Diversos | Da redação | 24/12/2018 07h17

RETROSPECTIVA: UCDB encerra apoio ao esporte e revolta atletas

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A medida, que será tomada gradualmente, já foi repassada a alguns dos mais de 140 atletas. A medida, que será tomada gradualmente, já foi repassada a alguns dos mais de 140 atletas. (Foto: Divulgação)

Nem mesmo os bons resultados recentes -e os conquistados em mais de 20 anos- nas principais competições universitárias do Brasil devem impedir a UCDB (Universidade Católica Dom Bosco) de encerrar o apoio às modalidades esportivas, pelo menos, em sua maioria. A medida, que será tomada gradualmente, já foi repassada a alguns dos mais de 140 atletas que competem pela instituição durante o mês de novembro. E, com a ameaça de perder inclusive as bolsas que recebem, eles prometeram resistir.

“Ocorre que eles falaram que não sabem se vão garantir as bolsas dos atletas. Falaram um monte de mentira para nós, para que não fizéssemos uma manifestação na faculdade, mas os atletas irão fazer sim, como forma de protesto. Queremos que eles garantam que quem já esteja estudando, continue com a bolsa até o final do curso, mesmo que a modalidade tenha acabado”, disse uma atleta ouvida pela reportagem, sob condição de anonimato.

A história do incentivo do esporte na Universidade começou há duas décadas, com o futsal masculino. Desde então, modalidades como handebol, voleibol, basquete, futsal, além das individuais, protagonizaram uma rivalidade história com outras instituições de ensino de Campo Grande, como Mace e ABC, além de empilharem troféus nas galerias da instituição -somente nos Jogos Abertos de Campo Grande, são 14 conquistas.

Com isso, a UCDB não só ganhou projeção nacional com o esporte e tornou-se referência em Mato Grosso do Sul, mas, também, ajudou a formar centenas de profissionais com as bolsas de estudos concedidas aos atletas. A palavra ‘reestruturação’, sustentada pela instituição, não convence os atletas que dependem das bolsas para a conclusão dos estudos, já que até mesmo alguns professores já foram demitidos.

“Os únicos setores reestruturados são os ligados a projetos sociais e modalidades esportivas. Até o curso de Educação Física perdeu vários projetos vinculados à qualidade de vida em função dessa reestruturação. Chamaram representantes de cada modalidade para uma reunião e só falaram mentiras. Disseram que mandaram técnico embora por conduta profissional. Que foi feita uma avaliação, mas que não foi feita. Nós atletas não fomos ouvidos nessa avaliação. Questionamos o custo, e eles não têm esses dados”, afirmou a atleta Karen Renate Pinheiro Muller, que se formou em Direito e Educação Física como bolsista.

“Estou na UCDB desde 2005, me formei baseada nessa política de incentivo a formação do cidadão e não tem como o esporte não estar vinculado a isso. E, de uma hora pra outra, resolve acabar com tudo, e sem dar uma justificativa plausível. Não é questão financeira, mas é prioridade. O esporte não é mais prioridade para eles”, desabafou a atleta.

Segundo ela, a luta agora é manter a bolsa até o final do curso, já que muitos acadêmicos não têm condições de arcar com os custos das mensalidades. A UCDB, no entanto, propôs apenas mais um semestre, solução que foi aceita de maneira paliativa.

“Propuseram oferecer apenas um semestre. Aceitamos, mas queremos mais. Queremos que seja garantida a bolsa até a formação de todos os atletas que estão na instituição. Eles fizeram essa proposta para o vôlei masculino, mas deram um semestre e cortaram a bolsa. Estão querendo conversar apenas para evitar manifestação ou algum pedido de ajuda para que nossa causa não seja esquecida”, concluiu.

‘Lamentável’, diz primeiro coordenador de esportes da Instituição

Após uma reestruturação em 2017, o voleibol masculino deixou de existir na Católica. Conforme apurado pela reportagem, basquete feminino e o masculino, que foi vice-campeão dos Jogos Universitários Brasileiros deste ano, handebol masculino, campeão da Liga Universitária em 2017, e o futsal masculino, campeão da Taça Brasil 2018, também estão com os dias contados.

Primeiro coordenador de esportes e mentor das primeiras equipes de futsal da UCDB, Júlio César de Souza, o “Pelezinho”, reconhece o buraco que se abre no esporte de Mato Grosso do Sul com a retirada do apoio e das bolsas. Porém, como empresário, ele tem uma visão ponderada da situação e reconhece as dificuldades financeiras que a instituição enfrenta.

“No aspecto emocional, é lamentável. Pois é difícil você fazer uma coisa acontecer e, de repente, vem um pessoal, uma administração, e termina com o que deu certo por vários anos. Se olhar o lado administrativo, cada um sabe onde o calo aperta. A Universidade hoje passa por dificuldade financeira. Então, é muito fácil todo mundo criticar, principalmente órgãos públicos, mas a gente sabe que ninguém ajuda. Houve um investimento muito alto, com bolsa, técnicos, estrutura física. Conheço a realidade financeira da UCDB, é uma somatória que inviabiliza e desenha o quadro que está hoje”, ponderou.

“Esportivamente, é lamentável, pois o esporte precisa de apoio, precisa da UCDB, a única a nível universitário que apoiava o esporte. Existe também a gestão. Hoje, ela não tem uma visão voltada para o esporte. As instituições dependem de quem está na direção. Hoje, provavelmente a gestão não vê o esporte como um instrumento de impulsionar a universidade. É uma entidade particular, então, se quiserem acabar, vão acabar, é um direito. A gente lamenta. Óbvio que vai prejudicar os acadêmicos, muitos futuros profissionais. É lamentável que passe por isso”, completou.

Para o treinador de futsal Sérgio Pavão, formado na UCDB, mas que rivalizou por anos com a instituição no comando do time da Mace, a retirada das equipes deixará um vazio no esporte sul-mato-grossense.

“O esporte de base sempre foi carente de investimento da iniciativa privada. A UCDB sempre foi referência em disputas universitárias. É uma perda enorme. Ouvi falar que é reestruturação. Isso não existe. Existe você conversar com cada técnico e falar para ele diminuir custos, reestruturar. Quando vai acabar, não é reestruturação. É o fim mesmo, sinceramente não entendo. É um grande vazio que fica, pois a UCDB sempre foi referência. O mais importante foi o trabalho ininterrupto desde 1998. É muito triste. Como esportista, fui atleta da UCDB, fiz educação física lá com bolsa, e fui rival também, como técnico, mas não tem como aceitar isso, gostando de esporte. Meu sentimento é de tristeza e espero que essa decisão seja bem esclarecida pra opinião pública”, lamentou.

Com manifesto e abaixo-assinado, acadêmicos tentam manter esportes

Com um abaixo-assinado, um manifesto público assinado praticantes das modalidades e uma manifestação, durante a inauguração do ‘Shopping’ da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), acadêmicos tentaram manter o apoio ao esporte na instituição.

No abaixo-assinado online SOMOS TODOS UCDB, os atletas pedem que a instituição “repense suas decisões”, já que o incentivo às modalidades esportivas “é de extrema importância para o desenvolvimento esportivo do Estado”. “Também fazemos um pedido para que autoridades, fundações públicas, federações e confederações apoiem esse manifesto, pois é sintomático esse acontecimento, que muito diz sobre o futuro do esportivo do MS, tanto no âmbito universitário como no geral”, diz trecho do documento.

Atletas acusam padres da UCDB de ‘não contarem a verdade’

A polêmica envolvendo os bolsistas de esportes ainda ganhou novos contornos. Por meio de nota, um colegiado de acadêmicos, representando as modalidades que correm risco de extinção, acusou os padres da instituição de ‘não contarem a verdade’ sobre a dita ‘reestruturação’ feita na Católica.

Eles contam que, no dia 28 de novembro, um representante de cada modalidade se reuniu com o pró-reitor de Pastoral, João Marcos Araújo, “responsável pelos esportes que ‘sobrarão’ na Instituição”, segundo a nota, e o pró-reitor de Desenvolvimento, Giuliano Mazzetto. Além da notícia sobre o fim das modalidades, foram informados sobre o corte nas bolsas.

Ainda conforme os acadêmicos, os padres ‘fizeram questão de não contar a verdade’. “Na reunião, os padres, fugindo de seus princípios, fizeram questão de não nos contar a verdade, dizendo que as modalidades e os técnicos que haviam sido demitidos, tinham sido por base em uma avaliação que o ex-coordenador de esportes havia feito juntamente com os técnicos. Então, entramos em contato com todos os ex-funcionários e eles deixaram muito claro que a avaliação mencionada pelo padre sequer foi requisitada à eles”, afirmam.

“Hoje, a real intenção deles é impedir que nossa manifestação seja feita e eles estão fazendo de tudo para isso”, continuou a nota.

UCDB alega gastos de R$ 3 mi anuais e fala em investimento ‘solitário’

A UCDB garantiu que o investimento nas modalidades esportivas “não vai acabar”. A instituição fala em avaliações “que resultam determinadas readequações”, mas nega que as equipes estão com os dias contados. Por meio de uma nota de quatro parágrafos, também lida pelo reitor Pe. Ricardo Carlos em áudios que circulam em grupos de WhatsApp, a Católica fala que “vem investimento quase que solitariamente no esporte universitário”. “São cerca de R$ 3 milhões por ano, que garantem a participação em campeonatos locais, estaduais e nacionais, bolsas para os atletas em diversas modalidades e pagamento do corpo técnico e infraestrutura. Esse tipo de investimento não vai acabar”, garantiu.

Segundo os atletas, a instituição propôs apenas mais um semestre das bolsas esportivas. A nota garante que 130 seguem beneficiados com o investimento, mas não esclarece por quanto tempo. Além disso, a UCDB garantiu a continuação das equipes de futsal masculino e feminino, vôlei feminino e esportes individuais, como atletismo, judô e natação. Handebol, basquete e voleibol masculino não foram lembrados no texto e devem ser encerrados.

Procurada novamente, a assessoria de imprensa da UCDB informou que “o que a Universidade tem a dizer sobre o caso é o que está na nota”.

Deputados lamentam suspensão de atividades esportivas

A polêmica ainda chegou na Assembleia Legislativa. O deputado Herculano Borges (SD) comentou o anúncio da suspensão das atividades esportivas oferecidas pela Universidade. Formado em Educação Física, o parlamentar lamentou a decisão e enfatizou a necessidade do apoio do poder público ao esporte.

“É uma triste notícia. A UCDB desenvolve o esporte universitário há 20 anos. Participei da formação desse projeto, galgamos resultados e temos vários frutos com atletas nacionais e internacionais. São mais de 140 atletas que estão órfãos, por vezes atletas carentes, que tinham no esporte a oportunidade de estudo por meio de bolsa. Hoje o esporte de MS está de luto”, lamentou o parlamentar.

O deputado Barbosinha (DEM) também defendeu o projeto e alertou para a falta de investimentos na área. “Infelizmente, há um desconhecimento, por parte dos governantes, da força do esporte. A prática esportiva é incompatível com as drogas, com o ilícito, o praticante aprende a ganhar, a perder. Temos um celeiro de atletas em todas as áreas, mas que não se desenvolvem por falta de investimentos. O projeto foi estudado e sugerido ao Estado. O governador já sinalizou intenção de adotar a sugestão”, esclareceu Barbosinha.

Outros deputados também manifestaram apoio à causa do esporte. “A gente não gasta em esporte, a gente investe em esporte. Até porque o esporte permite transpor limites. Fico preocupado, pois as universidades sempre tiveram esse papel social. Gostaria que o reitor da UCDB pudesse reavaliar essa questão”, disse o deputado Professor Rinaldo (PSDB), líder do governo na Assembleia Legislativa. “Precisamos do apoio ao nosso esporte. Hoje, se fala tanto de investimentos em outras áreas, mas não se canaliza recursos para o esporte”, afirmou o deputado Cabo Almi (PT).

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