Editorial | Da redação | 16/08/2016 16h32

A continência e a mania de procurar pêlo em ovo

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Ginastas Arthur Zanetti e Arthur Nory, além do judoca Rafael Silva, prestaram continência no pódio. Ginastas Arthur Zanetti e Arthur Nory, além do judoca Rafael Silva, prestaram continência no pódio. (Foto: Getty)

Gesto comum entre os atletas brasileiros desde os Jogos Pan-Americanos de Toronto (CAN), em 2015, prestar continência no pódio ainda causa estranheza em alguns, principalmente naqueles que têm o hábito de procurar pêlo em ovo. E nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro não tem sido diferente.

Atletas como os ginastas Arthur Zanetti e Arthur Nory, o judoca Rafael Baby Silva e o atirador Felipe Wu, prestaram continência no pódio e levantaram uma polêmica -que nem era para ser tão polêmica assim- entre aqueles que sentem calafrios com qualquer sinal de militarismo: o gesto seria uma apologia ao período da Ditadura ou uma simples saudação militar?

A delegação brasileira nos Jogos tem 145 atletas militares, quase um terço do total. Até esta terça-feira, das dez medalhas conquistadas pelo Brasil, oito vieram das forças militares do Governo Federal. Apesar do número expressivo, o técnico de Zanetti, Marcos Goto, fez ressalvas quanto ao apoio do Ministério da Defesa.

“Gostaria que os militares fizessem um trabalho de base, tiraria o chapéu para eles. Agora, apoiar atleta de alto nível é muito fácil. Quero ver apoiar a criança até chegar lá. O dia em que os militares fizerem escolinhas e apoiarem iniciação esportiva, apoiarem treinadores, aí vou tirar o chapéu. Por enquanto, não”, disparou.

Seguindo esse raciocínio, seria correto afirmar que não deveríamos “tirar o chapéu” às empresas privadas que injetam milhões de reais por ano no esporte de alto rendimento, patrocinando atletas de elite? O técnico recebeu a mão, mas quer o braço.

As Forças Armadas não têm a obrigação de manter um atleta de alto rendimento. Muito menos formá-lo. Essa obrigação cabe aos governos federal, estadual e municipal, fomentando e apoiando o esporte nas escolinhas, clubes e, principalmente, nas escolas do ensino regular. As Forças Armadas sofrem, inclusive, seguidas reduções nas verbas que são destinadas ao Exército, Marinha e Aeronáutica.

A grosso modo, fazem apenas um favor a um poder público que não canaliza corretamente as verbas destinadas ao esporte, negligenciando a base e, ao mesmo tempo, não dando a devida atenção ao alto rendimento.

O apoio é fruto do Programa Atletas de Alto Rendimento, criado em 2008 e que tirou os atletas de elite do semiamadorismo. Além do salário pela graduação de terceiro-sargento que ocupam, pouco mais de R$ 3 mil, têm plano de saúde e direito a usar as instalações dos quartéis. Que mal há nisso?

Segundo o professor de Aperfeiçoamento em Gestão de Esportes da FGV-Rio, Pedro Trengrouse, “o protagonismo das Forças Armadas nestes Jogos é um sinal da deficiência que o Brasil tem para manter, desenvolver e sustentar seus atletas”. “Como não há condições para fortalecer as estruturas que formam esses atletas, especialmente os clubes, os militares acabam ocupando esse espaço”, cravou, em entrevista ao El País, coberto de razão.

Poliana Okimoto não prestou continência no pódio, mas fez o gesto em entrevista ao vivo à Rede Globo. “Eu sou sargento com muito orgulho”, disse a atleta. Agradecimento também é o sentimento da sargento Tang Sing, lutadora de taekwondo. “Graças ao Exército pude realizar meu sonho de participar dos Jogos Olímpicos. Antes não tinha nenhum apoio e estava a ponto de abandonar o esporte”, disse, também ao El País.

Apoiar atleta de alto nível não é tão fácil como diz Marcos Goto. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, temos ótimos atletas que dariam qualquer coisa para ter algum tipo de patrocínio. Não temos uma política de esporte, por mais precária que seja.

Nos casos citados acima, a continência, além de significar respeito à Pátria e à bandeira, é simplesmente um gesto de gratidão ao apoio recebido. Cabe aos atletas e técnicos, pelo menos, o reconhecimento a um trabalho que, se não é desenvolvido como eles querem, ao menos tira da sarjeta quem está fadado ao fracasso.

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