Da Redação
“A musculação me deu propósito, disciplina”. A frase resume parte da trajetória de Marco Aurélio, treinador de musculação monocular que encontrou no esporte uma forma de reconstruir a própria vida após perder a visão do olho direito.
Hoje atuando profissionalmente na área da educação física, Marco relembra que a entrada no esporte aconteceu em um momento difícil. Segundo ele, tudo começou quando estava internado em um hospital, desempregado e enfrentando incertezas sobre o futuro.
“Eu estava em uma cama de hospital quando minha irmã chegou em mim e falou: ‘você vai fazer educação física’. Eu estava desempregado na época e numa cama de hospital, a ponto de perder meu olho direito”, contou.
Antes da perda da visão, Marco praticava esportes com frequência. Jogava futebol e participava de outras atividades físicas, mas precisou lidar com as limitações causadas pela nova condição. O processo de adaptação, segundo ele, foi um dos períodos mais difíceis.
“Eu sempre ouvi falar que o esporte mudava vidas, mas nunca achei que seria o meu caso. Após ficar cego, eu me afundei em inseguranças. Achava que não existia mais luz no fim do túnel”, afirmou.
A mudança na percepção sobre o esporte veio aos poucos. Durante a graduação em educação física, ele tentou continuar participando de modalidades coletivas, mas encontrou dificuldades por conta da noção de distância e tempo de bola.
“Eu jogava bola e praticava esportes constantemente, mas a limitação da visão me tirou tudo isso. Me lembro que fui competir em um torneio da faculdade de handebol. Meu Deus, foi um desastre. Eu perdia o tempo da bola o tempo todo, errava passes. Foi desastroso”, relembrou.
Foi nesse período que o boxe apareceu em sua vida. Mesmo sendo monocular, Marco passou a treinar a modalidade e decidiu enfrentar os próprios limites. Ele afirma que ainda pretende competir novamente.
“Mesmo tendo feito uma luta de boxe sendo monocular, tendo dificuldades com a distância, eu não acho que essa foi a maior conquista. Competirei mais vezes no boxe”, disse.
Apesar da experiência no ringue, Marco acredita que a principal vitória proporcionada pelo esporte aconteceu fora das competições.
“A maior conquista que o esporte me deu foi conquistar a segurança de acreditar em mim, de melhorar minha vida e melhorar a vida alheia com ele”, afirmou.
Ao iniciar a graduação em educação física, ele conta que não pensava em desistir. Segundo Marco, naquele momento seguir em frente era a única alternativa possível.
“Quando iniciei na educação física eu não tinha opções. Eu nem pensava, só fazia. Estudava horas e horas e hoje me considero um profissional de ponta. Às vezes, o fundo do poço mostra que nós podemos bem mais do que imaginamos”, relatou.
A rotina durante o início da carreira foi marcada por longas jornadas de trabalho. Marco lembra que começou recebendo R$ 200 como estagiário e conciliava diferentes funções dentro da academia.
“A musculação me deu propósito e disciplina. Iniciei ganhando R$ 200 como estagiário. Por um período, trabalhava 12 horas, abria e fechava a academia e, após as 21h, eu treinava até 23h30. No outro dia levantava às 4h da manhã”, contou.
Hoje trabalhando em Coxim, ele afirma ter conquistado reconhecimento profissional e destaca o relacionamento construído com os alunos ao longo dos anos.
“A rotina é boa, cansativa, mas tenho reconhecimento. Trabalho com bons clientes e cobro um valor que jamais acreditei cobrar em Coxim, uma cidade de PIB baixo”, disse.
Mais do que orientar treinos, Marco afirma que busca transmitir aos alunos valores ligados à força mental e persistência.
“Para os meus alunos eu sempre busco transmitir força, mental e física. Abaixar a cabeça somente para Deus. Ensino eles a serem valentes durante a sessão de treino e, consequentemente, espero que sejam na vida”, explicou.
Sobre preconceito ou constrangimentos relacionados à monocularidade, Marco afirma que nunca passou por situações desse tipo. Para ele, a condição se tornou símbolo de superação.
“Eu carrego minha monocularidade como um caso de superação. Eu sei o que passei e sei o que superei. Isso é um troféu de uma batalha vencida”, declarou.
Marco também acredita que sua trajetória pode servir de incentivo para outras pessoas que enfrentam dificuldades emocionais ou inseguranças.
“Sinceramente, espero que inspire. Porque eu conheci o fundo do poço e saí dele. Então, se puder ajudar alguém, já é válido”, afirmou.
Ao falar diretamente para pessoas que enfrentam depressão, baixa autoestima ou medo de recomeçar, ele defende a prática esportiva como ferramenta de transformação pessoal.
“Primeiramente, não tenham medo. Vocês são capazes. Uma vida com esporte e Deus é impossível dar errado. Façam esportes por vocês, pelo amor-próprio, e vocês vão ver todas as outras áreas da vida melhorarem. Afinal, esporte é sobre autoconhecimento, superar limites e criar fortes laços”, concluiu.