Personalidade | Gabriel Sato | 03/11/2019 09h34

Craque relembra anos dourados do futsal de MS

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O sonho de ser atleta de futebol profissional passa pela cabeça de muitos jovens no Brasil. Afinal, o esporte da bola nos pés é o principal no país. Meninos e meninas começam a chutar a pelota ainda nos primeiros anos de vida, e com Fernando Monteiro Valasques, mais conhecido como "Jacaré", não poderia ser diferente. Craque durante a "época de ouro" do futebol sul-mato-grossense, o ex-atleta recorda os tempos de brilhantismo no esporte com atuações memoráveis pelos campos e quadras, do até então estado de Mato Grosso.

Com passagem pelo juniores do Esporte Clube Comercial e times de futebol de salão como Savana, Camapuã e Santa Clara, equipe de destaque na década de 80 no estado, o ex-atleta iniciou seus passos no futebol nos anos 70, no São Bento, de Campo Grande-MS. Natural da Cidade Morena, Jacaré revela que o salonismo era pouco divulgado na época. Assim, a maioria dos jogadores optavam pelo esporte na grama.

As boas atuações com a camisa do São Bento renderam ao campo-grandense uma vaga no time de juniores do Esporte Clube Comercial, aos 15 anos de idade.
Segundo ele, muitos craques atuavam no estado de Mato Grosso e, durante seu período no Colorado da capital, era reserva de Gonçalves. “Um dos melhores volantes, até hoje, que atuou no Brasil”, opina o ex-atleta.

Ex-craque coleciona fotos da época de atleta já que não havia celulares (Foto: Arquivo Pessoal)

Oportunidade de jogar pelo Guarani

Jacaré tinha o objetivo de conseguir chegar ao profissional na sua carreira futebolística. Conforme depoimentos de apreciadores da modalidade na época, tinha talento para isso.

Meia armador, camisa 10 clássico, o jovem esperava por uma oportunidade. Um dia, ela chegou. "O Guarani, de Campinas-SP, ia jogar contra o Operário Futebol Clube e eles foram para o centro de treinamento do Comercial treinar. Chegando lá, nosso time dos juniores estava treinando. Então, paramos o treino e fiquei correndo em volta do campo junto ao Paulo Frederico. Como eles não vieram com 22 jogadores, faltaram atletas para fazer o coletivo. Já que estávamos ali correndo, nos chamaram para completar. Joguei, ‘deitei e rolei’ em cima deles".

Após a boa atuação no treinamento, a comissão técnica do Bugre quis levar os dois atletas a Campinas para integrarem a equipe de juniores. No entanto, veio a frustração de Jacaré. "Eles chamaram eu e o Paulo Frederico para jogar na equipe júnior, só que quando cheguei em casa e fui dar o recado à minha mãe, ela recusou na hora, disse que não queria que eu parasse de estudar e que o futebol não dava futuro. Apenas o Paulo foi".

De acordo com Jacaré, o companheiro de equipe jogava muita bola, mas, devido a lesões, não conseguiu mostrar tudo aquilo que se esperava.

Caminhos após a frustração

Em 1977, após ouvir o “não” de sua mãe, Jacaré foi incorporado ao Exército e fez partidas pelo União de Rondonópolis, pois, naquela época, o estado não era dividido. Depois de cumprir o serviço militar obrigatório, embarcou rumo a Nova Andradina para trabalhar. Lá, começou a jogar pela Sociedade Esportiva de Nova Andradina (Sena), clube ainda desconhecido naquele momento.

As boas atuações pela agremiação nova-andradinense ainda estão na memória dos torcedores da época, que, segundo o ex-atleta, lembram dos lances até hoje. "Às vezes me encontram e sempre perguntam se sou o Jacaré, falam que eu jogava demais e o duro é que na época não havia um monte de câmeras para fazer vídeo como hoje. Então, eu digo que estou igual a um museu, vivendo do passado".

Início no futebol de salão

Ao retornar a Campo Grande, em 1980, Jacaré migrou para o futebol de salão, modalidade forte no município na época. O Savana foi a primeira equipe da modalidade a atuar. Após boas atuações, veio o convite do dono do time da Santa Clara para fazer parte do elenco no ano seguinte. "A Santa Clara foi uma das melhores equipes que teve aqui no estado. De 1980 a 1986, foi o time que dominou tudo aqui em Campo Grande", recorda Fernando.

A equipe era composta por jogadores conhecidos e “rodados” em Mato Grosso do Sul, a exemplo de Flavio Kayatt, que chegou a ser convocado para a seleção brasileira. De acordo com Jacaré, essa geração “papava” tudo no futsal. Ele conquistou com o time a Copa Morena e Taça Canarinho.

Savana foi a primeira equipe que Jacaré atuou no futsal (Foto: Arquivo Pessoal)

Segundo o ex-atleta, a equipe era referência no estado e ele estava em seu auge físico e técnico, mas um trágico acidente mudou o rumo dos planos do jogador. “Era 1985 e eu estava jogando uma semifinal de Copa Morena. No caminho de volta, capotei o carro e precisei fazer uma cirurgia no joelho”.

Jacaré voltou ao futebol de salão recuperado, após período afastado das quadras, devido à cirurgia no joelho. De acordo com ele, é uma das piores lesões para qualquer atleta. Fernando retornou à ativa sem o mesmo preparo de antes e, desta vez, vestira a camisa da equipe de Camapuã.

Equipe da Santa Clara era referência no estado na década de 80 (Foto: Arquivo Pessoal)

Fase final da carreira

O time camapuense havia montado uma seleção. Como não possuía muitos atletas, o prefeito da cidade contratou cinco jogadores de fora, sendo quatro da Sociedade Esportiva Palmeiras, de São Paulo, além do campo-grandense. "Quando cheguei para jogar pelo Camapuã, dos cinco titulares, quatro eram do Palmeiras e apenas eu não fazia parte da 'rodinha' deles. Então, eles tentavam me queimar, jogavam a bola entre eles, mas quando viram que eu sabia jogar, comecei a organizar o time e os comandava dentro de quadra”.

Depois de encerrar a carreira, Jacaré continuou jogando bola apenas como diversão. Mas, hoje em dia, o pique não é o mesmo como de alguns anos atrás. Ele conta que fica feliz em ter feito parte da “geração de ouro” do futebol do estado e que já o reconheceram até em Florianópolis-SC. “Estava na praia passeando com minha família e me pararam para perguntar se realmente eu era o Jacaré. Fico feliz por as pessoas me reconhecerem e lembrarem dos gols até os dias de hoje”.

Para ele, o futebol atual é muito diferente do de sua época. Ele afirma que, atualmente, os atletas possuem tratamento de qualidade e, mesmo assim, conseguem jogar num baixo nível técnico. “Hoje, vejo que nascemos na época errada, porque hoje o cara dá um drible e já é craque. Antigamente, nós tínhamos que driblar o adversário e o campo, que não era o ‘tapete’ que é hoje. Não existia todos os tratamentos médicos e fisiológicos que os jogadores possuem”.

Ao analisar o cenário atual do futebol sul-mato-grossense, Jacaré aguarda por dias melhores, na esperança de que o esporte estadual volte a ser forte a nível nacional, assim como foi na sua época. “Hoje, no futebol faltam pessoas sérias, muitos são corruptos e o futebol estadual vai acabando. É necessário que se faça um trabalho de base, para que montemos fortes equipes e voltemos à elite do futebol”.

Jacaré no centro da quadra com o uniforme de Camapuã para seu último jogo (Foto: Arquivo Pessoal)

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