Quarta-feira, 14 de outubro de 2026, 06:09

“A idade não precisa ser um limite para os nossos sonhos”, diz atleta que voltou ao esporte aos 36 anos

da Redação - 9 de set de 2026 às 15:45 290 Views 0 Comentários
“A idade não precisa ser um limite para os nossos sonhos”, diz atleta que voltou ao esporte aos 36 anos Da Redação

Aos 42 anos, Juliana Palo Machado carrega uma história construída entre a natação, a corrida e o triathlon. Natural de Paranavaí, no Paraná, onde nasceu em 28 de setembro de 1983, ela viveu toda a infância e adolescência em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, e começou no esporte ainda aos 10 anos, com a natação.

 

Na infância e adolescência, Juliana treinava intensamente e participava de competições regionais, estaduais, Centro-Oeste e Mercosul. Naquele período, havia um objetivo que ainda não tinha conseguido alcançar: disputar o Campeonato Brasileiro.

 

Aos 15 anos, ela conquistou o índice necessário para participar da competição. No entanto, na véspera do campeonato, o treinador decidiu retirar a equipe da disputa porque não poderia acompanhá-la. A decisão interrompeu uma preparação que havia sido construída durante anos.

 

“Eu tinha 15 anos e aquilo representou uma enorme frustração. Não era apenas deixar de participar de um campeonato: era ver interrompido um sonho para o qual eu havia trabalhado durante muito tempo”, relembra.

 

Juliana continuou nadando por alguns anos, mas, aos 18, interrompeu a prática esportiva para cursar a faculdade. Formou-se em Odontologia, casou-se e teve filhos. Entre 2010 e 2018, passou por quatro gestações. Teve três filhos e, em 2018, gestou também o filho da irmã.

 

O retorno ao esporte aconteceu em 2020, aos 36 anos. Juliana começou a correr, retomou a natação e conheceu o triathlon, modalidade que passou a ocupar um espaço importante em sua rotina.

 

A volta aconteceu em meio às responsabilidades profissionais e familiares. Entre o consultório, os filhos, o casamento e a casa, ela passou a conciliar uma rotina que chegou a incluir de dez a 12 treinos por semana, divididos entre natação, corrida, ciclismo e musculação. Em alguns períodos, eram dois treinos por dia.

 

“Entrei de cabeça nesse mundo”, conta.

 

Para Juliana, natação e corrida são modalidades que se complementam dentro de sua preparação. Enquanto uma trabalha mais determinadas regiões do corpo, a outra amplia as exigências físicas. Para ela, porém, as duas têm em comum outro aspecto: o fortalecimento mental.

 

“Sempre enxerguei a natação e a corrida como modalidades que se complementam em minha preparação. Uma fortalece mais as pernas; a outra trabalha também o tronco e os braços. Mas as duas fortalecem igualmente a minha mente”, explica.

 

A preparação para uma competição, segundo a atleta, também envolve aprender a reconhecer os limites do próprio corpo. A busca por evolução precisa caminhar junto com a capacidade de entender quando é necessário diminuir o ritmo.

 

“A mente nos ensina a continuar quando o corpo está cansado, mas também precisa ter sabedoria para reconhecer quando é necessário respeitar os nossos limites”, afirma.

 

Essa relação com o esporte também mudou ao longo dos anos. Juliana procura não transformar os resultados em uma cobrança permanente. Para ela, participar das provas e aproveitar a preparação são partes importantes da experiência.

 

“Antes de cada prova, sempre reforço para mim mesma que não vivo do esporte. Eu quero viver o esporte. Existe uma diferença muito grande entre essas duas coisas, especialmente na forma como lido com a autocobrança”, diz.

 

Com o retorno às competições, Juliana passou a participar de provas de triathlon, corrida e natação. A experiência acumulada na natação contribuiu para bons resultados, incluindo vitórias em campeonatos regionais e estaduais.

 

Mas foi em junho de 2025 que uma parte da história iniciada na adolescência ganhou um novo capítulo. Um amigo de Campo Grande a convidou para participar do III Troféu Brasil Master de Natação, realizado na Capital entre os dias 27 e 29 de junho.

 

O convite trouxe de volta o sonho que havia sido interrompido aos 15 anos. Juliana aceitou participar e, aos 41 anos, finalmente disputou um Campeonato Brasileiro de natação.

 

Na competição, participou de sete provas e subiu ao pódio seis vezes. Foram três medalhas de ouro, duas de prata e uma de bronze, além de um quarto lugar.

 

Mais do que os resultados, a competição teve um significado pessoal para a atleta.

 

“Mais do que as medalhas, aquele campeonato ressignificou uma história que havia ficado interrompida aos 15 anos. A menina que conquistou o índice, mas não teve a oportunidade de competir, pôde finalmente viver aquele sonho por meio da mulher que decidiu recomeçar aos 36”, relata.

 

A experiência também modificou a maneira como Juliana passou a enxergar a relação entre idade e esporte.

 

“Depois dessa experiência, compreendi que a idade não precisa ser um limite para os nossos sonhos”, afirma.

 

No triathlon, uma das competições mais marcantes ocorreu em dezembro de 2024, em Caiobá, no Paraná. Na prova de distância Sprint, Juliana terminou em quarto lugar na categoria.

 

Já na corrida, os maiores desafios estão relacionados às provas de longa distância. As meias maratonas estão entre as competições mais difíceis que já enfrentou, principalmente por causa de uma lesão crônica no joelho esquerdo, com lesão de menisco e artrose avançada.

 

Por isso, a preparação precisa ser acompanhada de cuidados específicos. Ao longo da trajetória, Juliana contou com treinadores e profissionais de diferentes áreas. Entre eles estão Bolinha, em Campo Grande; Ricardo Alleman, em Campo Mourão, cidade onde mora atualmente; e Rodrigo Triviño, de São Paulo.

 

As lesões também fizeram parte do processo e exigiram períodos de fisioterapia e fortalecimento. Segundo a atleta, houve momentos de cansaço e desânimo, quando a vontade de interromper os treinos apareceu.

 

“Quando o corpo cansa, a vontade de parar aparece. É nessa hora que o acompanhamento de um treinador, uma palavra de incentivo e o apoio das pessoas que dividem essa caminhada conosco fazem muita diferença”, afirma.

 

Nesse processo, Juliana passou a diferenciar motivação e disciplina.

 

“Aprendi que a motivação é o início, o impulso que nos faz dar o primeiro passo. Mas é a disciplina que nos mantém no caminho até a linha de chegada”, resume.

 

Uma das experiências mais recentes na corrida aconteceu na Meia Maratona de Florianópolis, realizada em 29 de agosto de 2026. A participação teve um significado que ultrapassou o resultado obtido nos 21 quilômetros, já que o marido e os três filhos também participaram do evento.

 

Ao final, os cinco integrantes da família haviam participado de provas e conquistado medalhas.

 

“Naquele momento, percebi que o exemplo que ofereço aos meus filhos pode ser muito mais poderoso do que qualquer conselho. Eu não precisei explicar o que o esporte representa: eles puderam sentir e viver aquela experiência”, conta.

 

Para Juliana, ver os filhos participando de uma atividade que faz parte de sua própria rotina foi uma das experiências mais significativas proporcionadas pelo esporte.

 

“Assistir aos meus filhos experimentando algo que faz tão bem para mim foi uma das maiores alegrias que o esporte já me proporcionou”, afirma.

 

Agora, a atleta tem um novo objetivo. Depois de experiências na natação, na corrida e no triathlon, pretende completar um Ironman 70.3.

 

“Hoje, meu próximo sonho, minha meta e meu grande objetivo é completar um Ironman 70.3. Quero buscar essa prova, preparar-me com responsabilidade e entregar o melhor que eu puder”, diz.

 

A preparação, segundo ela, será construída com tempo, disciplina e atenção aos limites físicos.

 

Para quem pretende começar a correr ou nadar, Juliana recomenda que o primeiro passo seja dado de maneira gradual e com orientação profissional.

 

“Comece devagar. Procure a orientação de um profissional e, se possível, convide um amigo ou uma amiga que possa incentivar você até que o exercício se transforme em hábito”, aconselha.

 

Ela também destaca que a motivação não estará presente todos os dias e que encontrar uma atividade prazerosa pode ser determinante para manter a regularidade.

 

“Não espere sentir motivação todos os dias, porque ela nem sempre estará presente. Encontre uma atividade de que goste e aprenda a valorizar cada pequena evolução”, afirma.

 

Para Juliana, os resultados esportivos são apenas uma parte do que a prática representa. O esporte também se tornou um espaço de equilíbrio em meio às responsabilidades profissionais e familiares.

 

“Para mim, o esporte não representa apenas desempenho ou resultado. Em meio a tantos compromissos, é nele que encontro equilíbrio e me reconecto comigo mesma”, explica.

 

A atleta entende que o treino também funciona como um momento de cuidado pessoal.

 

“O treino é o meu espaço, o momento em que posso cuidar de mim e reabastecer meu tanque de energia para, então, voltar mais inteira para a vida e para as pessoas que amo”, afirma.

 

A trajetória iniciada aos 10 anos, interrompida no início da vida adulta e retomada aos 36 anos passou a ser, para Juliana, uma forma de mostrar que os objetivos podem ser retomados mesmo depois de mudanças na vida.

 

“O esporte não elimina as dificuldades, mas nos ensina que somos capazes de atravessá-las”, afirma.

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