ele já dominava técnicas e padrões, mas precisou recomeçar. “Eu aprendi a maioria dos movimentos enquanto ainda tinha as duas mãos, mas o que mais foi difícil depois de perder a mão em 2023 foi o mental. Saber tudo, fazer muito bem tudo e do nada não saber mais nada. Ter que reaprender do básico e mudar sem ter ideia de como fazer acontecer”, resume.
Ao contrário de muitos atletas que utilizam próteses ou equipamentos profissionais, Willian optou por improvisar. O custo elevado das próteses e a pouca utilidade para o tipo de treino que realiza o levaram a criar soluções próprias. “Eu fiz pesquisas de preço para próteses, mas elas ajudariam muito pouco nos treinos. Então todos os equipamentos eu improvisei com o que tinha. São fitas de nylon, rolo de papel e joelheira para proteger. É só”, explica.
As adaptações, porém, não diminuíram a intensidade da prática. O atleta garante que encara cada treino como uma oportunidade de evoluir. “Eu acredito ser muito teimoso. Se eu vejo algo que provavelmente vai ser muito difícil, eu não consigo parar de tentar. Atualmente consigo fazer quase todos os movimentos do crossfit, então é só me esforçar em todos os treinos e conseguir melhorar minha performance.”
A dedicação não reflete apenas nas competições ou treinos. Para Willian, a prática do crossfit tem efeito direto no cotidiano. “Ser capaz de andar de cabeça para baixo, de jogar vários pesos pra cima, faz com que eu me sinta capaz de enfrentar outros desafios do dia a dia. Se eu consigo treinar dessa forma, eu consigo amarrar o cabelo da minha filha também, consigo lavar louça e cozinha, por exemplo.”
O impacto psicológico também foi profundo, especialmente diante da necessidade de reaprender após o acidente. A superação das dificuldades cotidianas trouxe um novo olhar sobre as limitações físicas. “Para quem tem algum tipo de deficiência, é preciso entender que isso não é uma limitação, mas só uma dificuldade. Vai tornar tudo mais difícil, mas nada é impossível”, afirma.
Willian observa que o esporte adaptado ainda carece de maior visibilidade. “Com certeza, acho que tem muita coisa que precisa mudar, mas leva tempo. Acredito que tem que mudar o jeito que os atletas adaptados se veem e como os outros os enxergam. Somos atletas, treinamos e damos o máximo”, defende.
Para ele, é comum que a presença de pessoas com deficiência seja celebrada de forma superficial, mas sem a valorização devida nas competições. “É lindo ver alguém com dificuldade se esforçando, e isso motiva qualquer um. Mas quando estão competindo, não estão lá só pra motivar, estão lá pra dar o seu melhor, mostrar o seu melhor. E todos compartilham postagem como ‘crossfit é pra todos, que lindo ver alguém se esforçando’. Mas quando tem uma categoria adaptado competindo, a maioria não fica pra assistir e apoiar.”
Segundo Willian, essa mudança também depende dos próprios atletas. “Cabe aos atletas adaptados se esforçarem pra entregarem uma competição com boa performance e boa de se assistir.”
Mesmo diante das dificuldades, Willian acumula conquistas que considera marcantes. Entre elas, destaca o movimento legless, considerado um dos mais exigentes do crossfit por exigir que o atleta suba a corda apenas com as mãos. “Pra mim, o único movimento que achei que talvez seria impossível, o legless, tentei várias adaptações. E na última competição consegui fazer várias repetições.”
A experiência reforça a visão de que o esporte pode transformar vidas. É o conselho que ele transmite a quem enfrenta dificuldades. “O esporte salva vidas, muda nossa mente e nos faz sentir realizado. De início, principalmente pra quem não tem uma vida ativa, é extremamente difícil, mas vai valer a pena.”