Da Redação
Aos 27 anos, o campo-grandense Gustavo Henrique de Mello Silva carrega uma história marcada por disciplina, superação e propósito. Nascido em 15 de outubro de 1998, ele iniciou no muay thai ainda adolescente, buscando uma forma de mudar o próprio corpo e a própria vida. “Comecei a praticar muay thai por incentivo da minha mãe. Eu fui uma criança obesa, com 12 anos cheguei a pesar 80 kg. Busquei na luta uma forma de emagrecer e ter saúde”, relembra.
O esporte, que começou como uma ferramenta de transformação pessoal, rapidamente se tornou parte essencial da rotina. Mesmo assim, o início nas competições não foi fácil. “Demorei bastante para começar a competir. Só depois de alguns anos treinando comecei a lutar, e no início, por nervosismo, cheguei a perder seis vezes seguidas”, conta. Longe de desanimar, Gustavo afirma que as derrotas foram combustíveis para seguir em frente: “A cada derrota que sofria eu me sentia mais motivado para tentar me superar e superar meus adversários”.
Entre 2016 e 2018, Gustavo foi vice-campeão brasileiro de muay thai por três anos consecutivos, até finalmente conquistar o título nacional em 2019. Segundo ele, o que mudou foi a maneira de lidar com a pressão. “Nas finais, o nervosismo e a ansiedade sempre me atrapalhavam. Mas eu me lembrava de como foi o meu início na luta, e isso me fazia persistir. Em 2019, consegui.”
No kickboxing, sua jornada também foi marcada por aprendizado. Apesar de ter alcançado boas vitórias, ele conta que o título nacional escapou por pouco. “No K1 eu infelizmente não consegui ser campeão. Tive duas vitórias, mas na semifinal fui derrotado e acabei levando o bronze. Mesmo assim, só por chegar lá e poder lutar em alto nível já me senti realizado.”
A carreira de atleta trouxe desafios que iam além do ringue. O controle de peso, segundo Gustavo, foi sempre um dos principais obstáculos. “Minha dificuldade sempre foi a perda de peso e a dieta. Eu sempre tive que focar o dobro, por ter mais facilidade para engordar. Já cheguei a lutar na categoria 63,5 kg, perdendo 14 kg. Foi extremamente difícil pra mim. Corria quase todos os dias e fazia dieta de domingo a domingo”, lembra.
Durante esse período, o apoio da família foi fundamental. “Meus pais sempre me apoiaram. Minha mãe ficava preocupada, mas meu pai sempre me deu forças. Ele tinha muito orgulho quando falava sobre mim com amigos e familiares, e isso me dava mais foco. O apoio da família sempre foi essencial.”
Atualmente, Gustavo não compete profissionalmente, mas segue envolvido com as artes marciais. “Hoje eu não sou mais atleta, mas ainda treino boxe com o professor Paulo, da Boxe Elite”, conta. Para ele, o verdadeiro diferencial de quem busca o alto rendimento não está apenas na técnica. “O essencial é o coração, a dedicação e o amor ao esporte. Com isso, qualquer atleta consegue ir longe. A vida é uma luta constante, não só dentro do ringue, e poder se testar e superar os limites traz motivação para todas as áreas da vida.”
Com experiência em duas modalidades, Gustavo explica as diferenças que sentia entre o muay thai e o kickboxing. “No muay thai, eu treinava bastante defesa de clinch, por não ser muito bom nessa parte, e também cotoveladas. No kickboxing, tive mais facilidade para me adaptar, porque sempre fui um lutador que andava pra frente, com bastante volume de golpes.”
Antes de cada luta, Gustavo tinha um costume simples, mas significativo: “Sempre faço uma oração pedindo para Deus me livrar de lesões e também proteger meus adversários. O importante é poder sempre fazer um grande espetáculo.”
Entre tantas lutas, uma ficou marcada na memória. “A luta contra o atleta Matheus, o ‘Cebola’. Lutamos duas vezes e sempre foi muito bom dividir o ringue com ele. Foram lutas duríssimas, onde a gente dava a alma e o sangue. Era uma ‘quebradeira legal de se ver’”, lembra, rindo.
Fora do tatame, o ex-campeão vê mudanças positivas no cenário nacional. “Hoje há mais facilidades, principalmente com as redes sociais. Os atletas podem mostrar suas lutas e habilidades para conseguir mais visibilidade e patrocínio.”
Embora tenha se afastado das competições por um tempo, Gustavo mantém vivo o espírito de atleta. “Hoje sou mais focado na minha profissão, sou técnico de enfermagem. Ainda treino boxe e tenho vontade de disputar o brasileiro de boxe quando surgir a oportunidade. Se acontecer, vou abraçar. Por enquanto, dedico minha vida à minha profissão.”
O motivo dessa pausa foi um dos momentos mais marcantes de sua vida. “Há três anos, meu pai foi diagnosticado com câncer. Tive que me abdicar do esporte para poder ajudá-lo na batalha contra a doença. Assim como ele sempre me ajudou e se dedicou a mim, quis demonstrar o mesmo por ele”, conta. A perda do pai deixou marcas profundas, mas também reforçou seus valores. “A cada treino, cada sparring, faço pela memória dele. Sei que, de onde ele estiver, vai estar orgulhoso por ver que eu jamais desisti. Ele foi meu maior exemplo de guerreiro. Acordava às cinco da manhã para trabalhar, nunca me deixou faltar nada. Sempre foi disciplinado, e com o exemplo dele aprendi a fazer o mesmo na luta e na vida.”
Hoje, Gustavo carrega o legado do pai e a essência do esporte como base para sua rotina. A frase que escolheu para definir essa trajetória resume bem o equilíbrio que busca entre o ringue e a enfermagem: “As mãos que lutam com ferocidade são as mesmas que cuidam com gentileza.”