Editorial | Da redação | 30/08/2016 14h27

Neymar poderia ter dedicado o ouro a qualquer um. Preferiu provocar

Compartilhe:
Atacante poderia ter dedicado o feito às crianças, à família, ou ao seu cachorro. Preferiu provocar. Atacante poderia ter dedicado o feito às crianças, à família, ou ao seu cachorro. Preferiu provocar. (Foto: Reprodução/TV Globo)

“O povo brasileiro não pode se esquecer das crianças”. Foi com esta frase que Pelé, aos prantos, comemorou seu histórico gol de número 1.000, marcado em 1969, contra o Vasco da Gama, em um Maracanã com mais de 65 mil pessoas. Na ocasião, o discurso do Rei gerou polêmica, e ele acabou taxado de demagogo por parte da mídia.

Recentemente, na final dos Jogos Olímpicos do Rio, foi a vez de Neymar ter a oportunidade de marcar seu nome na história do futebol. Após disputa por pênaltis contra a Alemanha -que havia aplicado um implacável 7 a 1 na Seleção Canarinho na semifinal da Copa do Mundo dois anos antes-, Neymar contou com a ajuda do goleiro Weverton, que defendeu o último pênalti alemão, e apenas empurrou para as redes sua cobrança, dando o primeiro ouro olímpico para o Brasil. Foi aos microfones e soltou: “Vão ter que me engolir”.

A profecia do técnico René Simões, feita em 2010, parece que está se concretizando. À época, o então treinador do Atlético-GO criticou o primeiro ataque de estrelismo público do jogador, que defendia o Santos e bateu boca com o técnico Dorival Júnior. “Estou desde garoto no futebol e poucas vezes vi alguém tão mal-educado desportivamente. Está na hora de alguém educar esse rapaz, ou vamos criar um monstro”, disse.

Apesar de serem dois dos maiores ídolos da história do Santos e da Seleção Brasileira, Pelé e Neymar pouco têm em comum. O Rei, porém, pelo menos acertou em seu discurso após o histórico gol em Andrada. Neymar, após o ouro olímpico, não. A declaração, em tom de desabafo após ter sofrido seguidas críticas por conta de más atuações, não caiu bem.

O valor que cada um dos 18 integrantes da equipe campeã receberá da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), R$ 500 mil, é 14 vezes maior do que a premiação dada pelo COB (Comitê Olímpico do Brasil) aos medalhistas das outras modalidades. Agora, ainda mais, a fala do astro do Barcelona fica indigesta.

Conquistar um lugar no cenário nacional é o sonho de muitas crianças e adolescentes que praticam esportes. Muitos deles sequer conseguem uma bola, um tênis ou um par de luvas para competir. Levariam uma vida inteira para ganhar o que Neymar ganha mensalmente do Barcelona -valor mais que merecido, tamanho é o seu talento e a receita que sua imagem gera.

Ocorre que, como ídolo nacional, um atleta deve saber se portar, já que é referência para os mais jovens. Também deve saber receber e absorver críticas. Assim como o milésimo gol de um jogador profissional, um ouro olímpico é um momento único. Neymar deveria ter medido melhor suas poucas palavras, e não esbravejado contra aqueles que apontam seus erros.

Agora, fica a pergunta: quem é um poeta quando está calado?

VEJA MAIS
Compartilhe:

PARCEIROS